Por Valter Pomar (*)

“Foi um gesto de civilidade. Minha mensagem é: podemos vir a ser adversários, mas não precisamos ser inimigos nem jogar pedras um no outro”.

Foi com estas e outras frases do gênero que Fernando Henrique Cardoso justificou seu encontro com Lula, conforme se pode ler aqui:

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/foi-um-gesto-de-civilidade-nunca-rompi-com-lula-diz-fhc/

Não que se deva levar muito a sério o que FHC fala ou escreve.

Vamos lembrar que é dele a famosa frase: “esqueçam o que escrevemos no passado, porque o mundo mudou e a realidade hoje é outra”.

A história desta frase está aqui:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/13/mais!/7.html

Em 2006 e até pouco tempo atrás, FHC era capaz de dizer coisas muito diferentes, como se pode ler abaixo:

Explica-se: “o mundo mudou e a realidade hoje é outra”. Mas não esqueçamos: o que mudou uma vez, pode mudar de novo.

Sobre a tática da direita gourmet em 2021 e 2022, pode-se ler aqui:

http://valterpomar.blogspot.com/2021/05/lula-fhc-e-o-cardapio-democratico.html

Para além da conjuntura, cabe refletir acerca do significado da palavra “civilidade”, não apenas para FHC, mas para a direita gourmet e seus patrões.

Para eles, vale ao pé da letra o que está no dicionário, que define “civilidade” como um “conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia, polidez”.

A “elite” que comanda este país é capaz de demonstrar alguma (não muita, nem sempre) “civilidade” e ao mesmo tempo é capaz de apoiar – com atos e palavras – políticas que provocam sofrimento e dor em grande parte da população brasileira.

Para quem esqueceu: muito antes de Guedes e Roberto Campos Neto, tivemos Malan e Gustavo Franco.

Sendo assim, por qual motivo as “elites” gostam tanto de palavras como “civilidade”? Seria por uma concepção de democracia que contempla apenas as formalidades? Tratar-se-ia de cinismo e hipocrisia?

Um pouco de cada. Mas há também muito de esperteza.

Pois eles volta e meia exaltarem sua (suposta) “civilidade” não altera em absolutamente nada o comportamento explorador e opressor da classe dominante brasileira.

Mas pode alterar o ânimo da esquerda, parte da qual muitas vezes se deixa seduzir pelos temporários bons modos da Casa Grande e esquece o que se passa na Senzala.

Por estes e outros motivos, não se deve dar a mínima para as juras de “civilidade” vindas de FHC.

O Brasil só vai mudar para valer quando a esquerda e a maioria do povo derem a esta gente o tratamento prescrito por Lima Barreto no artigo “Sobre o maximalismo”, de 1 de março de 1919:

“Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer”.

Contra este mal, Lima Barreto deseja e apela por uma “convulsão violenta” contra os que “nos saqueiam, nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas. É preciso, pois não há outro meio de exterminá-la. Se a convulsão não trouxer ao mundo o reino da felicidade, pelo menos substituirá a camada podre, ruim, má, exploradora, sem ideal, sem gosto, perversa, sem inteligência, inimiga do saber, desleal, vesga que nos governa, por uma outra, até agora recalcada, que virá com outras ideias, com outra visão da vida, com outros sentimentos para com os homens, expulsando esses Shylocks que estão aí, com os seus bancos, casas de penhores e umas trapalhadas financeiras, para engazopar o povo”.

Estas e outras maravilhas de Lima Barreto podem ser lidas aqui:

https://autonomialiteraria.com.br/loja/historia-nao-contadas/lima-socialista/

Sem uma “convulsão” deste tipo – que assusta tanto as elites quanto assusta certa esquerda que tem mais a perder do que seus grilhões –  civilidade continuará sendo um “conjunto de formalidades” e a maioria do povo continuará sendo privada dos direitos mais básicos.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

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