Por Wladimir Pomar (*)

A cada dia que passa, e diante da crescente oposição social, o governo Bolsonaro se vê obrigado a colocar a nu seu caráter fascista radical, materializado na história humana pelo nazismo hitlerista.

É verdade que, no início, a fantasiosa imitação de Goebels, pelo secretário de cultura (ou seria curtura?), pareceu um ponto fora da curva, embora os insistentes confrontos práticos de Bolsonaro e de seus seguidores contra os direitos democráticos e pela implantação de uma ditadura militar indicassem o contrário.

A famosa reunião ministerial (que mais pareceu um convescote de desbocados raivosos), em que o ministro da educação (ou seria deseducação?), por outro lado, deixou claro seu desejo de prender “todos os vagabundos, começando pelo STF”, e o ministro contrário ao meio ambiente sugeriu passar a boiada sobre toda e qualquer regulação de proteção do meio ambiente, intensificou a percepção de que o país se confrontava com um fascismo extremado.

No entanto, o caráter nazista da ideologia bolsonarista só se escancarou quando o ministro da “curtura”, diante da possibilidade de ser processado por calúnia e difamação, apresentou uma defesa pública em que denuncia estar sendo submetido a uma suposta “Noite dos Cristais”. Isto é, a algo idêntico à matança massiva perpetrada pelas milícias nazistas, em 1938, principalmente contra judeus, caracterizando a natureza perversa, destrutiva e assassina da ideologia e da política levada a cabo pelo governo hitlerista.

Deixando de lado o ignorante absurdo da comparação tentada pelo ministro, o que veio à tona com desenvoltura foi a cultura referente ao nazismo, antes apenas explicitada pelo ex-secretário que tentou imitar Goebels, o ministro da propaganda de Hitler. Ou seja, a tropa de choque do governo Bolsonaro alimenta-se da cultura nazista e procura efetivá-la, seja prendendo todos os juízes do STF, seja passando a boiada sobre os regulamentos de conservação ambiental, seja declarando a toda hora que “agora acabou” qualquer resistência democrática aos planos da família bolsonarista.

O nazismo alemão, da mesma forma que, quase um século antes, o bonapartismo francês, alimentou-se de um ódio profundo a qualquer democratismo. Para compreendê-lo melhor vale a pena rever o Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, assim como a Ascenção e Queda do III Reich. Neles fica explicitado como o lumpen proletariado, ou lumpesinato, mistura errática de indivíduos antissociais provenientes de diversas classes sociais, pôde se transformar numa força política, e também militar, destruidora das liberdades democráticas, e de grandes contingentes populacionais, por meio da ditadura policial-militar e da guerra de expansão territorial e política.

É lógico que o nazismo hitlerista se aproveitou da crise econômica mundial para apresentar e executar um programa de reconstrução econômica através do crescimento exponencial da indústria armamentista, com o apoio massivo da burguesia, da pequena burguesia e de parcelas significativas dos trabalhadores alemães, apoio que só ruiu quando a aventura militar nazista entrou em colapso.

Já os problemas do nazismo no Brasil consistem, em grande parte, no fato de que mesmo as parcelas da classe trabalhadora e das classes médias que votaram no bolsonarismo começaram a se dar conta de que o nazismo dessa corrente política não é capaz de retirar o Brasil das crises econômica e sanitária, tendendo a piorar a situação.

Tão interessante quanto isso é o fato de que, mesmo parcelas da grande burguesia, que trabalharam arduamente pela exclusão do PT e da esquerda do governo central, não mais acreditam na capacidade bolsonarista de retomar o desenvolvimento econômico e criar uma tendência efetiva de recuperação das atividades produtivas e dos empregos.

Elas estão crescentemente preocupadas com as tendências nazistas e subordinadas ao trumpismo, apresentadas por Bolsonaro e diversos outros membros do governo, assim como com sua incapacidade e sua barafunda gerencial, incapazes de enfrentar a pandemia do Covid-19, apesar da grande unidade internacional na efetivação das recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Apesar disso, ou justamente pelo fato desses setores da burguesia haverem assumido a liderança no combate ao bolsonarismo, as forças populares de esquerda ainda não conseguiram traçar uma estratégia e táticas correspondentes para, por um lado, assumir a direção política na defesa dos direitos democráticos contra a ofensiva nazista e, por outro, de recuperar o apoio, a participação, e a incorporação dos grandes contingentes populares (trabalhadores e sem-sem) na defesa daqueles direitos e de ofensiva pela ampliação deles.

Para ser franco, embora seja estratégico que a esquerda política firme sua posição de defesa contra o nazismo bolsonarista, a situação política só mostrará resultados efetivos quando suas propostas estratégicas conquistarem grandes contingentes populares na luta por mudanças democráticas mais profundas. Mudanças relacionadas não só com a ampliação de direitos democráticos efetivos, mas também com o desenvolvimento econômico, a reindustrialização, a reforma agrária, e a geração de milhões de empregos.

Ou seja, quando estimulados por perspectivas econômicas, sociais e políticas, as camadas populares da sociedade brasileira passarem a participar, com força, nas disputas políticas, e apareçam efetivamente no campo de batalha, como ocorreu, a partir de 1978, com as lutas operárias e populares contra a ditadura militar.

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor

  

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