Por Rafael Tomyama  (*)

A ativista sueca Greta Thunberg, a vegana Brunna Sachs e a indígena Samela Sateré-Mawé são jovens lideranças de movimentos sociais que participaram de sessão no Senado na sexta-feira (10), que discutiu os resultados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Globais (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU).
 
Os dados científicos constantes do relatório do Painel são alarmantes e indicam a extinção da espécie humana na Terra em uma ou duas gerações, devido principalmente ao aquecimento global, decorrente da própria ação humana. Em sua fala, Greta questionou a responsabilidade do governo e líderes brasileiros na destruição da Amazônia e no massacre dos povos originários que a preservam.
 
Apesar da gravidade da situação, esta não é a pauta central da discussão entre lideranças e movimentos da esquerda à direita no país. Ou não se percebe a conexão entre o ascenso fascista e a práxis, a resistência democrática e suas diferentes táticas diante da emergência planetária em que estamos imersos.
 
A nossa Terra em Transe transita noutra órbita.
 
Cálculos eleitorais
 
A questão é que todos, exceto a quadrilha do gângster, raciocinam numa lógica eleitoral. Os partidos da direita abrigados no chamado “Centrão” e arredores sabem que Bolsonaro está eleitoralmente mais fraco do que nunca, além de fustigado pelas denúncias de corrupção e sob chantagem da prisão de seus familiares.
 
O tal “Centrão” quer aproveitar pra rapinar o país um pouco mais. A direita arrependida-do-que-fez-na-eleição-passada quer retirar a ultradireita do páreo para viabilizar a “terceira via” e obter os votos do conservadorismo (leia-se entreguismo, privatizações, destruição de direitos em benefício de outras frações do capital) que estão capturados pelo bolsonarismo.
 
O problema para direita gourmet tradicional “comportada” e golpista é temer que seu deslocamento pró-impeachment, acabe beneficiando à esquerda (além de paralisar o Congresso e seu programa de desmonte do Estado e criminalização das lutas). Por isso que inseriram e reforçam o discurso “nem Bolsonaro, nem Lula”. Quem compara Lula a Bolsonaro é só ingênuo ou mau-caráter mesmo?
 
Portanto, PDT, PSB e PCdoB prestam um desserviço ao se submeterem à demagogia do “Brasil Livre” (de quê?), mesmo considerando uma perspectiva meramente eleitoral.
 
Estarão de vermelho? Engolirão calados os insultos do MBL incitando a “escola sem partido”? Não reagirão ao Novo-Velho Amoêdo defendendo o desmonte e privatização da Petrobras? Aceitarão inertes o discurso pró-democracia do golpista PSDB, DEM e outros? Etc. Haja estômago para assistir tal farsa. A quem se diz de esquerda e vai, não há como dedicar “respeito” e sim lamentar tamanha desmoralização de si mesmo.
 
Ecologista e antifascista
 
O fato é que, na verdade, se não houver luta pela Democracia, pode nem haver eleição, podem nem ser só mais 4 anos. Mas a questão não é quem aparece ou não na foto e sim da estratégia para vitória, para levar adiante um programa que reverta as perdas e avance nas conquistas. Os líderes do movimento dos isentões e “arrependidos” de hoje perguntemos: Quais seus compromissos políticos? Em que ajudarão na implantação de um programa democrático-popular, com soberania, equidade e sustentabilidade?
 
Há um ditado popular que diz que “quem se junta com porcos, farelo come”.
 
A esquerda precisa aprender com os próprios erros e não insistir em repeti-los, esperando um resultado diferente. A trajetória de Temer, por exemplo, explica como o MDB deixou de ser o conservadorismo constituinte (de Ulysses, Simon e Requião) da transição pactuada com a ditadura e passou a “conselheiro” da valsa de Bolsonaro.
 
Já Bolsonaro “parece” um covarde, apenas preocupado em salvar a própria pele e os filhos da cadeia. Parece porque já testou levar a institucionalidade ao limite e viu como funciona. Agora faz um recuo tático já sabendo das forças que dispõe e das que precisa converter para si, para realizar um plano totalitário.
 
Se é assim, temos que rever as pautas e estar conectados com as que têm a ver com a sobrevivência e a saúde planetária. E vamos precisar de muita gente. Não dos engravatados da Paulista ou de Wall Street e sim fazer o “morro descer”. E pra isso, precisamos (à esquerda) falar com outra linguagem e com outras pessoas. Não é com esses aí

(*) Rafael Tomyama é jornalista e ambientalista.

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