Por Valter Pomar (*)

Folha de S.Paulo publicou, no dia 24 de março de 2021, um artigo intitulado “Não haverá terceiro nome em 2022 se Lula se fortalecer no centro”. O artigo é assinado por Eugênio Bucci e Carlos Melo. Melo é professor do Insper. Bucci é professor da USP, foi militante petista e presidente da Radiobrás de 2003 a 2007.

O artigo começa afirmando que desde “o final da ditadura militar, nós nos acostumamos a pensar a política no Brasil como um pêndulo entre polos acomodados no PT e no PSDB”.

Segundo Melo&Bucci, ao PT “convencionou-se chamá-lo de esquerda”; já o PSDB “com o tempo (…) assumiu o posto da centro-direita”.

Os autores dizem que “acreditávamos que a alternância entre os dois fortaleceria os acertos e corrigiria os erros de cada um”.

Mas, sempre segundo Melo&Bucci, “em 2013, isso começou a mudar: havia nas ruas algo descolado da velha dicotomia PT-PSDB e seus satélites costumeiros (…) exumadas das profundezas da história patriarcal e escravagista, vozes cavernosas passaram a clamar por tirania e intervenção militar”.

Faço aqui um primeiro comentário: qualquer que seja a avaliação que façamos sobre o que ocorreu em 2013, é curioso que os dois professores falem da “exumação” da extrema-direita e não falem da responsabilidade que os tucanos e seus aliados da direita gourmet tiveram na referida exumação (termo ademais inadequado).

O mesmo ocorre quando os autores falam do impeachment de 2016: “a extrema direita mais furibunda mostrou a cara por inteiro”. É verdade. Mas também é verdade que o impeachment, assim como a condenação, prisão de interdição de Lula não foram obra da extrema direita, mas sim da direita gourmet, tucanos à frente.

Ao contrário do que dizem Melo&Bucci, não foi “o vazio de liderança política” e a “dissonância social” que “pariram Jair Bolsonaro”. Foi a direita gourmet.

Tampouco é verdade que “PT e PSDB foram empurrados para o canto da sala e, desde então, não mais polarizam as corridas eleitorais”.

É verdade que em 2018 não houve polarização entre PT e PSDB, diferente do ocorrido nas eleições presidenciais de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014.

Mas em 2018 não houve polarização entre petistas e tucanos, porque o PSDB experimentou um desastre eleitoral. O mesmo não ocorreu com o PT.

A polarização de 2018, assim como a de 1989, foi entre uma candidatura de extrema-direita e o PT.

A diferença é que em 1989 o PSDB, apesar de FHC, apoiou o PT contra Collor.

Já em 2018, o PSDB oficialmente decidiu não apoiar ninguém.

Mas uma análise dos mapas eleitorais, do comportamento de lideranças importantes e das atitudes da bancada tucana no Congresso mostram outra coisa.

Portanto, Melo&Bucci tentam demonstrar que existe uma simetria onde ela não existe.

Segundo entendi a tese dos professores, como a política brasileira teria se deslocado para a extrema-direita, a centro-direita e a esquerda, “petistas e tucanos autênticos, antes apartados, passaram a figurar mais ou menos juntos, em um ponto largo que se estende da centro-direita à esquerda tradicional”.

Não sei  exatamente o que os professores querem dizer com a expressão “tucanos autênticos”, mas os autores simplesmente confundem seu desejo com a realidade.

Seu desejo: “o que era centro foi violentamente empurrado para a sua esquerda, de tal modo que PSDB e PT, hoje, habitam o mesmo flanco, são vizinhos. Em outras palavras, o centro se deslocou para a esquerda e a esquerda fez uma inflexão ao centro”.

Já a realidade pode ser vista, por exemplo, na recente votação sobre a autonomia do Banco Central: o PT disse não, o PSDB disse sim.

Se elencarmos as principais votações ocorridas em 2019, 2020 e nesse início de 2021, veremos que não procede dizer que o PSDB (que eles chamam de centro e eu chamo de direita gourmet) foi “empurrado para a sua esquerda”!

Não é fato que a “distância entre PT e PSDB parece ínfima quando comparada ao abismo que os separa da selvageria armada pelo governo federal”.

No que toca ao programa, os tucanos seguem uns selvagens (e seus governos tampouco indicam qualquer deslocamento à esquerda).

De onde então os dois professores tiram sua interpretação de que existiram mais “identidades do que arestas” entre PT e PSDB?

Ao menos no seu texto, eles citam apenas a “simbólica” declaração em que FHC teria dito que “entre Lula e Bolsonaro, em 2022, não hesitaria em sufragar o primeiro”, pois Lula seria “o menos pior”.

Convenhamos: o que FHC disse é que a direita gourmet precisa construir uma candidatura alternativa tanto a Bolsonaro quanto a Lula. Senão não lhes restará alternativa senão votar no “menos pior”.

Sem dúvida isto é um avanço em relação a 2018, mas não autoriza ninguém a falar em “distância ínfima” entre tucanos e petistas.

Vejamos agora o que dizem Melo e Bucci sobre Lula e o PT.

Primeiro, afirmam que “em questão de poucos dias, a candidatura de Lula” (…) ocupou o espaço vazio que estava à espera” de uma figura “inovadora”, “nem de esquerda, nem de direita”.

Não é genial o raciocínio?

Primeiro se desenha um mapa com dois pontos: de um lado Bolsonaro, de outro “um ponto largo que se estende da centro-direita à esquerda tradicional”.

Depois se diz que este ponto largo precisa de uma “figura inovadora”, que teria de ser “nem de esquerda, nem de direita”.

Depois se afirma que Lula teria ocupado este espaço vazio.

Não lhes passa pela cabeça que este espaço foi ocupado porque Lula é… de esquerda, ou seja, vincula-se no imaginário popular a valores de igualdade, de solidariedade, de bem estar social etc.

Mas para os dois professores, não basta que Lula tenha ocupado um espaço vazio. Para ambos, Lula teria que fazer algo mais: “demonstrar habilidade na costura de alianças”. Se fizer isso, aí Lula, “líder de esquerda”, “poderá se fortalecer como o maior expoente do centro alargado. Se isso se confirmar, não haverá um terceiro nome viável para 2022”.

Sedutor né?

Se for ao centro (na linguagem deles) ou à direita gourmet (na minha terminologia), Lula poderia então ser o único candidato “viável” de quem deseja derrotar o bolsonarismo.

Em 2018 também havia um único candidato “viável” para quem desejava derrotar o bolsonarismo. O nome dele era Fernando Haddad. Mas a direita gourmet naquela ocasião foi de fato com Bolsonaro.

Como evitar que isso se repita?

A condição, segundo Melo e Bucci, é que “para vencer as resistências à sua candidatura —demonstradas recentemente por pesquisa do Datafolha, dando conta de que 57% dos brasileiros acham que Lula é culpado de corrupção—, Lula terá de enunciar uma mensagem clara contra os graves desvios éticos registrados em seus governos”.

Melo e Bucci dizem mais: “Só assim poderá representar forças democráticas sem filiações de esquerda. Terá de assumir compromisso de que determinados erros —e crimes— não serão repetidos em um eventual futuro governo”.

Ou seja: não basta que a candidatura Lula se apresente como “nem de direita, nem de esquerda”; será preciso também que ela faça um mea culpa sobre “erros” e sobre “crimes”!!

Crimes!!

Releiam o texto: nada tão pesado é assacado contra o PSDB e seus governos.

Para Melo e Bucci, se quiser ser candidato da direita gourmet (esta que até agora não tem alternativa viável), Lula teria que desfigurar seu programa e, além disso, fazer aquilo que a Lava Jato há anos tenta fazer, sem sucesso.

É tão bizarro e indecente que confesso não ter certeza se Melo e Bucci estão falando sério.

Mas eles não param por aí.

Segundo os dois professores, “se vier, de fato, a se firmar como aglutinador dos que querem varrer o bolsonarismo do poder, Lula passará a depender de uma estratégia que precisa postergar o enfrentamento contra Bolsonaro para 2022. Isso significa que o impeachment deixará de fazer parte da pauta preferencial do lulismo”.

Depois de ler isso, é inevitável perguntar: se a direita gourmet estaria tão próxima assim da esquerda, por qual motivo não aproveitar esta situação para fazer o impeachment e aprovar a PEC que estabelece antecipação de eleições em caso de afastamento do presidente?

Os professores não respondem. Dizem apenas que “para vencer Bolsonaro, a articulação pró-Lula verá benefícios táticos em manter o presidente no cargo, tentando fazê-lo sangrar até o ano que vem”.

Quais benefícios táticos?

Os professores não dizem.

Confessam que este adiamento “cobrará seu preço em mais sofrimento, mas poderá abrir caminho para uma vitória mais sólida e mais duradoura no futuro. Vai ser penoso”.

“Penoso” é pouco: cada dia a mais do cavernícola na presidência implica em assassinato (pois é disso que se trata) de milhares de brasileiros e brasileiras. Sem falar na dor, no sofrimento, nos danos causados à economia, à soberania, às liberdades, além de outros danos que são citados no texto dos professores.

Sendo assim, não consigo entender como a persistência dessa situação possa abrir caminho para uma “vitória mais sólida e duradoura”.

Melo e Bucci terminam seu texto dizendo já ser tempo de jogar por terra “o equívoco dos que insistem na tese de que Lula e Bolsonaro são males simétricos, ainda que com o sinal invertido”.

Não acho que se trate propriamente de um “equívoco”.

Assim como não acho que seja um “equívoco” acreditar, como acreditam os professores, que a polarização entre PT e PSDB seja produto de “erros do passado” ou de “interesses pessoais”.

O que ocorre é que os professores acham que “a polarização que conta para o Brasil se define pelo dilema existencial entre civilização (democracia) e barbárie (bolsonarismo)”.

Nesta equação falta o capitalismo neoliberal, de que Bolsonaro é uma das expressões e a direita gourmet (PSDB incluído) é outra.

Se os tais “tucanos autênticos” (talvez a expressão caiba para o Bucci, pois é isto que ele é na minha opinião) querem mesmo defender a civilização e a democracia, não basta demarcar com Bolsonaro, é preciso também romper com o programa neoliberal que o PSDB defende desde sua criação.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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SEGUE O TEXTO CRITICADO

Carlos Melo, Cientista político e professor do Insper

Eugênio Bucci, Jornalista e professor da ECA-USP

Desde o final da ditadura militar, nós nos acostumamos a pensar a política no Brasil como um pêndulo entre polos acomodados no PT e no PSDB.

O primeiro nasceu da confluência entre o movimento sindical dos anos 1970, a base radicalizada da Igreja Católica e as organizações clandestinas que se opunham aos militares. Convencionou-se chamá-lo de esquerda.

O segundo surgiu de um racha do velho MDB, autodeclarando-se social-democrata. Com o tempo, aliou-se a próceres civis do regime autoritário, e, sobretudo após o ocaso do malufismo, no início dos anos 2.000, assumiu o posto da centro-direita.

Nessa gangorra desengonçada se escondia um indefinível ponto de equilíbrio. O eleitorado tendia ora para um lado, ora para outro, em oscilações que davam a impressão de que o dilema do poder no Brasil se resumia a escolher entre esses polos.

Sendo ambos gerados no campo da democracia, a polarização se dava em torno de divergências naturais em relação à política econômica ou à abrangência de políticas públicas. Acreditávamos que a alternância entre os dois fortaleceria os acertos e corrigiria os erros de cada um.

Em 2013, isso começou a mudar: havia nas ruas algo descolado da velha dicotomia PT-PSDB e seus satélites costumeiros. Do asfalto tomado pelas multidões, aflorou uma crítica feroz ao Estado —de resto, ineficiente.

Logo percebemos que o atraso, a treva e a selva desfilavam nas passeatas, ao lado de milhões de pessoas de boa fé. Em algumas das vertentes projetadas por 2013, o propósito parecia pender para a eliminação do Estado, ao invés de apostar em aperfeiçoamentos institucionais. Exumadas das profundezas da história patriarcal e escravagista, vozes cavernosas passaram a clamar por tirania e intervenção militar.

À primeira vista, o brado reacionário parecia folclórico, algo caricato, mas logo se viu que o pesadelo tinha vindo para ficar e falava sério. Em 2016, no impeachment casuístico de Dilma Rousseff, a extrema direita mais furibunda mostrou a cara por inteiro. O moralismo de fundo religioso, a violência policial, as milícias semiclandestinas e os piores ícones do regime militar deram então de assombrar a opinião pública e o Congresso Nacional.

O vazio de liderança política e a dissonância social pariram Jair Bolsonaro. A eleição de 2018 destampou o esgoto. O autoritarismo atroz, primário e regressivo saiu dos porões pretéritos para se instalar no Palácio do Planalto atual. A trágica reviravolta se consumou: PT e PSDB foram empurrados para o canto da sala e, desde então, não mais polarizam as corridas eleitorais.

Em solavancos, o ecossistema político se expandiu para a extrema direita, turvando e mesmo violando as fronteiras do campo democrático. O resultado disso é que petistas e tucanos autênticos, antes apartados, passaram a figurar mais ou menos juntos, em um ponto largo que se estende da centro-direita à esquerda tradicional.

Tenhamos isso bem claro: com o surgimento do extremismo antidemocrático, nada está à direita do governo e o que era centro foi violentamente empurrado para a sua esquerda, de tal modo que PSDB e PT, hoje, habitam o mesmo flanco, são vizinhos. Em outras palavras, o centro se deslocou para a esquerda e a esquerda fez uma inflexão ao centro.

O novo tabuleiro da política não deixa dúvidas. A distância entre PT e PSDB parece ínfima quando comparada ao abismo que os separa da selvageria armada pelo governo federal. Há mais identidades do que arestas entre ambos, o que explica as aproximações noticiadas pela imprensa. Simbólica é a recente declaração de Fernando Henrique Cardoso de que entre Lula e Bolsonaro, em 2022, não hesitaria em sufragar o primeiro, “o menos pior”.

Com efeito, o nome de Lula ganha um toque crucial na conjuntura. Liberado das condenações que o arrancaram da vida pública, ele retorna como alternativa para 2022. Depois do antilulismo, encarnado por Bolsonaro, abre-se a temporada do antibolsonarismo, ou do anti-antilulismo, a ser encarnado por Lula. Esse fato novo gera três consequências.

A primeira é que, em questão de poucos dias, a candidatura de Lula —não expressa, mas claramente colocada— ocupou o espaço vazio que estava à espera de uma figura “inovadora”, “nem de esquerda, nem de direita”. Ficou patente que, se demonstrar habilidade na costura de alianças, Lula, líder de esquerda, poderá se fortalecer como o maior expoente do centro alargado. Se isso se confirmar, não haverá um terceiro nome viável para 2022.

A segunda consequência, decorrente da primeira, é que, para vencer as resistências à sua candidatura —demonstradas recentemente por pesquisa do Datafolha, dando conta de que 57% dos brasileiros acham que Lula é culpado de corrupção—, Lula terá de enunciar uma mensagem clara contra os graves desvios éticos registrados em seus governos.

Só assim poderá representar forças democráticas sem filiações de esquerda. Terá de assumir compromisso de que determinados erros —e crimes— não serão repetidos em um eventual futuro governo.

A terceira consequência carrega uma dose de ironia: se vier, de fato, a se firmar como aglutinador dos que querem varrer o bolsonarismo do poder, Lula passará a depender de uma estratégia que precisa postergar o enfrentamento contra Bolsonaro para 2022. Isso significa que o impeachment deixará de fazer parte da pauta preferencial do lulismo.

O paradoxo é cruel: para vencer Bolsonaro, a articulação pró-Lula verá benefícios táticos em manter o presidente no cargo, tentando fazê-lo sangrar até o ano que vem. O paradoxo cobrará seu preço em mais sofrimento, mas poderá abrir caminho para uma vitória mais sólida e mais duradoura no futuro. Vai ser penoso.

De todo modo, é mais ou menos isso o que vai se desenhando no horizonte próximo. Enquanto dura o suspense, aguardemos que os atores políticos e líderes empresariais que deram sustentação até hoje ao presidente da República amadureçam e reconheçam que a experiência bolsonarista só nos rendeu degeneração institucional, desmatamento, desemprego generalizado e elevação do número de mortes, sem falar no isolamento internacional.

Já é tempo de jogar por terra o equívoco dos que insistem na tese de que Lula e Bolsonaro são males simétricos, ainda que com o sinal invertido. Essa ilusão de ótica, cujos efeitos foram e são nefastos, precisa ser abandonada o quanto antes, até para que se qualifique a crítica a Lula e ao PT e se desenvolvam novos termos de entendimento.

A catástrofe gerada pela pandemia no Brasil prova que o desgoverno atual dizima vidas e esperanças, em todas as frentes. As insistentes tentativas empreendidas pelo chefe de Estado em promover a ruptura institucional, com ataques em série contra a democracia, só fazem agravar os danos à economia. Isso tudo consuma o caráter sem caráter do pacto autoritário que aí está. É necessário virar o jogo.

Para tanto, a polaridade de antes deve ser superada. Sem esquecer os erros do passado, tanto do PT quanto do PSDB, é preciso construir uma frente com olhos no futuro. Precisamos selar acordos acima de interesses pessoais de quem quer que seja.

A história não anda para trás, mas um país desgovernado pode, sim, retroceder. A gravidade da hora nos diz que a polarização que conta para o Brasil se define pelo dilema existencial entre civilização (democracia) e barbárie (bolsonarismo).

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