Por Ana Lídia Lula da Silva*

Dia desses pedi aos meus alunos para que pudessem me contar a história deles, relacionando a vida de cada um e cada uma com a história do Brasil. E nesses três dias que seguimos em vigília no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, o que me vinha à cabeça era mais do que defender o presidente, era também a minha história.

Na última quinta-feira (5 de abril) saí da escola onde leciono no fim da noite e segui direto para São Bernardo sabendo que a resistência ali seria fundamental para dar o tom para o próximo período. Fui para o Sindicato dos Metalúrgicos motivada pela luta, motivada pela minha história, motivada pela defesa dos direitos, motivada contra a injustiça, motivada pela esperança!

Cercada de muita gente que, são mais do que militantes, para mim são companheiras e companheiros de luta. Estava com cada um e cada uma lado a lado para lutar, sabíamos o que iríamos enfrentar nos próximos dias.

Naquela madrugada, inúmeros familiares e amigos de todas as etapas de minha vida mandavam mensagens perguntando como estavam as coisas e pedindo orientação de como prosseguir.

Em um dado momento parei para pensar quem eram aquelas pessoas que estavam ao meu lado, as que me mandavam mensagens e como foi que conheci cada uma delas. Daí por diante, parei para refletir sobre minha vida e como ela está intimamente ligada a história do PT.

Eu nasci no ano de 1988, no ano em que foi promulgada nossa última constituição brasileira fruto da Ditadura Militar. Cresci em uma família de operários, mãe e pai metalúrgicos no Vale do Paraíba. Tias, tios e avós que foram criados na roça, passando as mais diversas dificuldades da vida por não terem o que comer, o que vestir e um emprego para trabalhar. Uma família tipicamente brasileira.

Passei minha infância vendo minha família lutar por um outro país mais justo construindo o PT. Lembro-me que quando era criança e minha mãe me levava aos comícios eu enxergava tudo aquilo como uma grande festa. Mas quando vi meu pai ficar desempregado duas vezes durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, mesmo pequena, sabia que aquela festa estava relacionada com a melhoria da nossa vida. Quando conheci os movimentos sociais na década de 1990, o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragem, a Pastoral da Juventude, o Movimento dos Sem Universidade, mesmo sem entender muito, sabia que tinha algo maior acontecendo.

Por mais criança que pudesse ser, as crianças sabem quando algo não está bem. Quando ía ao supermercado com meus pais fazer a compra do mês com o ticket da fábrica, acompanhava as dificuldades de levar a comida para casa porque todos os itens tinham que ser minimamente escolhidos e calculados. Não passamos fome, mas não podíamos ter além do que se podia comprar com aquele ticket.

Os dias e os anos passavam e a luta continuava. Fui crescendo e em um domingo de outubro em 2002, na Praça Kennedy na cidade de São José dos Campos, com 14 anos, eu experimentei umas das sensações mais emocionantes de minha vida. Vi minha família e muita gente que nem sabia quem era comemorando com choros de felicidade e abraços fraternais a vitória do primeiro operário à Presidência da República. Lula não era mais o nome das minhas bonecas (sim, elas tinham nome de Lula), nessa época para mim Lula já era a maior liderança popular e o maior símbolo de esperança deste país.

Pouco tempo depois eu já comecei a sentir o que Lula e o PT representariam em minha vida de maneira mais concreta.

Em 2007 ingressei numa Universidade Pública Federal criada por Lula e pelo PT e isso não foi pouca coisa. Foi o ingresso na Unifesp que mudou minha história. Fui fazer Ciências Sociais e por meio da Universidade eu percebi que a educação transforma a sociedade. Saí de São José dos Campos que há 12 anos vinha sendo gerida pelo PSDB e fui morar na segunda maior periferia do Estado em Guarulhos, cidade administrada pelo PT e pude sentir mais ainda que era um governo de trabalhadores para trabalhadores.

Não é qualquer um que ousa colocar uma Universidade na periferia, não é qualquer um que ousa permitir que o filho da classe trabalhadora ingresse em uma Universidade e o impacto de tais políticas na vida do povo foi maior do que os próprios governos no PT poderiam imaginar. Agora, não precisava mais contar o ticket alimentação da fábrica para saber se conseguiríamos fazer a compra do mês.

Em 2008, entendendo como todas as políticas do governo Lula e do PT estavam impactando positivamente na qualidade de vida do povo, entendendo que muito ainda tinha por fazer, entendendo que o PT ainda é a maior ferramenta da classe trabalhadora para disputar a sociedade e acabar com os privilégios da elite burguesa eu decidi me filiar ao PT.

De lá pra cá muita coisa aconteceu, eu me formei na graduação, tornei-me mestre em Ciências Sociais, tornei-me professora viajei, conheci lugares, conheci pessoas, fiz amigas e amigos, companheiras e companheiros. E tudo isso não foi feito apenas porque me dediquei individualmente, mas porque os governos do PT, de Lula e Dilma, e graças as muitas lutas da classe trabalhadora eu poderia desfrutar de mais direitos.

No entanto, naquele mesmo momento as forças golpistas estavam dando sinais que não toleraria mais o filho do pobre na universidade, que a classe trabalhadora conseguisse melhores empregos, que viajasse e que pudesse ter o direito a ter direito. Isso tudo devido a grave crise capitalista internacional de 2008 que a burguesia e o grande capital não quiseram pagar a fatura da crise que eles mesmos criaram. Assim, investiram em tirar de quem não estava dentro do quadro de privilégios, isto é, tirar de nós!

Em 2013, foi aquela loucura que muitos de nós lembramos. Saímos às ruas por uma pauta justa: a do acesso à cidade por meio da redução da tarifa de transporte e por passe livre!

Mas, a burguesia e a direita começaram a disputar as ruas e colocar suas pautas.

Em 2014, a direita começava a radicalizar contra os nossos avanços. Neste sentido, chegou, de surpresa para mim, um dos maiores desafios de minha vida: aceitei ser candidata a deputada federal. Naquele momento, a aceitação da tarefa se deu pela responsabilidade que tinha com o que o PT fez por minha vida, pela minha família e pelo povo brasileiro. Sabia que o que estaria em jogo não era apenas uma possível vitória eleitoral, mas a defesa da soberania nacional, da Petrobrás, da democracia e dos direitos. O que estava em jogo era o Plebiscito por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político Brasileiro. O que estava em jogo era uma outra ordem social rumo ao socialismo.

Ganhamos mais uma vez as eleições presidenciais com Dilma Rousseff e a burguesia não aceitou. A pressão do lado de lá foi tão forte, que de maneira equivocada, achando que se cedesse um pouco a burguesia poderia nos deixar continuar nossas mudanças, o governo Dilma optou por uma política econômica recessiva. Isso, por um lado, deixou os trabalhadores e trabalhadoras descontentes com nosso governo, e por outro, permitiu que a burguesia percebesse que poderia nos sugar até derrubar a presidência.

É certo que o PT fez muito pelo país, mas deixamos de fazer algo central para mudar a correlação de forças: as reformas estruturais tão necessárias para acabar com a desigualdade social, etnico-racial e de gênero, como a Reforma Política, Reforma Agrária, Reforma Tributária, Reforma Urbana, Democratização dos meios de comunicação, etc.

A opção pela política de melhorias sem rupturas permitiu que as alavancas do poder hegemônico do grande capital e da burguesia se mantivessem intactas. O oligopólio da mídia, comandado pelas organizações Globo, saiu numa empreitada de difamação e criminalização da esquerda, do PT e de suas lideranças, promovendo um verdadeiro golpe midiático contra os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores. Em consonância com o judiciário parcial e com o parlamento burguês derrubaram Dilma, retiraram direitos da classe trabalhadora e diminuíram nossa qualidade de vida. E hoje, eles dão sua última cartada com a condenação sem provas de Lula.

Impedir Lula de ser candidato e de fazer campanha é tentar impedir que um governo dos trabalhadores para os trabalhadores volte a afrontar a ordem desigual, machista, racista, lgbtfóbica e violenta daqueles que desde sempre se mantiveram no topo do poder. Lula é a principal liderança popular do país capaz de revogar as medidas do governo golpista, fazer as reformas estruturais e ainda, convocar uma nova Constituinte. E é por isso que prenderam Lula.

Quando vi o Presidente Lula falando para o povo antes de ser levado à Polícia Federal no último sábado, emocionei-me a cada palavra e a cada música cantada que marcaram nossas histórias.

Suas palavras faziam sentido para mim e para aquelas e aqueles que ali estavam, isso porque sentíamos na pele a injustiça, a violência e a desigualdade. Sentimos que já não somos mais os mesmos. E não voltaremos a ser! Experimentamos as mudanças em nossas vidas e não queremos voltar a ser o que éramos antes de Lula, de Dilma e do PT: não mais seremos um povo subordinado aos interesses de uma elite, e já não mais acreditamos na história única da burguesia contadas nas telas da Globo.

Lula quando nos contou sua história, desde quando entrou no Sindicato dos Metalúrgicos até aquele momento, ele estava contando a história do Brasil pelos olhos dos trabalhadores e das trabalhadoras. E por cada um de nós sermos aquilo que Lula e o PT fizeram por nós e por serem parte de quem somos, nós seremos o que Lula nos pediu: Seremos ele!

A força da militância aguerrida que fez um cordão humano para defender Lula e impedi-lo de ir até a PF é a força e a radicalidade que vamos levar em cada luta daqui por diante. Podem ter levado a figura física de Lula, mas nunca levarão as ideias e a esperança de quem ousou sonhar e fazer acontecer.

A canda injustiça, uma desobediência a essa ordem que nos oprime!

Não irão aprisionar nossos sonhos e nossas ideias, porque nós somos a esperança.

Ser Lula é lutar pela revogação da reforma trabalhista e da emenda 95, ser Lula é lutar contra a aprovação da reforma da previdência e pelo fim do genocídio da juventude negra. Ser Lula é lutar pelo fim do patriarcado, do fascismo e da violência de todas as ordens . Ser Lula é lutar por um país mais justo, mais igual, mais diverso e tolerante. Ser Lula é lutar por uma sociedade socialista!

“Não dá pra para um rio quando ele corre pro mar, não dá pra calar um Brasil quando ele quer cantar”: Nós somos Lula!

Eu sou Lula!

Lula Livre!

* Ana Lídia Lula da Silva é professora da rede pública estadual de SP é militante do PT

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