Por Mateus Santos (*)

Oito minutos e 46 segundos. Este foi o tempo aproximado em que George Floyd sofreu com um joelho em seu pescoço até morrer. Aquilo que parecia ser mais uma evidência da violência silenciosa e silenciada de um país que goza de ser considerado democrático e espelho do mundo ocidental se transformou em horas, dias e semanas de agitação política e social.  “Não Consigo Respirar” virou um verdadeiro grito em prol de justiça, direitos sociais e contestação à naturalização do racismo na sociedade estadunidense.

A dor individual de Floyd se soma, do ponto de vista conjuntural, ao sofrimento coletivo dos milhares de negros vitimados pela COVID-19. Estatísticas chegam a apontar que os números de afroestadunidenses mortos podem ser até três vezes maiores que a quantidade de brancos. Na maior crise das últimas décadas, concordando parcialmente com Zizek, o vírus ideológico do racismo continuou a se difundir, expresso na vulnerabilidade coletiva à pandemia e a própria violência do Estado.

O que dizer de tais movimentos? Tomando diferentes cidades dos EUA, observa-se uma confluência entre diferentes segmentos populacionais. Negros, brancos, homens e mulheres  marcham nas ruas, desafiando o vírus e o establishment numa ação pouco vista nos últimos tempos. A reação do Estado ainda parece confusa, ao congregar violenta repressão, ações abertamente racistas, mas também ausência ou baixa intensidade em determinadas localidades.

A divergência na reação das esferas políticas causa insatisfação na Casa Branca. Donald Trump pressiona governadores para fazerem uso da coerção, com possibilidade de atuação do exército. Numa mesma via, o presidente prometeu enquadrar os chamados ANTIFAS enquanto parte da lista de organizações terroristas, sob o pretexto de estarem coordenando os movimentos em todo o país.

A história não é cíclica. Contudo, agitações políticas e manifestações sociais levam historiadores e outros interessados a se reportarem ao passado. Com as ressalvas necessárias, oriundas do respeito ao método histórico e da responsabilidade do ofício, a experiência estadunidense dos anos 1960 pode servir de base para as reflexões políticas acerca de uma nova página na trajetória das mobilizações de rua no além do Rio Bravo.

Na ocasião, movimentos em prol dos direitos civis, negros e negras empreenderam uma grande luta contra a segregação racial e suas condições materiais. Para Sean Purdy, em História dos Estados Unidos, esta fase política pode ser entendida como “Ruptura de Consenso”, isto é, a crença de que o crescimento econômico e algum ganho salarial do pós-guerra seriam suficientes para a manutenção de um controle social e político mais conservador. Longe disso, as ações dos anos 1960, mas também as anteriores, demonstraram os distanciamentos entre crescimento e estabilidade econômica de um lado e superação das assimetrias sociais que sustentam e são sustentadas pelo tipo de Estado constituído a partir do final do século XVIII.

Nos anos de grande agitação dos EUA, verificou-se um conjunto bastante heterogêneo de manifestações, congregando tanto diferentes frentes, táticas (mobilizações pacíficas, desobediência civil e ações de enfrentamento ao Estado policial) e distintos horizontes (fim da discriminação, pobreza, imperialismo e novas concepções sobre liberdade).

As incertezas do futuro e a complexidade de uma conjuntura global nos impedem de dizer quais serão os limites e as possibilidades dos atos estadunidenses, mas também em outros países do globo. Em ano eleitoral, as contestações estruturais ao Estado e a própria reação das diferentes esferas políticas poderão se traduzir em desgaste para o atual governo, mas também em reafirmação entre este e sua base política conservadora, num quadro de aprofundamento da polarização.

Diante da diversidade de cenários, os anos 1960 trazem uma lição. Apesar das muitas vitórias obtidas naquele contexto, a reação conservadora foi violenta, trazendo consequências ainda atuais. Mesmo diante das dificuldades de organização política dos setores socialistas e progressistas dos EUA, mais do que nunca, as ruas precisam se transformar em energia para a constituição de alternativas políticas reais, capazes de traduzirem as reivindicações populares em contrapontos às estruturas racistas, machistas e autoritárias do Estado e dos elementos mais conservadores da sociedade.

Na constituição do “novo normal” estadunidense, abre-se uma janela histórica para que a população afroestadunidense inspire novos rumos para o seu país e respire enquanto um coletivo que continua a lutar pela sua própria sobrevivência física e social.

(*) Mateus Santos é mestrando em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Comente!