Por Luiz Sérgio Canário (*)

Daqui a uma semana, 01/02, os deputados elegerão a mesa diretora da câmara. Especialmente o presidente, que é quem detém o poder de fato. Principalmente o de abrir ou não um dos mais de 60 pedidos de impeachment para Jair Bolsonaro, que o atual presidente, Rodrigo Maia, tem segurado.

A eleição se dá com a presença da maioria simples dos deputados. 257 dos 513 parlamentares. Mas para ganhar no primeiro turno o candidato precisa ter a maioria absoluta dos votos da casa, 257 votos. Se ninguém atingir essa votação há um segundo turno, onde ganha quem tiver maioria dos votos válidos, desde que estejam presentes pelo menos 257 deputados.

Os dois principais candidatos, Arthur Lira, do PP-AL, apoiado por Bolsonaro, e Baleia Rossi, do MDB-SP, apoiado por Rodrigo Maia, estão na arena das negociações para atrair o maior número de partidos para seu lado. Mas, como a votação é secreta, nada garante que todos os deputados de um partido votem no candidato que o partido apoia! O balcão de negócios, conduzido da forma habitual, está aberto e os acordos e “negócios” podem fazer corar os mais sensíveis. A República passa de longe e de olhos fechados por esse balcão. Aí vale quase tudo.

Em uma votação apertada o PT decidiu entrar no “bloco de Maia” e apoiar a candidatura de Baleia. Foi literalmente engolido pelo Baleia, apoiando a candidatura sem ter nenhum compromisso dele, além de falas genéricas e republicanas, formalmente firmado. Fomos jantados por um Baleia faminto de votos. No momento em que essa decisão foi tomada o “bloco de Maia” parecia que tinha ampla maioria e que poderia ganhar facilmente a eleição. Assim estar ao lado, ou dentro, de Baleia era justificado pela fartura, além de cargo importante na mesa, de posições importantes em comissões importantes do parlamento. Engano. Não contavam com a astúcia de Lira.

Para coroar o processo de construção da sua candidatura, Lira conseguiu levar o PSL, são 36 votos, para seu lado. O PSL estava antes no “bloco de Maia”, por uma decisão da direção. Mas os parlamentares resolveram fazer uma votação e a decisão, e isso está apoiado pelo regimento, foi de ir para o lado de Lira. Com isso a balança pendeu para o outro lado e hoje Lira tem a maioria dos votos dos deputados, com votos suficientes para levar no primeiro turno. Claro que tem que ser descontadas aí as traições. No PSL, por exemplo, a votação foi de 19 dos 36 deputados a favor de Lira. Esses podem se dizer votos garantidos. Os demais vão ter que ser “negociados” ou irão para o lado de Baleia.

Concretamente hoje a candidatura de Baleia Rossi está apoiada por 11 partidos: PT, MDB, PSDB, PSB, DEM, PDT, Solidariedade, Cidadania, PCdoB, PV e Rede, com apoios de 236 deputados. Arthur Lira é apoiado por 11 partidos, que somam 259 deputados: PSL, PL, PP, PSD, Republicanos, PTB, PROS, Podemos, PSC, Avante e Patriota. Também concorrem Luiza Erundina representando o PSOL e Marcel Van Hatten representando o Novo. Há também as candidaturas avulsas de Fábio Ramalho (MDB); Alexandre Frota (PSDB); André Janones (Avante) e Capitão Augusto (PL).

O cenário então é Baleia afundando, Lira com alguma chance levar no primeiro turno e o PSOL como a única força de esquerda a enfrentar a disputa com seu candidato e sua plataforma.

Diante disso o interior do Baleia já não é o abrigo seguro que a maioria dos parlamentares petistas imaginavam. Depois de vir à tona para respirar um pouco ele está seguindo a natureza de toda baleia que é submergir e nadar por baixo d’agua, levando tudo que está dentro dela junto. Nesse caso, nós, o PT.

Esse cenário deixa a mostra o poder de atração dos “negócios” dentro de um parlamento com a qualidade do nosso. E deixa muito claro os limites da atuação de uma força de esquerda dentro dele. Esse jogo não é nosso. O nosso jogo precisa ser jogado de fora e a pressão resultante levada para dentro. O parlamento não é o lugar privilegiado dos embates entre as classes. Lá é o lugar privilegiado das negociações da classe dominante. E nós, mesmo sendo o maior partido, nos contentamos em ser coadjuvante de uma fração da burguesia defendendo os seus interesses. Fomos engolidos por uma e vamos ser derrotados pela outra. Sem ganhar nada com isso, pelo contrário, perdendo a oportunidade de travar a luta e escancarar os “negócios” parlamentares. Como está, a aparência é que participamos disso.

Já passou da hora de abandonarmos Baleia e Maia. E o tempo está se esgotando. Nesse momento o PT deveria sair atirando desse bloco. Denunciar Lira e suas armações. E compor a chapa junto com o PSOL, tentando atrair parte da centro-esquerda que está com Baleia e Maia. Se não for possível renegociar com o novo bloco a cabeça da chapa, assumir a candidatura de Erundina e trazer para fora do parlamento esse processo viciado!

Fora Bolsonaro, Mourão e sua turma!

(*) Luiz Sérgio Canário é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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