Por Francisco Mateus Conceição (*)

Comecemos com um truísmo: nosso futuro, o da esquerda, depende de nós, e somente de nós. E frente às derrotas e dificuldades do presente, necessitamos construir perspectivas de futuro, o que, por enquanto, não se percebe ainda. Vê-se alguma possibilidade eleitoral imediata, o que não é suficiente.

Veio o golpe e não pudemos contê-lo, as reformas do Temer, as do governo Bolsonaro e os demais horrores que estamos vendo. Temos protestado heroicamente, mas falta-nos a força e o encanto da mobilização. Carência que não resolveremos enquanto não recuperarmos a capacidade de pautar a sociedade. Reconheçamos: estamos sendo pautados constantemente, e nossa mobilização, necessária, tem sido apenas resposta às pautas que nos jogam na cabeça. A proposição e instituição de pautas, porém, já fez parte da forma de ação da esquerda em décadas recentes. Relembremos, brevemente, algumas coisas.

Ao final da ditadura militar (cuja triste história precisamos contar direito), a esquerda, juntamente com demais integrantes da oposição, fez a memorável campanha das Diretas-Já. Não fomos vitoriosos, reconheçamos. A derrota foi suavizada com dois artifícios. Tancredo, que representava o sentimento popular, foi eleito, mas indiretamente. E depois, com sua morte, assumiu José Sarney, que esteve ao lado da ditadura o tempo todo.

Porém, a conquista da cultura política que se forjou nesse contexto veio com a chamada Constituinte, em 1988, reconhecidamente de caráter progressista.

Nos anos noventa, levantamos uma pauta importante e agregadora que foi o não-pagamento da dívida externa. E em 2002 a campanha contra a ALCA. Estas desembocaram nos governos do PT, que (juntamente com demais governos de esquerda na América Latina) realmente impediram a concretização da ALCA, fortalecendo o MERCOSUL e outras políticas internacionais, embora sem enfrentar efetivamente o problema da dívida.

Era um governo de conciliação, representado, no Executivo, pela figura do vice, e marcado, inicialmente, pela Carta ao Povo Brasileiro e pelo “Lulinha Paz e Amor”. Obviamente que partidos de esquerda e movimentos sociais necessitavam ter com esse governo uma relação complexa, sem desconhecer os avanços e sem abrir mão das pautas históricas. Infelizmente, houve um pouco dos dois erros. Vimos, de uma parte, os que passaram a criticá-lo cegamente e, de outra, um arrefecimento da capacidade de combate, que foi se restringindo, cada vez mais, à arena político-eleitoral. Arena esta que é apenas o ápice de outros movimentos políticos, mais amplos e profundos, e que foram perdendo força. Por isso, quando o golpe veio, nós estávamos politicamente raquíticos, incapazes de enfrentá-lo e à sucessão de derrotas, para o povo brasileiro, que vêm se sucedendo.

O que temos feito, neste período, é resistido, algo fundamental, mas não suficiente. Aqueles que têm resistido, e ido às ruas para isso, podem ser chamados, lembrando B. Brecht, de imprescindíveis, porque se mantêm lutando, apesar da adversidade. Aparentemente, precisamos de mais povo na rua para ir além da resistência. Mas a relação inversa, sob a nossa ótica, é que faz maior sentido. Para além da negação a Bolsonaro e a todas as políticas de retirada de direitos, há muitas lutas imprescindíveis, que só poderão acontecer se tomarmos a iniciativa de propô-las.

Um tema que está caindo de maduro, no Brasil, é a taxação sobre as grandes fortunas. Apesar de ter entrado em debate no Congresso Nacional, não recebeu, de nossa parte, a mobilização massiva que merece e pode ser feita. Nossa elite, que adora viajar para Miami, merece o tratamento desse tópico, tão comum aos norte-americanos.

Há quanto tempo não se fala mais (ou se fala minimamente) em redução da jornada de trabalho? Costumamos nos chocar quando confrontados com as intermináveis jornadas, de até 14 horas, nos primórdios do capitalismo. Infelizmente, o trabalhador atual possui jornadas de trabalho que muitas vezes se assemelham a essas, embora legalmente não transpareçam. O que dizer de quem, como ocorre muito em médias e grandes cidades, levanta às cinco e pouco da manhã, para ir trabalhar, e somente retorna a casa em torno de vinte horas? Façam-se as contas. A jornada oficial já é impiedosamente longa, mas nela não se conta tempo de deslocamento e para alimentação. Como se o trabalhador estivesse envolvido em outra coisa, nesse período, que não fosse o cumprimento da jornada. Por isso, a recuperação, de maneira incisiva, dessa pauta, é responsabilidade das entidades de classe ligadas aos trabalhadores.

Outro problema, recorrente há muitas décadas, e que jamais pautamos, é o envelhecimento da sociedade. É inegável que ele existe, bastando nos socorrermos de nossas memórias ou olharmos ao nosso redor para percebê-lo, através da diminuição do número de filhos. E parece lógico que, trabalhando exaustivamente, com uma licença maternidade insuficiente e uma licença paternidade simbólica, o tempo para ter filhos tornou-se exíguo, para dizer o mínimo. O capitalismo moderno, por esse caminho, suga o tempo e o impulso para a reprodução humana. E, não contente, de maneira cínica, se vale disso para sugar também o tempo de aposentadoria, como ocorreu na Reforma da Previdência. Duplo e inominável crime. Mas nós optamos pela discussão (já perdida) sobre os números emaranhados da Previdência, ao invés de contrapor com essa pauta viva. O envelhecimento da sociedade brasileira – cuja densidade populacional é baixa – não pode ser aceito como fatalidade indiscutível.

Há muitos temas comuns à esquerda, portanto, agregadores, que precisam ser tratados e mantidos em evidência. Citemos mais um exemplo: há o caso dos meios de comunicação, que seguem como um quarto e paralelo poder, pondo e depondo governos. Vamos aguardar que Lula chegue ao poder (se chegar) e tire do bolso uma iniciativa para enfrentar isso? Sem mobilização que exija e sustente esse enfrentamento?

Mais do que tentarmos nos defender, precisamos sentir o gosto, também, de contra-atacar politicamente. Para tanto, é imprescindível trazer para o primeiro plano o debate (e o combate) que nos interessa mesmo. Para almejarmos nos apossar da narrativa. E da história.

(*) Francisco Mateus Conceição é servidor público federal, ex-professor universitário e doutor em Literatura


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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