Jornal Página 13 conversou com Candida Rossetto, secretária geral do CPERS (Sindicato dos Professores e Funcionários de escola do Estado do Rio Grande do Sul), sobre a situação política, econômica e social do RS; o governo Eduardo Leite; a situação da educação e da categoria; sobre o sindicato e as eleições na entidade. Confira!

Entrevista publicada na edição de maio do Jornal Página 13.

Página 13: Você pode nos falar um pouco do CPERS, para quem não o conhece de perto?

Candida Rossetto: O CPERS Sindicato é o segundo maior sindicato da América Latina. Ao longo dos 76 anos de existência, é ferramenta de luta dos trabalhadores e das trabalhadoras da rede pública estadual de educação do Rio Grande do Sul, dentre professores e professoras especialistas e funcionários/as de escola. São mais de oitenta mil sócios, de quarenta e duas regionais – denominadas núcleos – organizadas e representadas pelo CPERS Sindicato. O sindicato é filiado à CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). Foi filiado à CUT em 1996, no entanto no ano 2015 aconteceu a desfiliação da referida central.

Página 13: Qual é o cenário político, econômico e social do estado com o governo tucano de Eduardo Leite?

Candida Rossetto: Os governos Bolsonaro (Sem partido) e Leite (PSDB) são duas faces da mesma moeda e levam a cabo a política ultraliberal e o autoritarismo. A crise política, econômica, social e sanitária se reverbera também no Rio Grande do Sul. Leite detém uma ampla base de sustentação no Legislativo e dá continuidade à política do governo Sartori (MDB), caracterizada pela ofensiva na retirada de direitos e enxugamento do Estado pela via da privatização de estatais e serviços públicos.

O governo das “Grandes façanhas”, referindo-se ao trecho do hino riograndense “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”, está aliançado à amplos setores empresariais, do agronegócio e da oligarquia midiática gaúcha. A caricatura do governante do diálogo é desbancada por aquilo que presenciamos de mais sórdido neste momento. Em tempos de tamanha dor e perda de vidas, alinhado com o governo federal, Leite monta no Rio Grande do Sul um verdadeiro laboratório das reformas antipovo e antinação, como as agressivas reformas administrativa e previdenciária. Na toada do autoritarismo, opera com a ampla maioria do parlamento várias mudanças na Constituição Estadual e dentre elas, a retirada de exigência de plebiscito para privatizar estatais.

Assim como Bolsonaro, aproveita da pandemia para dar sequência ao conjunto de medidas que atendem aos interesses da burguesia. O projeto do governo Leite é privatizar todo serviço público.  A sanha privatista lesiva ao conjunto da população gaúcha, em especial seus seguimentos de maior vulnerabilidade social, resulta na ampliação da miserabilidade, da fome, do desemprego e da violência. A privatização da CEEE-D, nossa distribuição de energia elétrica; e os movimentos em curso de privatização da água e do saneamento básico da Corsan, também ratificam este quadro. A ofensiva privatista no setor educacional é igualmente destrutiva.

Página 13: Como tem sido a condução da pandemia no estado? Qual o impacto para a educação e os/as trabalhadores/as? Parece haver uma forte pressão de parte do oligopólio da mídia, da direita, do governo e de setores conservadores para o retorno imediato das aulas presenciais, certo?

Candida Rossetto: Sim. Embora o estado apresente o melhor índice na vacinação do país, a realidade é gravíssima. A política frente à crise é muito mais midiática do que de efetivo enfrentamento à pandemia. A narrativa midiática é de controle da crise, no entanto, o governo oscila na responsabilização da gestão da crise, ora para municípios, ora para o Estado, no afrouxamento dos protocolos sanitários e de isolamento, cedendo à pressão destes setores conservadores e de direita.

Dentro do quadro dos horrores da política genocida de Bolsonaro, o Rio Grande do Sul encontra-se entre os Estados com maior profundidade na crise. Não são somente números, são vidas. Estes setores tentam amainar o colapso na saúde e hospitalar apontando a redução de números, no entanto, o Rio Grande do Sul beira um milhão de contaminados/as e 25 mil óbitos. A ação do governo não aponta a real preocupação com a situação em que a sociedade se encontra e compromisso com o combate à pandemia. O governo gaúcho não apresenta medidas no sentido de garantia de renda mínima emergencial ao contingente cada vez maior de desempregados e famintos, bem como suporte necessário diante da quebradeira de pequenas empresas e setores afetados pela pandemia.

É a verdadeira dança das bandeiras. Aproveita a pressão de setores negacionistas, da direita e da mídia oligárquica, para atender ao interesse  patronal do setor privado da educação. De forma autoritária e irresponsável executa o movimento de retorno às aulas presenciais em plena bandeira preta.

Página 13: E nessa situação de crise e de pandemia, como tem se comportado a direção do sindicato e a categoria?

Candida Rossetto: A situação dos/as trabalhadores/as em educação da rede pública estadual gaúcha é caótica no sentido da perda de direitos, conquistados arduamente pela histórica luta do CPERS Sindicato. Beiramos a sete anos de salários congelados; perdemos nosso plano de carreira do magistério; funcionários de escola estão ainda mais desvalorizados e aposentados/as foram saqueados nos míseros salários. Além disso, a sordidez de um governo que desconta dias de greve de uma categoria endividada e adoecida.

A pandemia agravou este quadro, tanto pela morte que bate em nossas portas, quanto pela falta de condições de trabalho, via ensino remoto. Faltam ferramentas digitais e acesso à internet para educadores/as e estudantes, há sobrecarga de trabalho e plantões nas escolas. Neste quadro a SEDUC/RS desencadeia o projeto privatista de educação, dos recursos, gestão e currículo. Opera fechamento de escolas, turmas e turnos, bem como redução de gastos na educação, terceirização e drástica redução de recursos humanos.

Temos uma categoria que é de luta e que historicamente resiste na defesa da educação pública, na defesa da vida, da democracia, dos direitos da categoria de professores/as, especialistas e funcionários/as de escola, da ativa e aposentados/as. A centralidade da luta neste momento é pela vida. Infelizmente a opção do campo majoritário da direção do CPERS é pela política de conciliação em detrimento da necessidade de enfrentamento ao governo Leite.

Este grupo aposta no “diálogo” com um governo que é autoritário e nos massacra, bem como pelas saídas jurídicas e midiáticas, sem construir a mobilização de base da categoria. A opção de negociação com o governo desrespeitou a posição e decisão em assembleia geral pela rejeição e retirada do pacote, totalmente lesivo aos/às trabalhadores/as em educação. Também foi opção dessa maioria, após a aprovação do pacote no começo de 2020, de adotar uma estratégia para acalmar a categoria, ao invés de transformar a indignação em luta.

Página 13: Você e outros integrantes formaram um campo na direção e na categoria chamado “Muda CPERS”. Você pode nos falar mais sobre o que representa esse campo?

Candida Rossetto: O campo Muda CPERS se constrói tendo como premissa o papel do CPERS na perspectiva histórica do sindicato na organização e luta da classe trabalhadora. O balanço da atual gestão, a avaliação do período e das dificuldades nos remete a assumir o desafio e construir com a categoria outro tipo de direção para o CPERS.

Somos quatro membros da direção atual que rompemos com o campo majoritário.  Nossa decisão é de construção de uma direção pela esquerda. É urgente retomar o caráter classista do sindicato, a formação, politização e protagonismo coletivo da categoria. O Muda CPERS está centrado no fortalecimento das instâncias democráticas do sindicato e do enfrentamento aos governos que nos oprimem.

Este campo assume a luta pelo Fora Leite e Fora Bolsonaro! A política do campo majoritário em curso – a exacerbação ao personalismo, o burocratismo sindical, a negociação na “redução de danos” e as alternativas meramente jurídicas para os problemas em detrimento da organização na base da categoria – se materializa em perda de direitos históricos e no fortalecimento do governo Leite.  Tanto a política de conciliação de classe da atual direção; quanto o sectarismo de grupo de oposição, não são alternativas. A necessidade é de um sindicato combativo e classista, que de fato enfrente os governos autoritários e genocidas de Leite e Bolsonaro.

Nossa disposição é de luta e organização para mudar o CPERS.

Página 13: No próximo período, haverá eleições para a direção do Sindicato. O MUDA CPERS posicionou-se pelo seu adiamento, mas ao final elas foram mantidas. Você pode discorrer para nós sobre esse processo eleitoral?

Candida Rossetto: As eleições do CPERS deveriam ter acontecido em junho de 2020. Em face da pandemia foram postergadas. O campo majoritário na direção, que detém uma maioria apertada no Conselho Geral, tem operado ora postergando ora apressando o processo eleitoral no sentido de buscar a garantia no aparelho sindical.

É inadmissível e injustificável que no pior momento da pandemia, onde a centralidade deveria ser a defesa da vida, ocorram as eleições sem um mínimo debate na base. As eleições serão totalmente virtuais (26 a 28 de maio) e com aval do Conselho Geral, com poucos votos de diferença. Todavia há discordância e tensionamento pela forma como se encaminha este processo eleitoral, tanto pela conjuntura da pandemia quanto pelo método utilizado, que não garante lisura e democracia. Sequer aconteceu uma assembleia geral para debater esta mudança justamente neste momento em que deveria reverter em vivência e experiência democrática, bem como de mobilização da categoria.

Em tempos de autoritarismo, a radicalização da democracia interna e do respeito à diversidade deveriam ser promovidos e não cerceados. É lamentável este retrocesso, pois embora com contradições em direções anteriores, o CPERS sempre buscou ser referência de luta e democracia.

Página 13: Por fim, gostaríamos que você nos contasse um pouco da sua trajetória sindical e política.

Candida Rossetto: Sou militante e me organizo na Articulação de Esquerda Sindical. Me constituí na luta por justiça social e em defesa da educação pública de qualidade social. Iniciei na militância sindical no final dos anos oitenta, na região de Sarandi-RS, berço de movimentos sociais populares, de sindicato e CUT combativos.  Primeiro, como militante de base do CPERS na escola, desde que entrei na rede pública estadual. Depois, como representante no Conselho Regional do 40º núcleo do CPERS de Palmeira das Missões. Ali, fiz parte da direção e também estive como diretora geral. Aprendi muito com a participação ativa neste espaço coletivo e que sempre foi protagonista nas lutas dentro do sindicato e também em outros movimentos de organização popular da região e do estado. Em 2014 entrei na direção executiva da CNTE (Confederação nacional dos Trabalhadores em Educação) e nestes últimos três anos, como Secretária Geral do CPERS Sindicato. Atualmente, fazendo parte da chapa Muda CPERS, como candidata a presidenta da entidade. Também fui dirigente partidária municipal e vice-presidente do PT do RS no período de 2017 a 2019.

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