Por Marcel Frison (*)

Descobri em reunião recente do grupo que coordena as ações da prefeitura de enfrentamento à pandemia do Corona Vírus em São Leopoldo/RS de que embora tenhamos um laboratório municipal e convênio com outros laboratórios, nosso desejo de adquirir os reagentes necessários para realizar testes rápidos para diagnosticar suspeitos de estarem contaminados pelo covid-19 não seria possível. Isto por que o Ministério da Saúde esgotou os estoques e adquiriu toda a produção dos fornecedores no Brasil. Estamos, portanto, impedidos de agilizar o diagnóstico para melhor controlar a contaminação e o tratamento dos doentes.

Nesses últimos dias, diante do novo status da doença (transmissão comunitária), o Ministério da Saúde mudou o protocolo de prevenção e cortou os testes para os suspeitos de contaminação, limitando apenas aos doentes em situação grave, aos profissionais de saúde e óbitos. Ou seja, deixou à deriva a análise sobre a evolução dos níveis de contaminação, o que comprometerá seriamente a informação sobre a real situação da epidemia no Brasil.

Não faz uma semana, Mandetta, o ministro da saúde, alertava para que fossem reforçadas as iniciativas de isolamento social, na medida em que os epidemiologistas julgavam que o período que atravessamos, até o final do mês de março, seria decisivo na contenção da pandemia. Porém, logo mudou o discurso (prática usual no governo Bolsonaro), relativizando as medidas de isolamento e afirmando, com outras palavras, que as perdas econômicas faziam mal à saúde.

Além disso, os planos privados passaram a não mais informar ao sistema municipal de saúde sobre os casos suspeitos de contaminação em tratamento nas suas dependências. Um “fenômeno” verificado não apenas em São Leopoldo, mas em outras cidades. E com significativa gravidade no Estado de São Paulo.

Entrementes, o presidente sofre uma derrota política ao tentar emplacar uma medida provisória que permitia rompimento dos contratos de trabalho por quatro meses, deixando milhões de trabalhadores e trabalhadoras sem remuneração durante a crise. Forçado a recuar, diante da repercussão negativa da sua iniciativa, prepara uma mediação que não cessa, mas prevê uma diminuição drástica da renda dos empregados formais.

O dia 24 de março terminou com o pronunciamento do presidente Bolsonaro em rede de TV que, em síntese, derruba todas as iniciativas de combate à pandemia. Irresponsavelmente, joga parte da população contra prefeitos e governadores ao desprezar, novamente, a gravidade da doença; deixa aos ventos da sorte (ou do azar) idosos, doentes crônicos, pessoas com saúde frágil e pobres que se somam a milhões; e estabelece de maneira inequívoca um darwinismo social em que os mais fortes sobrevivem e os mais “fracos” sucumbem.

Um cálculo típico de militar em zona de guerra que coteja as perdas de contingente diante dos seus objetivos estratégicos. Bolsonaro optou por matar parte de nosso povo em nome dos interesses econômicos de seus aliados.

O controle de verificação da contaminação sob o domínio total do Ministério da Saúde e a abstenção da informação, por parte dos planos privados, permitirá manipulação política do mapa da evolução da pandemia no país.

Logo os óbitos deixarão de serem verificados através de exames, pessoas falecerão de insuficiência respiratória de maneira aleatória e ninguém saberá ao certo a causa das mortes.

Caminharemos pelo Vale da Morte às cegas.

Enquanto tudo acontece, o psicopata dormirá tranquilo no Alvorada, sem remorsos e sem culpa, sonhando que está tocando uma harpa dourada ao observar as luzes das chamas em Brasília.

(*) Marcel Frison  é secretário municipal de Gestão e Governo em São Leopoldo/RS

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