Por Mucio Magalhães (*)

O povo de Recife já viveu a experiência de três gestões petistas na prefeitura da cidade. Nas duas primeiras, o vice-prefeito foi um quadro do PCdoB, e na terceira o vice foi do PSB. O PT foi derrotado em 2012 por uma chapa do PSB, tendo o PCdoB na vice. Desde então e até 2019, o partido fez oposição as duas gestões do PSB.

O partido mudou para o campo da situação a partir do apoio à reeleição do governador do PSB, Paulo Câmara, em 2018. Tendo sido este o principal argumento para que, em 2019, numa reunião do Diretório Municipal, fosse decidido o apoio e a participação no governo. O PSB acolheu o novo aliado e integrou o PT na gestão, ocupando a secretaria de saneamento.

Vários grupos do PT discordaram, optando por se manter na oposição. O partido se dividiu politicamente, e a divergência se manteve no debate da tática eleitoral para 2020, entre aliar-se ao PSB e apoiar o João Campos, filho de Eduardo Campos e preparado pela família para ser o seu herdeiro político, e a candidatura do PT na pessoa de Marilia Arraes, bem situada nas pesquisas conhecidas até então.

Uma situação sem grandes surpresas, que se fosse resolvida a luz do pensamento majoritário no PT em 2018, certamente resultaria numa aliança com o PSB. Entretanto as mudanças na conjuntura nacional, o acirramento dos ataques ao PT, as ameaças de novas e mais profundas rupturas com a democracia, os ataques aos direitos da classe trabalhadora e do povo, os movimentos para isolar o PT operados pelo PDT e PSB, trouxeram novos elementos aos debates entre os petistas.

Pensar o papel do PT na luta para por fim ao governo Bolsonaro, a preservação do próprio partido, a defesa de Lula, do legado dos governos petistas, o lugar das eleições de 2020 na acumulação de forças, e outras questões levaram importantes lideranças, e destacadamente o Lula, a fazer questionamentos a linha política seguida pelo PT, e a sustentar formulações que apontaram um reposicionamento do PT, para incidir na conjuntura com mais protagonismo político, construir uma frente política e social sem diluir o PT numa ampla frente com a centro direita golpista, e participar das eleições com cara própria, lançando o maior número de candidaturas petistas no país, com centralidade nas capitais e cidades com mais de duzentos mil eleitores.

Mais uma vez o caráter de massas e a forte inserção social do PT funcionaram como poros abertos para a sociedade, por onde entra a influência das lutas populares e possibilita correções e mudanças na linha política.

No Diretório Nacional, o impulso da nova conjuntura foi até o limite de compreender as eleições deste ano como a hora de fortalecer o PT e acumular força para vencer em 2022 e voltar ao governo federal. E se desdobrou em ações dirigentes voltadas para a construção do maior número possível de candidaturas petistas a prefeitos/as e vereadoras/es, lançar quadros competitivos nas grandes cidades e capitais, e procurar alianças sem paralisar o partido no debate sobre o arco de alianças.

Materializar esta orientação é um desafio ao PT realmente existente, certamente por isso o Diretório Nacional deliberou por assumir a prerrogativa de acompanhar e no limite decidir as táticas nas capitais e grandes cidades.

Em Recife, diante da existência de uma candidata competitiva e de uma maioria no DM defensora da aliança com o PSB, o Diretório Nacional decidiu, em março de 2020, pela candidatura própria e por Marilia Arraes ser a candidata a prefeita do PT. A resposta dos grupos que controlam o DM foi expressar publicamente o desacordo e a decisão de deliberar no encontro municipal pela tática de aliança, desautorizando o DN. Este posicionamento político foi “complementado” com ações para desgastar Marilia Arraes pessoalmente, através de entrevistas na mídia corporativa e nas redes sociais.

O encontro municipal, com um total de 44 delegados/as, foi adiado três vezes. A iniciativa de estabelecer o diálogo, tomada por Marilia, não foi correspondida.

Neste quadro, o encontro municipal foi realizado, debateu apenas a tática majoritária e aprovou a participação na ampla frente dirigida pelo PSB, e foi anunciada uma decisão de propor que o DN reconsidere a posição. Buscam o apoio de dirigentes que divergem da linha nacional, e fazer de Recife um polo de reação pela direita ao caminho percorrido até aqui pelo PT.

Na militância organizada e na “nação petista” é grande a apreensão. A memória de 2018, quando a mesma Marilia Arraes estava muito bem posicionada para disputar com reais possibilidades de vitória a eleição para o governo estadual e foi sacrificada em nome de um acordo para Haddad contar com o apoio informal de setores do PSB, faz com que não se cale a pergunta: viveremos esta grande decepção novamente?

A palavra está com o Diretório Nacional.

(*) Mucio Magalhães é representante da AE no GTE nacional.

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