Por Lucas Reinehr (*)

Se 2020 foi um ano desafiador para a esquerda brasileira, 2021 se inicia com o dobro dos desafios. O movimento estudantil, que em 2019 foi um dos principais protagonistas da oposição ao governo Bolsonaro nas ruas, parece ter perdido um pouco do seu rumo no ano recém terminado. A pandemia do novo Coronavírus, que interferiu na vida de todos os brasileiros e brasileiras e na dinâmica da luta social, trouxe diversos ônus para a organização dos estudantes, que até então se apresentavam como uma trincheira importante no enfrentamento ao bolsonarismo. Parte dessa derrocada tem relação direta com a pandemia e o isolamento social, mas devemos ser sinceros: além da pandemia, os problemas da UNE, da UBES e de outras entidades dizem respeito também às suas direções e a linha política predominante entre elas.

Para realizar um balanço da atuação do movimento estudantil em 2020, é importante retomarmos alguns episódios anteriores ao período de “marasmo” que marcou este ano. A atual gestão da União Nacional dos Estudantes se iniciou em agosto de 2019, logo após o Congresso da entidade realizado em Brasília, já em meio ao primeiro ano do governo Bolsonaro. A partir daí, ocorreram algumas reuniões da diretoria plena e da diretoria executiva para debater aspectos da conjuntura e iniciar o ano letivo de 2020 com a campanha “Eu Defendo A Educação”. Naquele momento, acreditava-se que o movimento estudantil poderia aproveitar o saldo positivo de algumas das mobilizações de 2019 – como o Tsunami da Educação – para apresentar uma plataforma em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade. Lamentavelmente, a campanha não deu certo, pois além de ter sido interrompida em função da suspensão das aulas presenciais, foi monopolizada pelas forças políticas que possuem a maioria da direção da entidade – que tentaram transformar a campanha da UNE na campanha de seus coletivos.

A partir do início da quarentena e com o encerramento das atividades presenciais, diversos foram os dilemas com os quais os estudantes brasileiros se depararam: aulas remotas, falta de políticas de assistência estudantil, intervenções nas universidades, troca de Ministro da Educação e um governo genocida despreocupado com a pandemia. Tudo isso e muito mais num contexto em que a vontade dos estudantes é a mesma: permanecer na universidade e se formar com qualidade. Enquanto esse era o desejo dos estudantes, Bolsonaro e seu governo operaram pelo oposto: a evasão em massa, a precarização do ensino e a falta de garantias para os estudantes em situação de vulnerabilidade. O projeto do MEC foi o silêncio diante de milhares de matrículas trancadas ou canceladas, ao passo que crescia a indicação de capangas, por meio de intervenções, nas universidades e institutos federais.

A pergunta que devemos fazer diante desse quadro é a seguinte: as entidades do movimento estudantil, especialmente a UNE, conseguiram dar conta dos desafios e apresentar alternativas que fortalecessem a luta concreta dos estudantes? A nossa avaliação é de que não. Numa conjuntura de avanço do fascismo e sucateamento das nossas instituições de educação, a atuação do movimento estudantil deve ir além de soltar documentos e promover mobilizações virtuais sem alinhamento com a base e sem articulação entre as entidades. É claro que a pandemia e a situação de isolamento prejudicou severamente o movimento estudantil. Torna-se quase impossível organizar e mobilizar os estudantes sem que haja a presença e o contato no dia a dia, na sala de aula e nos espaços físicos das faculdades e universidades. Mas um fato não exclui o outro: para além das dificuldades impostas pela quarentena, a direção majoritária da UNE vacilou em seus posicionamentos e falhou em muitas ações.

Com o avançar da pandemia, a UNE adquiriu um papel cada vez mais institucional e jurídico, restringindo as decisões da entidade àquelas tomadas pela União da Juventude Socialista (UJS), que possui a presidência e o maior número de diretores da entidade, e a sua participação em eventos à figura do presidente. A UNE é muito maior que seu presidente, o coletivo que a dirige e as forças políticas que estão dentro dela.

No quadro que vivemos, é necessário ter coesão no encaminhamento das lutas – o que não nos impede de divergir internamente. É por isso que 2021 carrega o dobro de desafios que 2020 trouxe: é preciso recuperar o que não foi feito no ano passado e dar um salto de qualidade na atuação do movimento estudantil. Os estudantes brasileiros querem entrar, permanecer e transformar a universidade. Num contexto como o que vivemos, querem, principalmente em função das incertezas, se formar. Esse deve ser o centro das lutas que a UNE travará em 2021: pela garantia das condições para que os estudantes permaneçam e pela defesa intransigente da educação pública, que é alvo direto de ataques do governo Bolsonaro – intensificados durante a pandemia e com maiores riscos a partir da implementação do ensino remoto.

A saída passa, portanto, por mudar a forma de organização e luta, com ou sem pandemia. Incluir os estudantes da base nas decisões, formar Grupos de Trabalho e, principalmente, ter coesão no encaminhamento das lutas, independente das divergências internas. A UNE deve ser, em 2021, uma das principais porta-vozes contra as atrocidades do governo Bolsonaro, pela exigência da vacinação, garantias para os estudantes e o fim deste governo. Mas essas vozes precisam ecoar e atingir as massas estudantis e o conjunto da sociedade brasileira, caso contrário, seguiremos falando para nós mesmos aquilo que já sabemos. É papel dos estudantes disputar corações e mentes e preparar o terreno para as grandes lutas que virão.

(*) Lucas Reinehr é estudante de Comunicação Social da UFSM e Diretor de Assistência Estudantil da UNE


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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