Página 13 publica intervenção do companheiro Valter Pomar, realizada na plenária estadual da tendência petista Articulação de Esquerda de São Paulo, neste domingo, 21 de novembro.

Por Valter Pomar (*)

Vamos dar início agora ao terceiro e último ponto da nossa plenária.

Para quem tiver entrado agora, lembro que até agora nos concentramos nas eleições parlamentares de 2022 em São Paulo.

Agora vamos tratar do quadro geral.

Quero começar lembrando que neste domingo 21/11 estão ocorrendo eleições na Venezuela: governadores de 23 estados, 335 prefeitos, 253 parlamentares estaduais e 2471 parlamentares municipais.

Estão concorrendo 70.244 candidaturas de 37 partidos. A oposição está participando, depois do fracasso da operação Guaidó, aquele presidente autoproclamado.

É bom lembrar que foi um fracasso relativo, pois graças a esta operação Guaidó virou “dono” dos ativos venezuelanos no exterior e ele e os seus ganharam dinheiro com isso; de outro lado, o povo venezuelano foi submetido a mais sofrimentos.

O PSUV, o governo venezuelano e uma parte importante do povo decidiram não ceder as chantagens e esta resiliência obrigou a oposição a ceder e a participar do processo eleitoral. Vamos ver como as coisas correm [resultados indicam mais de 40% de comparecimento e vitória do chavismo].

A respeito da Venezuela, recomendo que todos ouçam o relato da companheira Tania Mandarino ao podcast da última sexta-feira 19/11. Tania está neste momento na Venezuela, como observadora eleitoral.

Também neste domingo 21/11 estão ocorrendo eleições no Chile.

Serão eleitos parlamantares de diferentes níveis e o presidente da República.

Como voces sabem, no Chile houve uma onda de imensas manifestações populares. A contragosto, a direita e o centro concordaram em convocar uma Assembleia Nacional Constituinte – é bom lembrar que no Chile continua vigorando a Constituição da ditadura Pinochet, que terminou nos anos 1990.

Mas a direita e o centro, apesar de terem concordado com a convocação da Constituinte, adotaram uma serie de salvaguardas que visavam limitar a possibilidade da Constituinte fazer mudanças. Uma parte da esquerda chilena concordou com estas salvaguardas, outra parte da esquerda chilena se opôs a isto. E foi esta parte que se opôs às salvaguardas a melhor votada nas eleições para a Constituinte. No momento a Constituinte está desenvolvendo seus trabalhos.

É nesse contexto que as eleições estão ocorrendo. E o que fez a esquerda chilena? A maior parte da esquerda chilena optou por deslocar-se ao centro. Uma das expressões disto foi a escolha de uma candidatura presidencial da esquerda moderada: Gabriel Boric. A lógica nós conhecemos qual é: ir ao centro para derrotar a direita.

E o que fez a direita? Lançou várias candidaturas, sendo que a mais votada foi a de José Antonio Kast, do Partido Republicano, que é pinochetista raiz, extrema direita.

Dei os exemplos da Venezuela e do Chile para ilustrar dois fatos:

1/a situação internacional, tanto mundial quanto regional, está muito agitada. Desde os Estados Unidos e China, até o mais pequeno país do nosso continente, há um ambiente de instabilidade e de polarização: econômica, social, política, cultural e em alguns casos militar;

2/a polêmica que existe aqui no Brasil existe em todas as partes: um pedaço da esquerda defende radicalizar e um pedaço da esquerda defende moderar.

No caso brasileiro, o desdobramento mais recente disso pode ser visto em dois fatos ocorridos dia 20 de novembro:

1/as manifestações do 20/11 foram importantes, mas foram menores do que as anteriores manifestações pelo Fora Bolsoanaro. Não estiveram presentes nas ruas parcelas importantes da militância; e seguem sem comparecer parcelas importantes da classe trabalhadora. Quaisquer que sejam os motivos, se o ano terminasse hoje, o clima seria de certo anticlímax: o cavernícola contribuiu na morte de mais 600 mil pessoas, contribuiu para fazer mais de 15 milhões estarem desempregados, contribuiu para que mais de 20 milhões passem fome, acabou com o Bolsa Família, está privatizando, destruindo, poluindo e agredindo, mas segue ocupando a cadeira do presidente da República;

2/de outro lado, também no dia 20/11 prosseguiu a polêmica sobre se Alckmin seria ou não um bom vice para Lula. Quando essa polêmica começou, havia gente que dizia ser tudo fake news, que nada disto seria verdade etc e tal. Acho que hoje está provado que não é fake news: importantes quadros da esquerda estão envolvidos, em maior ou menor medida, nesta operação.

Aliás, quero aqui fazer um registro: acho que Fernando Haddad é um grande amigo do PSOL e do Boulos. Pois sua recusa em ser candidato a prefeito de SP capital abriu espaço para Boulos ir ao segundo turno. E agora seu apoio a uma aliança com Alckmin está estimulando uma parte do eleitorado da esquerda a migrar para a candidatura Boulos governador. Pois vamos lembrar: as pessoas dizem que votariam em Lula mesmo que Freddy Krueger fosse o vice. Mas quem disse que isso vai acontecer nos estados?

Esta polêmica sobre a candidatura a vice revela várias coisas importantes sobre a conjuntura.

1/Revela primeiro, que a campanha eleitoral já está em curso. E uma campanha eleitoral sem mobilização popular forte abre espaço para as negociatas de cúpula, para as concessões programáticas, para alianças impublicáveis. E no limite abre espaço para uma vitória da direita. Novamente insistimos: vamos colher nas urnas o que plantarmos nas ruas. Se as ruas estiverem mornas, picolé de chuchu não é a pior coisa que pode acontecer. Não vamos subestimar Bolsonaro, nem Moro, nem ninguém.

2/Revela, em segundo lugar, que a chamada terceira via está em dificuldades. Vide o que aconteceu na prévia do PSDB. A terceira via ainda não demonstrou musculatura suficiente. A polarização Bolsonaro x Lula segue dominando as pesquisas. A terceira via apoiou o tríplice golpe. Seus patrões lucraram bastante com isto. Agora estes patrões estão preocupados em preservar e aprofundar as conquistas obtidas desde o impeachment. E o que ameaça estas conquistas? A crescente possibilidade de uma vitória de Lula que conduza a uma guinada programática. Como superar esta ameaça? Há três possibilidades: eleger alguém da “terceira via”, o que até agora está difícil; apoiar Bolsonaro, que sempre é uma possibilidade, até porque já fizeram isto em 2018 e seguem fazendo no Congresso; e a terceira possibilidade é tentar domesticar a esquerda. A terceira via, os setores que chamamos de terceira via, expressam este dilema e estão divididos entre as três possibilidades. É por isso que alguns setores aplaudem a possibilidade de Alckmin virar vice de Lula. Não tem nada que ver com derrotar Bolsonaro, tem que ver com domesticar a esquerda. Como alguém já disse, é uma espécie de Carta aos Brasileiros 2022.

3/A polêmica sobre a candidatura a vice revela, em terceiro lugar, que tem uma parte da esquerda que aceita ser domesticada. A rigor isto não é novidade: vimos isso desde 1995, vimos isso desde 2002, vimos isso mesmo depois do golpe de 2016. Tem um pedaço da esquerda que sempre prefere fazer um péssimo acordo a arriscar uma boa briga. Mas quando analisamos o caso Alckmin há dois aspectos interessantes que merecem destaque.

O primeiro é o sadomasoquismo. Entregar a vice para um tucano golpista é uma demonstração de absoluta e total falta de limites. Mais brutal que isso só chamar de novo Temer para ser vice. Por qual motivo eles cogitam isso? A explicação é  simples: porque esta parte da esquerda acha que o golpe foi culpa da Dilma, que supostamente não teria sabido tratar, conversar, negociar. Conhecemos este modo de pensar, que coloca a culpa não no agressor, mas na vítima. Quem pensa assim, acredita que com o Lula tudo será diferente, pois ele saberia fazer a coisa certa, saberia tratar nossos adversários com jeitinho. Certamente Lula tem muitas qualidades, mas entre elas NÃO se inclui ser infalível, nem se inclui prever do que é capaz a classe dominante brasileira. Se ele tivesse estas qualidades citadas anteriormente, a história dos últimos anos teria sido muito diferente do que foi. Sendo assim, se porventura Lula viesse a aceitar ter um vice como Alckmin – algo que para ser direto, nós acreditamos que ele não fará – disputaremos contra esta posição no encontro nacional do PT que vai aprovar a chapa. Não vamos começar a apresentar nomes alternativos agora, até porque achamos que não é hora de ficar discutindo vice, mas se for preciso faremos isso. No DN que deliberou a respeito não apoiamos a aliança com o PL, apesar de no final das contas José Alencar ter sido muito melhor que Palocci e Temer; não apoiamos Temer; sendo assim, porque apoiaríamos Alckmin, um tucano com vínculos com a Opus Dei?

O segundo aspecto interessante no assunto Alckmin é o que ele revela acerca do tema programa. Vamos imaginar por hipótese que Alckmin aceitasse ser vice (o que também achamos que não fará). A pergunta é: a que preço? Um preço, óbvio, seria apoiarmos Márcio França para o governo de SP. Aliás, só sendo generoso como o Haddad para acreditar que Alckmin toparia ser vice presidente e toparia apoiar o próprio Haddad para governador, supostamente aumentando as chances do PT conquistar os dois principais orçamentos governamentais da União. Outro preço que Alckmin cobraria seria o programa. E o impressionante é que este “detalhe” some das preocupações e argumentações de quem defende que o picolé de chuchu seria uma boa. Alguém deve se  perguntar: por qual motivo? Por qual motivo o candidato que lidera todas as pesquisas precisaria fazer uma aliança com parte dos seus inimigos – pois os tucanos são inimigos, não adversários – uma aliança que teria um grande preço programático? Por qual motivo? A explicação tá na cara de todo mundo, como o rei nu da fábula.

A verdade é que os mesmos que estimulam o clima do “JÁ GANHOU”, no fundo sabem que a eleição será MUITO difícil e que podemos perder. Por isso, com medo disso, se dispõem a fazer uma operação que para muita gente soa inacreditável. Pois bem: estamos de acordo com a premissa, ou seja, nós também achamos que a eleição NÃO está ganha, nós também achamos que há o risco do cavernícola vencer. MAS disto tiramos a conclusão oposta: os que acham aceitável uma aliança com Alkcmin querem ir ao “centro” (ou melhor, eles querem ir para a direita); nós queremos ir para a esquerda.

E aqui é preciso desenhar a explicação. Tem um pedaço da esquerda que além de ser de “classe média”, também pensa com a cabeça de classe média. Por isso sua preocupação fundamental é conquistar o voto dos setores médios. Setores nos quais o desemprego, a fome, a pandemia etc. batem de maneira diferente da forma como batem no povão. Para estes setores médios, a preocupação fundamental são as chamadas liberdades democráticas.

O problema é que os setores médios são importantes, mas nosso problema fundamental é a força do bolsonarismo nas camadas populares. Venceremos se conseguirmos disputar estes setores, contra Bolsonaro e contra o abstencionismo político. Dezenas de milhões não foram votar em 2018 nem em 2022. Outro tanto votou branco e nulo. E dezenas de milhões votaram na direita.

Para conquistar ou reconquistar estas pessoas, não basta Lula como candidato, não basta falar das realizações de quando fomos governo federal. Para conquistar ou reconquistar estas pessoas, precisaremos de propostas muito claras e precisaremos amassar muito barro. Soluções como Alckmin vice conspiram contra as duas coisas: tucanizam nossas propostas, brocham nossa militância e REDUZEM  a tensão que vamos precisar imprimir à campanha, se quisermos derrotar a extrema direita.

Enfim, se o ano terminasse hoje e se a única possibilidade de acumular forças fosse estritamente eleitoral, estaríamos em uma situação estrategicamente ruim, apesar das pesquisas estarem tão boas.

Mas o ano não termina hoje e muita água vai passar por debaixo da ponte.

Lembro em primeiro lugar: dia 4 de dezembro teremos uma nova possibilidade de colocar o povo na rua.

Lembro em segundo lugar: a situação social é muito ruim e vai ter luta. Entre outras, vamos lembrar que em 2022 teremos campanhas salariais importantes, que podem cumprir um papel importante na polarização necessária para vencermos.

Lembro, em terceiro lugar, que embora não tenhamos conseguido nosso objetivo – o impeachment de Bolsonaro – o fato de termos lutado por isso contribuiu para a situação hoje estar melhor do que estaria se tivéssemos aceitado a política QUIETISTA que foi majoraria no DN do PT até o início de 2021. Pois vamos lembrar: demorou muito para o grupo majoritário no DN do PT aceitar o Fora Bolsonaro e demorou muito para eles aceitarem que deveríamos voltar às ruas.

Também por isso, nós não vamos abaixar a guarda, nós não vamos ficar quietos, nós não vamos dar cheque em branco para ninguém decidir sobre o futuro do Brasil e do povo brasileiro, nós não vamos aceitar a tese de que é pelo centro, que é conciliando que teremos melhores chances.

Um comentário mais: tem momentos na história, seja do Brasil, seja do mundo, em que moderação não gera moderação. Nós vivemos um destes momentos. Independente do que venha a ocorrer nos próximos dias, semanas e meses, continuamos vivendo “tempos de guerra”. Lembrar disso não é suficiente para vencer. Mas não será possível vencer sem lembrar disso.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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