Por Daniel Araújo Valença (*)

                Festa da vitoria do presidente eleito da Bolivia Luis Arce, do MAS

A Bolívia, assim como o Brasil, também vivenciou um golpe de Estado que materializava um processo de avanço do capital contra as classes trabalhadoras, do imperialismo contra os interesses nacionais, das oligarquias brancas contra indígenas e negros.

Mas, se no Brasil seguimos derrotados desde 2016, não apenas eleitoralmente, como também ideologicamente, lá as forças conservadoras e neoliberais foram derrotadas em um intervalo de um ano.

Em recente matéria, O Globo revela os dados da vitória avassaladora das classes trabalhadoras indígenas originárias bolivianas. Uma vitória acachapante. Mas, o interessante do texto é notar que, se a luta de classes existe, o lado de lá sabe bem quem são seus adversários, seja no Brasil ou na Bolívia.

Na matéria assinada por Marina Gonçalves (disponível aqui), O Globo reconhece que Luis Arce, do MAS-IPSP (partido de Evo Morales) obteve 55,1% dos votos, e Carlos Mesa, do Comunidade Cidadã, conseguiu 28,83% dos votos. O MAS, sozinho, obteve a maioria na Assembleia Legislativa Plurinacional, tanto no Senado — onde conquistou 21 das 36 cadeiras — quanto na Câmara de Deputados, com 73 dos 130 assentos. A Comunidade Cidadã elegeu 11 senadores e 41 deputados, enquanto a extrema-direita liderada por Fernando Camacho teve um fraco desempenho, com 14% dos votos para a presidência, e elegeu apenas 16 deputados e 4 senadores.

Mas, se o resultado eleitoral significa a derrota inconteste dos golpistas e possibilitou o retorno ao país de Evo Morales, recebido por uma multidão em Cochabamba, o Globo – assim como a mídia boliviana e suas forças conservadoras – insiste na domesticação dos vitoriosos nas urnas e, para tanto, não tem dúvidas em relação aos riscos da liderança de Evo Morales.

O Globo entrevista Guadalupe Peres-Cajias, a quem apresenta como “pesquisadora, professora e colunista”: “Não deixa de ser significativo que a vitória do MAS deste ano seja superior à de Morales em 2005, em seu primeiro governo, quando o ex-presidente ficou com 53,74% dos votos. Em 2019, ele havia obtido 47%, segundo os números que foram depois contestados, e a diferença para Mesa, o segundo colocado, havia sido bem menor”.

Ora, a vitória eleitoral superior em 2020 foi fruto da luta social implacável das forças populares e demonstrou, antes de mais nada, que 2019 foi golpe, e não fraude.

E a fonte de O Globo prossegue:

“Agora, Arce deverá diferenciar-se da gestão de Morales, e evitar acentuar práticas de enfrentamento. Ele precisará dar continuidade, de maneira coerente, à mensagem que deu após o resultado de boca de urna, em direção a um governo de unidade, sem ódios”.

Ou seja, os golpistas expulsam do país o Presidente e o Vice-Presidente reeleitos, assassinam 36 indígenas originários, de El Alto e Cochabamba, sublevados contra o golpe de Estado, rasgam a Whipala e protagonizam cenas de ódio, racismo e violência contra indígenas e, pasmem, quem tem de promover a unidade, sem ódios, são as classes trabalhadoras indígenas originárias!

Mas O Globo prossegue e reproduz a opinião de Daniel Moreno, apresentado como “sociólogo e diretor da Ciudadanía”:

“O MAS se encaminha para ser um partido político que funciona por sua própria lógica, e não mais na figura de um caudilho. Evo é um personagem tóxico nesse momento na política boliviana e Arce precisa demonstrar para o país e para si mesmo que pode governar de maneira autônoma e independente. Ele já deu sinais de que as coisas serão assim, o que me parece positivo para o governo. Se Evo é uma figura muito desgastada, o projeto político da legenda não.”

O leitor e a leitora devem estar se lembrando de determinada entrevista de determinada liderança petista que crê que o PT não pode mais continuar “refém de Lula”.

O Globo e a direita boliviana (seja ela a partidária, a que se denomina de Centro ou mesmo a que se reivindica “especialista”, “analista”) lutarem contra a realidade e tentarem desesperadamente isolar Evo e domesticar uma vitória política sem precedentes é normal. Setores petistas ou da esquerda reproduzirem os interesses do lado de lá e atacarem Lula e seu papel para a defesa das classes trabalhadoras no próximo período, aí é inaceitável.

O nome disto é 5° coluna. É capitulação.

Por fim, à derrota política das classes trabalhadoras indígenas originárias bolivianas se opôs muita luta política: rebelião nas ruas contra o golpe, greve geral que paralisou o país por duas semanas e impôs a realização de eleições, atos massivos em plena pandemia. A vitória eleitoral, portanto, adveio da luta política, da luta social.

No Brasil, após treze anos de “chip” eleitoral – em que a luta política é reduzida a votos a cada dois anos – amplos setores que desejam a derrubada do governo Bolsonaro enxergam apenas o embate eleitoral, e creem que sua resolução se dará em função da aliança com sigla A ou B, independente inclusive de sua participação e contribuição para o golpe de Estado de 2016 e toda a conjuntura atual. Para eles, a totalidade das relações sociais, econômicas, culturais, suas contradições, é secundarizada ou simplesmente ignorada, e o cenário de hoje – sem tampouco se debruçar sobre os erros de 2016 até aqui – será o mesmo de 2022, exceto se uma tal “frente ampla” brotar.

E, para tanto, creem ser necessário inclusive abdicar de algumas das nossas principais e essenciais armas para a luta política; o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula.

(*) Daniel Araújo Valença é professor da graduação e do mestrado em Direito da UFERSA e Vice-presidente do PT do Rio Grande do Norte.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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