Por Laudiceia Schuaba, Célia Tavares, Rogério Favorete e Magno Pires (*)

Os cidadãos de Cariacica vivenciaram, nesta campanha, dois projetos de gestão da cidade em disputa. Um deles, vinculado ao modelo bolsonarista de encarar a coisa pública como coisa privada, espaço para acomodar os “meus”, com mentiras, colocando o tema da segurança pública como centro dos problemas locais e sem propostas concretas para a cidade. Além de demonstrar total incapacidade, despreparo e desconhecimento sobre gestão pública. O outro, vinculado às lutas históricas da classe trabalhadora e gestões petistas de respeito às pessoas, aos recursos públicos, de inclusão e participação coletiva, desde a construção do programa de governo até as decisões do orçamento municipal, representado por Célia Tavares do PT (e da corrente Articulação de Esquerda). Uma professora e ex-secretária de educação do município, que demonstrou estar capacitada, preparada e segura do que propunha e conduzia na campanha. Célia saiu do processo maior do que entrou: uma nova liderança para o PT do Espírito Santo e de Cariacica.

No segundo turno vieram compor com o PT, além do Solidariedade, que foi uma composição formal;  o Psol e o PCB, informalmente desde o primeiro turno; e o PV. Em relação ao PCdoB, importante destacar que o partido deliberou apoio, porém o candidato à prefeito ficou com o adversário à revelia do partido. O PSB não definiu apoio à candidatura, liberou a militância. Apenas o candidato à prefeito do PSB, que já foi do PT; e parte da direção, apoiaram nossa candidatura, mas politicamente optaram pela neutralidade. Os demais partidos ficaram com o  adversário. Se no 1° turno a disputa foi com 13 candidatos, no 2° turno o embate foi contra um adversário que agregou à candidatura dele a estrutura dos 10 outros candidatos. Além do que, todos os vereadores eleitos (exceto o único reeleito do PT, Andre Lopes do Redes e Ruas) ficaram com a candidatura do opositor, incluindo muitos candidatos não eleitos. Muitos acordos escusos do candidato eleito foram vindo à tona no ínterim do segundo turno, fator que terá um preço alto para o prefeito eleito e para o povo nessa gestão vindoura.

A campanha do adversário demonstrou muitos recursos financeiros no segundo turno. Somado ao comitê do adversário da Célia, 18 novos comitês dos vereadores eleitos/reeleitos e dos outros 10 candidatos à prefeito. Vários pastores evangélicos e toda a força das fake news contra a Célia esteve presente no segundo turno. Resgataram a mamadeira de piroca, a ideologia de gênero, e disseram que nas futuras escolas haveriam banheiros únicos para meninos e meninas. Usaram bastante o antipetismo, demonizando o PT como “partido da corrupção”, de “ladrões” e “contra os valores da família”. Esses pastores fizeram passeios nos trios elétricos com esses discursos. Ou seja, usaram dos mesmos recursos que elegeram Bolsonaro em 2018, fake news via WhatsApp por algoritmos a transformar cada igrejinha (evangélica ou não) em um comitê contra a Célia. O envolvimento de pastores/as, padres e religiosos em geral na campanha da Célia foi pequeno, de forma sutil e pontual.

No entanto, a análise corrente é que em Cariacica obtivemos uma vitória política.  Um resgate da militância petista e de esquerda, dos movimentos sociais e um envolvimento das pessoas com alegria e com o coração. Como Célia mesma disse: “a campanha empolgou a militância e nosso povo começou a esperançar, no sentido freireano do termo”. Houveram debates, construção coletiva e envolvimento de lideranças de diversos segmentos da sociedade local. Ficou o legado das capacidades, qualidades e competências da Célia, alçando-a à posição de nova liderança local e estadual. O deputado federal Helder Salomão também saiu fortalecido, resgatando parte de sua base no município, estando presente, ajudando a pensar, planejar e conduzir a campanha. O saldo foi positivo para o futuro do partido e das lutas locais. A campanha permitiu o resgate de antigos militantes, reanimou a base partidária e criou condições de reorganização local do partido, dos movimentos sociais, de lideranças de várias categorias dos servidores públicos municipais. Reuniu os partidos de centro e de esquerda na luta contra o bolsonarismo e seu “modus operandi” de fazer campanha, no segundo turno. A campanha de Cariacica foi um movimento de reencontros, de alegrias e de esperanças.

Porém, além de enfrentar toda a estrutura da velha política, o antipetismo e o bolsonarismo; enfrentamos também as dificuldades internas para chegar os recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. A campanha foi feita em cima da incerteza desses recursos, pois além de não chegar de acordo com o esperado, também não chegou no tempo esperado. O planejamento inicial da campanha foi ficando prejudicado pela falta desses recursos. Informações desencontradas, atrasos nos repasses e poucos recursos, R$ 607.000,00 no primeiro turno e R$ 397.780,83 no segundo. Outro aspecto de dificuldades da campanha foi o de não ter uma equipe de marketing político. Havia apenas uma equipe de mídia. Toda a estratégia da campanha tinha que sair das cabeças da coordenação geral. Ou seja, tinham que pensar, organizar e executar as ações. Além de ter companheiros e companheiras do partido, como a ex-deputada estadual, Lúcia Dornelas, atuando em favor da outra campanha.

Externo aos problemas do partido, a campanha vivenciou uma cidade desorganizada, ou melhor, a classe trabalhadora desorganizada; o movimento popular, fragilizado, sem influência real na vida das pessoas e nos rumos da cidade; e o partido ainda muito desorganizado, com questões estruturais e funcionais gerando desgaste político interno durante a campanha. Por exemplo: 11 candidaturas do PT à vereador/a foram indeferidas pela justiça eleitoral por problemas de filiação ao PT no cartório eleitoral. Problema que consumiu parte da coordenação e acompanhamento jurídico para tentar reverter. E neste caso inclui uma candidata à vereadora da Articulação de Esquerda, professora Ivonete Maria da Silva.

Parafraseando a nossa candidata Célia Tavares: “Tenho consciência que minha vitória representaria o empoderamento das mulheres. O PT precisa dar mais atenção às mulheres de nosso partido. Sigamos em frente pois sabemos que nunca foi fácil para nós, e logo ali, na próxima esquina, temos outros embates para fazer”.

(*) Laudiceia Schuaba é dirigente municipal do PT de Vitória e dirigente estadual da AE.

(*) Célia Tavares é integrante do diretório municipal do PT de Cariacica e dirigente estadual da AE.

(*) Rogério Favorete – Direção Estadual do PT e direção Estadual da AE.

(*) Magno Pires é dirigente municipal do PT em Vila Velha e dirigente estadual da AE.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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