O Página 13 conversou com Daniel Damiani, professor de sociologia, diretor do CPERS-Sindicato e militante petista, sobre as eleições ocorridas na entidade no último mês de maio. O sindicato representa os trabalhadores e as trabalhadoras da rede pública estadual de educação do Rio Grande do Sul. Confira a entrevista!

Página 13 – Daniel, entre os dias 26 e 28 de maio aconteceram as eleições no CPERS. Você pode nos falar um pouco o que foram essas eleições?

Daniel – As eleições para a Direção Central e para os 42 núcleos regionais do CPERS Sindicato, previstas para acontecer a cada três anos, ocorreram com praticamente um ano de prorrogação em função da pandemia do COVID-19. Pela primeira vez foi um processo totalmente online, seguindo os prazos mínimos e contando com uma participação de  27.207 sócios, ante 35.613 do processo anterior (2017).

Página 13 – E que balanço geral você faz da campanha e do processo eleitoral como um todo? Quais foram os principais debates?

Daniel – O processo foi totalmente controlado pelo setor majoritário da atual direção, que fez maioria no Conselho Geral da entidade (instância que regula o processo) e organizou o processo, datas, prazos no limite do estatuto e de seus interesses. A principal diferença apresentada para a categoria era sobre a caracterização do governo estadual (Eduardo Leite – PSDB) e a postura do sindicato. A chapa situacionista usou a retórica do diálogo com o governo em qualquer condição. As duas outras chapas de oposição defendiam maior combatividade e enfrentamento por parte do sindicato.

Página 13 – Concorreram três chapas à direção do sindicato. Como podemos caracterizar cada uma delas ou o que as diferenciava? E se você pudesse falar também das composições das chapas e/ou dos apoios…

Daniel – Pela ordem, a chapa 1 – Novo Rumo era composta pelas forças do chamado esquerdismo – PSTU, CST/PSOL e MLS, que é a corrente sindical do grupo da Rejane Oliveira, ex-presidenta do CPERS que rompeu com a DS/CSD. Esta chapa fez 5.409 votos, ou 20,12%, reduzindo sua influência no CPERS também nos núcleos de base, elegendo apenas 5, a metade dos que dirigiam anteriormente.

A chapa 2 – CPERS Unido e Forte, que foi eleita, era a chapa da maioria da atual direção, hegemonizada pela ArtSind. Contava ainda com CTB, CSD, OT, Pó de Giz (direita organizada, com filiados no PP e MDB) e setores do PDT, fez 11.897 votos, ou 44,24%. Esse bloco perdeu 3 núcleos onde dirigia e ganhou outro, ficando com um total de 20. Era a chapa situacionista e da conciliação de classe, tanto pela sua composição em aliança com setores reacionários, como pela linha política adotada na gestão e na campanha, de encenar um diálogo inexistente com o governo ultraliberal do PSDB.

A chapa 3 – Muda CPERS, encabeçada pela Articulação de Esquerda, reunia uma parte da atual direção (AE, Avante, Resistência Socialista) e uma parte da oposição (CUT Pode Mais, PRC entre os cutistas, além de forças do PSOL, CS, Fortalecer, MES, Resistência). Esta chapa fez 9.583 votos, ou 35,64% dos votos. Ampliou sua influência nos núcleos do CPERS, passando de 7 para 16 e se colocando como principal polo de oposição à Direção Central da entidade.

Pagina 13 – A chapa do campo Muda CPERS, mesmo não sendo a eleita, fez um grande resultado e se torna uma grande referência para a categoria, certo?

Daniel – Foi um excelente resultado, que poderia ser vitorioso caso tivéssemos condições normais de realizar uma campanha visitando escolas, conversando com a categoria e canalizando o desejo de mudanças existente na base e expresso nas eleições, com cerca de 56% votando em chapas de oposição que apostavam em maior enfrentamento com o governo estadual.

Com o resultado expressivo também em relação a chapa do “esquerdismo”, o Muda CPERS se expressa como a real alternativa de direção para a entidade.

Pagina 13 – Falando no cenário pós-eleições, você entende que o sindicato sai fortalecido desse processo? E, pensando no próximo período, quais são as principais lutas e desafios da categoria e do sindicato?

Daniel – Gostaríamos de dizer, sempre, que o sindicato sai fortalecido do processo… mas a atual direção reeleita para um terceiro mandato não comemorou a vitória, conseguida por uma margem de menos de 10% dos votos em relação à segunda colocada. Agora ocorre a segunda etapa do processo eleitoral, com a eleição dos representantes para o Conselho Geral da entidade, nos dias 29 e 30 de junho. Pelas regras de composição, a direção tende a conseguir uma pequena margem de maioria no Conselho, com um desgaste cada vez maior na base da categoria. Resta saber se a direção da Articulação Sindical saberá corrigir os rumos, o que não quis fazer e originou a ruptura da direção, ou se entrará em crise de perda de hegemonia.

 

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