Por Mateus Santos*

Segue reflexão sobre um importante processo político que aconteceu há algumas semanas  em Salvador. Trata-se de um seminário de discussão sobre uma candidatura negra e de esquerda para as eleições municipais. A matéria abaixo trata da relevância desse primeiro passo, os desafios a serem travados e o papel do PT. Vale apena acompanharmos esse processo.

Uma vitória política e histórica a ser construída em Salvador: Eleição 2020 e uma candidatura negra, militante e de esquerda

Há algum tempo, escrevi uma breve reflexão sobre as discussões envolvendo as táticas eleitorais de 2020, externando divergências entre o governo do estado e setores do Partido dos Trabalhadores. De um lado, uma tática fundamentada em um maior aprofundamento da conciliação de classes, com abertura de maior espaço para os setores de centro e centro-direita nos executivos municipais. Por outro, movimentos em prol de candidatura própria nas principais cidades baianas, como Salvador e Feira de Santana, ainda que não se tenha claramente sob quais termos programáticos e políticos isso se daria. Pois bem, há algumas semanas atrás, um evento envolvendo a militância negra soteropolitana, bem como os partidos de esquerda e centro-esquerda na capital (PT, PCdoB, PDT, PSB e PCdoB) realizou um grande e importante encontro político, visando à construção de uma candidatura negra na disputa do Palácio Thomé de Souza. Sob o título “Por que queremos ela: Salvador Cidade Negra”, o 2020 ganhou novos contornos, demonstrando que suas discussões estão longe de estarem próximas de se esgotarem. A relevância de um debate como esse pode ser evidenciada em ao menos três níveis: a urgência de uma candidatura negra, o debate estratégico sobre o Partido dos Trabalhadores e a resistência em relação ao bolsonarismo. Comecemos pelo primeiro aspecto.

A paradoxal trajetória de Salvador, exaltada por ser a “cidade mais negra fora da África”, capital da cultura afro-brasileira no Brasil, terra do Olodum, do Ilê e de tantas outras manifestações culturais, mas que jamais teve um homem ou uma mulher negra ocupando um posto de comando como a prefeitura. Ao falarmos de uma dívida histórica do Estado e da sociedade brasileira para com os negros e negras, encontramos em Salvador valores ainda mais altos. Além de ter sido construída e muito por braços escravizados, foi por este porto comercial que milhões de africanos entraram forçadamente em nosso país, sendo, portanto, nossa cidade uma das portas principais para a grande mancha da história brasileira. A repressão e marginalização dos corpos negros permaneceram em outros momentos da caminhada da urbis até os dias atuais, seja pela criminalização e discriminação dos cultos de matriz africana ou mesmo pela política de extermínio de nossa juventude. Um nome que faça jus aos 85% de negros e negras que compõem essa cidade atende não somente às demandas do presente e do futuro próximo, mas também um reencontro com um passado do qual devemos sempre lembrar e tomar como base para a construção de uma nova forma de condução da política.

A participação de militantes e dirigentes do PT de Salvador é muito significativa. A declaração da pré-candidatura de Vilma Reis à prefeita colocou maior complexidade ao debate político-partidário para 2020. Se antes as opções dadas giravam em torno de algumas pré-candidaturas de deputados federais e estaduais ou rumores sobre outra tática do governador, a opção de construir um nome pela militância vem ganhando adeptos por diferentes setores do partido. O movimento empreendido por um evento como esse pode ser visto como um importante passo para a edificação de um partido em que as bases tenham mais condições e papel ativo na construção política. Não deixando de reconhecer a presença dos outros partidos, o que denota a possibilidade de alianças das esquerdas, inegavelmente o PT tem um papel extremamente significativo nesse processo, na medida em que concentra todas as condições políticas para comportar um projeto como esse, em diálogo com as outras organizações que se dispõem a dar uma nova cara para a cidade de Salvador. Resta saber, dando segmento a este movimento, como avançarão os debates entre a militância e os partidos e, no caso do PT, como tal questão será conduzida em seu debate interno, afinal, para aqueles que acreditam na democracia de uma organização de esquerda, serão precisas outras etapas para apreciação do nome e construção de um programa político que possa ser capaz de derrotar as forças carlistas em nossa cidade.

Ter um prefeito ou uma prefeita negra, a partir desse movimento, também deve ser encarado como uma possível vitória política para a esquerda baiana e brasileira. A capital brasileira que, em 2018, rendeu a maior quantidade de votos em Fernando Haddad no segundo turno, possui hoje a possibilidade em transformar essa vitória eleitoral em um grande êxito político contra o bolsonarismo e as forças da direita e extrema-direita locais. Para isso, serão necessárias ao menos duas coisas. A primeira já está mais evidente: a formação de um projeto que possa produzir um nome capaz de representar a grande maioria da população soteropolitana, garantindo a representatividade e o legítimo lugar dos negros e negros na política dessa cidade. A segunda questão é um pouco mais difícil: a elaboração do programa político. Partidos e movimentos que hoje estão à frente desse processo precisam ter a clareza do papel que estão cumprindo em meio a uma conjuntura extremamente grave nacionalmente. Uma agenda política para Salvador hoje não pode pensar sequer em propor qualquer tipo de conciliação com o bolsonarismo ou com setores que o apoiam. Não pode também excluir o Lula Livre, pois a injusta prisão do presidente foi um dos capítulos mais importantes do processo de estruturação do golpe que vem destruindo o Estado Brasileiro.

Muito há para se debater sobre a sucessão de ACM Neto e a grande possibilidade da esquerda chegar ao governo em Salvador. Devemos ficar atentos aos próximos passos, em especial, na expectativa pelo avanço das discussões sobre uma candidatura militante e o enfrentamento entre as diferentes estratégias colocadas em questão. Apesar dos longos caminhos ainda a serem percorridos, a certeza que fica é que as bases estão em firme atuação política, podendo ser atores fundamentais neste processo eleitoral, mas também numa possível marco para a história de Salvador. Como negro e militante do Partido dos Trabalhadores, vejo com bons olhos toda esta movimentação, esperando que tanto os pré-candidatos, em especial, Reis se coloque à disposição e dispute internamente entre os demais nomes, quanto o próprio PT trate com muita atenção sobre essa alternativa que hoje se constitui. Para quem luta por um partido militante, de massas e capaz de voltar a ser o grande representante da classe trabalhadora, uma candidatura negra, que tenha compromisso com nossa bandeira de esquerda socialista, pode ser um passo fundamental na mudança que o PT, Salvador e o Brasil precisam.

*Mateus Santos é graduando em História – UFBA e militante da Juventude da Articulação de Esquerda – JAE (BA)

 

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