Por Silvia Fernandes (*)

Vilma Reis

Salvador, a cidade mais negra fora da África, vem sendo palco, desde o ano passado, de amplas movimentações dos partidos de esquerda, intelectuais e movimentos sociais que estão questionando a hegemonia branca das representações políticas da cidade. Como consequência da força política dessa agitação, inúmeras pré-candidaturas surgiram no cenário soteropolitano. Nomes como: Olívia Santana no PCdoB, Silvio Humberto no PSB e Vovô do Ilê no PDT, surgiram ao longo desse processo.

No PT, 2020 começou antes e bem agitado. Entre deputados, vereadores, secretários e militantes, o partido chegou a ter, em dado momento, mais de seis pré-candidatos, gerando grande expectativa quanto ao processo de definição do nome petista na disputa do Thomé de Sousa. Vilma Reis, socióloga feminista negra, é um desses nomes. Sob o lema “EU QUERO É ELA: POR UMA CIDADE DE DIREITOS”, Reis faz parte de um movimento que tem como central a crítica à ordem social estabelecida, e propõe uma candidatura negra que resgate o programa estratégico socialista do PT em novas bases programáticas antirracistas, antipatriarcais, para subsidiar um plano democrático popular renovado para capital baiana em 2020.

A pré-candidatura de Vilma Reis é referência por sua trajetória na luta nacional antirracista e por direitos humanos – como ex-ouvidora geral da Defensoria Pública da Bahia, é conhecedora profunda dos vazios assistenciais no território soteropolitano e é reconhecida entre os movimentos de resistências aos catastróficos governos de ACM Neto (DEM).

O direito de existir, pertencer e modificar a cena de mal-estar do apartheid social se acendem na sociedade e em nosso partido. A necessidade de que o PT se conecte às pautas históricas dos movimentos sociais que lutam contra as opressões de classe, o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo e todas as formas de dominações, se intensificam. Nesta direção, o movimento de apoio à pré-candidatura Vilma Reis chega para oxigenar o PT, primeiramente com o Coletivo Dois de Julho e depois com a tendência Articulação de Esquerda, somadas a vários independentes e simpatizantes do PT, entendendo que esta nova estética partidária significa uma transformação política posicionada à esquerda.

Todavia, essa trajetória enfrenta obstáculos e percalços no interior do partido. A estratégia de conciliação de classe e subserviência da maioria do partido a posições congruentes com as do governador Rui Costa são uma constante. Em uma reunião ocorrida dia 15 de fevereiro, a maioria do diretório municipal do PT de Salvador optou por não realizar prévias para escolha da candidatura petista à prefeitura, o que significou um retrocesso nos processos internos democráticos do PT, pois, sem uma nova consulta à militância, será realizado um encontro com delegados e delegadas definidos a partir da proporção da composição do diretório municipal – tática esta que busca não modificar a correlação de forças internas do partido.

Para este momento, além da candidatura de Vilma Reis, teremos a candidatura de Juca Ferreira ex-ministro da cultura, Fabya Reis – secretária da Promoção da Igualdade Racial do governo estadual e também a pré-candidatura escolhida pelo governador, de Major Denice, ainda não filiada no PT, que é policial militar e coordenadora da Ronda Maria da Penha.

A tática de militarização da candidatura do PT à prefeitura é um erro diante do momento histórico de crescimento do conservadorismo e mobilizações neofascistas no Brasil. Esta expressa uma concepção equivocada de alianças, que busca ampliar e constituir apoios dentro da estrutura do aparato militar e que gera um grande entrave para a defesa das pautas históricas do PT – desde a reforma da segurança pública à construção de uma agenda de direitos humanos para o âmbito municipal.

Neste sentido, quando nos episódios de violência repercutidos na mídia, Rui Costa defende indiscriminadamente os atos da Polícia Militar, categorizando-os “como fatos isolados” e coloca nosso partido em contradição, pois a população nas periferias cotidianamente é vítima da terceira polícia que mais mata no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2019.

Para que o PT recupere seus laços com a militância e as periferias, Vilma Reis é a pré-candidata que hoje expressa a vitalidade e o acúmulo dos movimentos sociais. O legado do PT deve ser posto para avanço por uma mulher negra, que dará respostas a polarização de classes no presente cenário político.

Para 2020, a cidade da informalidade e do desemprego latente, pode dar lugar à cidade de direitos, pois será através da economia criativa para geração de renda, do turismo sustentável, da estruturação do sistema de transporte, da construção de creches, dentre muitas propostas, que podemos ganhar os eleitores da cidade para um projeto de cuidado, inclusão e reparação, sintonizado às necessidades sociais do povo.

(*) Sílvia Fernandes é assistente social sanitarista e integra o diretório municipal do PT de Salvador.

 

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