Por Natália Sena (*)

Texto publicado na edição de março do Jornal Página 13

Março de 2021 começa com a certeza de que a pandemia vai se prolongar e ainda produzirá efeitos mais duros do que os que foram sentidos até agora pelo povo brasileiro. De março de 2020 até dezembro de 2020 morreram em média 200 mil pessoas no Brasil, e nos meses de janeiro, fevereiro e primeiros dias de março de 2021 já superamos o patamar das 262 mil mortes. Ou seja, em pouco mais de 2 meses, morreram por covid-19 quase um terço do total de pessoas que morreram em 2020. Um “detalhe”: a vacinação no Brasil começou justamente em janeiro de 2021 e segue a passos de tartaruga. Em 6 de março de 2021, dia que este texto está sendo escrito, temos menos de 4% da população vacinada, não existem condições objetivas de se fazer isolamento social no país e a presidência da república sustenta o seu projeto de desprezo pela vida e de negacionismo sobre as medidas realmente eficazes para conter a pandemia.

Do ponto de vista social, a tragédia é imensa. O combo “desemprego e fim do auxílio emergencial” provoca o aumento da fome e da miséria e é cada dia mais fatal, tanto por puxar para níveis muito baixos as condições de vida do povo quanto por inviabilizar a existência de isolamento social capaz de conter a disseminação do vírus. Os trabalhadores e trabalhadoras precisam ir às ruas, primeiramente, para sobreviver. Ou seja, buscar trabalho, conseguir sustento, ter dinheiro para comer. Ter que “ficar em casa” para quem precisa trabalhar justamente fora de casa para ter o que comer, quando não existe mais o auxílio emergencial, certamente não faz mais o menor sentido. E é totalmente compreensível que não faça.

No Congresso Nacional, segue a todo vapor a pauta ultraliberal que retira direitos e piora a vida do povo, do que a votação da PEC 186 (que já aconteceu no Senado e deve acontecer na Câmara na próxima semana) é apenas um exemplo. Mesmo diante da crise brutal, estão desmontando o orçamento público em diversas áreas e retirando direitos de servidores públicos em troca de um auxílio emergencial muito menor do que os R$ 600,00 que foram pagos em 2020, e por um período limitado de apenas 3 meses. Mais um acinte que a direita brasileira não está tendo o menor pudor de impor à classe trabalhadora, mostrando que o programa de desmonte da Constituição de 1988 e de direitos que pareciam consolidados é sólido, e que há disposição de implementá-lo com êxito, de forma inclusive a dificultar muito que um futuro governo de esquerda consiga fazer políticas públicas da forma como os governos Lula e Dilma fizeram entre 2003 e 2016. Essa é apenas mais uma prova de que uma saída de esquerda para a situação em que o país se encontra passa necessariamente pela radicalidade programática.

O fato é que não existe solução razoável para os problemas que o Brasil está enfrentando que passe por qualquer tipo de tolerância com a permanência do governo Bolsonaro até 2022. Cada dia a mais desse governo é fator de destruição do país, de descaso com a vida das pessoas e de perda da nossa soberania nacional e das liberdades democráticas. Mesmo assim, a resiliência que o presidente apresenta é impressionante. São mais de dois anos de mandato, e na metade desse tempo vivemos em uma pandemia, sem que Bolsonaro recue um milímetro do seu discurso de desprezo pela vida e da sua prática anti-povo e anti-direitos. E com isso, ele segue na média dos 30% de aprovação popular. Com altos e baixos, com oscilações, com algumas concessões (como o auxílio emergencial, que em janeiro foi cortado), o apoio a Bolsonaro segue existindo e sendo forte na sociedade.

O que fazer diante dessa situação? Primeiro, acho que não é mais cabível defender “fica em casa” como uma regra geral até o final da pandemia, ou até a vacinação em massa. Alguns especialistas dizem que isto pode só acontecer no final de 2022, ou até em 2023. Então, é preciso criar melhores condições para organizar pessoas, para mobilizar pela derrubada do governo, desde já. Quem se sentir em condições de fazê-lo, não for grupo de risco, não conviver com quem é grupo de risco, na minha opinião, não deve titubear em se colocar para fazer luta para além dos meios virtuais: ações de solidariedade, de conscientização, reuniões e debates sobre conjuntura, carreatas, bandeiraços, fixação de faixas pelas cidades, e até atos de rua, são coisas que precisamos fazer. Em segundo lugar, é preciso fazer tudo isso independente das eleições de 2022. Se queremos derrubar Bolsonaro aqui e agora, é preciso compreender que antes de 2022 precisamos atravessar 2021 em patamar superior ao que alcançamos em 2020. E que sem muita luta social, mobilização, organização, e principalmente, sem muita raiva e indignação transformadas em ação, as fortes chances de sermos derrotados estão aí, só não vê quem não quer.

Sigamos o exemplo dos argentinos e dos bolivianos, que só ganharam eleições porque fizeram imensas lutas sociais contra os ultraliberais e golpistas deles; e sigamos também o exemplo dos paraguaios, que hoje amanheceram em luta contra um governo que maltrata o povo em meio a pandemia. Os que conheceram o prefeito David Capistrano contam que ele falava que o PT tinha militantes vietnamitas e generais paraguaios. De fato, os generais paraguaios não são exemplo para ninguém, mas o povo paraguaio está de parabéns nesse 6 de março de 2021: não a saída que não passe por ir ás ruas para derrubar um governo genocida.

(*) Natália Sena é advogada e da executiva nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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