Por Marcos Francisco Martins (*)

Passadas as eleições municipais, os balanços político-eleitorais pululam nas redes sociais e nas mídias tradicionais. Muita gente parece interessada em saber quem ganhou e quem perdeu. O discurso generalizado na mídia corporativa, bem como em alguns setores do espectro político nacional, à esquerda e à direita, é de que dois sujeitos foram derrotados: o PT e o bolsonarismo, o que não é verdade, a não ser para as pretensões de alguns e algumas, que querem sobre essa sentença construir as próprias alternativas eleitorais para 2022.

Considerando a hecatombe que o PT tem vivido na última década, com a desconstrução massiva de imagem e dos posicionamentos por vários meios e processos, manter a posição, que foi o que o partido fez, não pode ser dado como derrota. Obviamente, qualquer que seja a perspectiva de análise dos dados, o PT não avançou eleitoralmente (menos 5% de vereadores e menos 30% de prefeituras), mas colocou 15 candidatos/as no segundo turno e, dado o número de habitantes governados por partido entre 2016 e 2020, o PT manteve a representatividade: em 2016 eram 6.033.981 habitantes e em 2020 são 6.045.238. Como disse recentemente Gleisi Hoffmann, “estancou-se a sangria de 2016”. De fato, o PT resistiu politicamente. Poderia, contudo, ter feito a resistência ativa, ocupando mais e melhor as redes sociais, protagonizando o processo de construção de frentes de esquerda, sobretudo em grandes municípios; resistindo às alianças com partidos golpistas e bolsonaristas em pequenos municípios, para garantir a coerência político-ideológica; e mesmo apresentando-se apto a correr riscos em cidades específicas em função do desafiador momento conjuntural, como seria o caso da candidatura de Haddad em São Paulo, o que não ocorreu. Cabe, então, à direção e às bases do partido avaliar esse processo para com ele aprender.

Por sua vez, por mais que se afirme, interesseiramente, que Bolsonaro e o bolsonarismo foram destruídos, isso não ocorreu também. O realismo indispensável à análise política informa que Bolsonaro e o bolsonarismo sofreram derrota em uma batalha importante, mas não perderam a guerra. Eles ainda têm força política acumulada, que foi empregada em campanhas bolsonaristas e naquelas da direita tradicional e neoliberal para enfrentar as esquerdas. Grande parte do arsenal deles reside nas narrativas sobre os “costumes” e, nesse aspecto, construíram um receituário utilizado quando e onde julgarem ser necessário. Caso enfrentem a esquerda, basta utilizar a receita empregada contra Manuela, Marília, Boulos…: “eles são contra a família”, “querem a ideologia de gênero nas escolas”, “vão acabar com a religião”, “vão liberar todas as drogas”… e por aí vai.

De fato, a questão dos “costumes”, ou melhor, a discussão moral, teve importante papel na decisão do sufrágio municipal, seja para as esquerdas, seja para a direita e para a extrema-direita. A propósito, muitos/as vereadores/as combativos/as foram eleitos/as a partir de plataformas ancoradas na discussão sobre gênero e sexualidade, por exemplo, ao passo que outros/as edis e mesmo prefeitos/as neoliberais e protofascistas ganharam votos com discursos reacionários sob o ponto de vista dos costumes. E tudo indica que essa questão continuará tendo o mesmo status nos próximos enfrentamentos políticos e eleitorais, mesmo considerando que a questão econômica é relevantíssima, tanto que poderá afetar a correlação de forças para 2022. Desse modo, cabe às esquerdas traçar estratégias tanto econômicas quanto aquelas ligadas aos “costumes”, inclusive definindo o quanto antes como enfrentará a receita moral pronta que a direita e a extrema direita têm contra as esquerdas.

O jogo eleitoral não se restringiu aos liames entre PT e bolsonarismo. Outros/as atores/as também atuaram – ganhando, perdendo ou mantendo posição – o que precisa ser bem compreendido para se definir as estratégias político-partidárias para o próximo período.

Quem desponta como maior vitorioso foi a direita tradicional e neoliberal, porque colheu frutos de um movimento de deslocamento dos votos da extrema-direita para a direita, fazendo os/as bolsonaristas perderem a batalha das eleições municipais, mas não alimentando as esquerdas.

Além disso, cabe destacar que os dados, bem como os usos e abusos que deles se tem feito, apontam que há sujeitos que saíram maiores do que entraram no processo eleitoral. Ciro é exemplo e ele conta com os discursos da imprensa corporativa para corroborar as próprias falas de que é necessário construir uma alternativa ao centro, “contra os extremos representados pelo PT e pelo bolsonarismo” que, na visão dele, são os maiores derrotados nas eleições municipais. Na noite de apuração dos votos, Ciro estava a dar entrevistas, construindo a narrativa da urgente guinada ao “centro”, entendido por ele como sendo um arco que contempla, em um polo, PSB, PV, REDE e os demais de mesmo perfil afinado à esquerda, e em outro, o DEM, caracteristicamente de direita. Mesmo antes das eleições, Ciro e o PDT fizeram gestos importantes a este arco por eles denominado de “centro”. Ao DEM, ofereceram Ana Paula Matos, do PDT, como vice-prefeita de Bruno Reis (DEM), em Salvador, e ao PSB, garantiram apoio a João Campos (PSB), em Recife, indicando como vice Isabella de Roldão (PDT). Passadas as eleições, as baterias verbais de Ciro miram precisamente o PT, do que se pode concluir que na “frente ampla” por ele articulada o PT não será bem-vindo.

Outros sujeitos também saíram maiores das eleições municipais. Esse é o caso do PSOL, que ampliou o número de prefeitos, vereadores e pessoas governadas. Sobre Boulos cabe destacar que: a) a campanha eleitoral que ele promoveu mostrou-se muito promissora, pois envolveu a juventude, motivou setores que tradicionalmente se engajavam nas campanhas do PT (artistas, intelectuais…) a sair às ruas para defender o voto, mesmo em tempos de pandemia, e em especial empregou as redes sociais de modo muito inovador, o que possibilitou, inclusive, descontruir algumas fake news; esse know how precisa ser apropriado pelas esquerdas; b) apesar de ter sido nomeado pela imprensa corporativa com o principal nome da esquerda, pelo interesse de desconstruir o PT, ele não tem demonstrado querer cair nessa cilada; c) mesmo tendo feito bela e motivada campanha, com 2.168.109 votos, não conseguiu avançar sobre os votos da direita e da extrema-direita em São Paulo, tanto assim que o mapa de apuração de Boulos é similar, com exceção de dois distritos, ao de Haddad contra Bolsonaro, na mais recente eleição presidencial.

Há, contudo, aqueles que mantiveram posição, mesmo sendo de um partido que reduziu de tamanho no cenário eleitoral. Esse é o caso de Dória, do PSDB. Integrante de um partido que viu diminuída a quantidade de prefeituras sob sua gestão (menos 35%) e de vereadores/as (menos 18%), a eleição de Bruno Covas em São Paulo recolocou Dória em condições de trabalhar para se viabilizar como candidato à presidência em 2020. Caso Covas tivesse perdido, a derrota do PSDB teria sido fragorosa, inviabilizando os planos de Dória.

Flávio Dino é um dos exemplos de personalidade da esquerda que saiu menor das eleições municipais. Apesar de ter sido sujeito importante no período anterior e que vinha crescendo politicamente no cenário nacional, ele viu o próprio tamanho político ser reduzido, como todo o PCdoB. Dino apoiou Duarte Junior (Republicanos) no segundo turno, que perdeu a eleição para Braide (Podemos), em São Luis. E Braide contou com apoio de parte do secretariado do governador. Além disso, Dino apoiou João Campos (PSB), em Recife, que fez uma campanha de tipo bolsonarista contra Marília Arraes, do PT (seria na tentativa de se desculpar com petistas que Dino utilizou uma camisa com a inscrição “Lula Livre” no dia da votação?). Além disso, o PCdoB construiu uma estratégia desastrosa para as eleições municipais: lançar candidaturas majoritárias em todas as cidades em que isso fosse possível, para alavancar a eleição de vereadores/as e garantir-se frente à clausula de barreira. O resultado foi desastroso: menos 43% de prefeituras e menos 38% de vereadores/as, o que acabou ainda prejudicando frentes de esquerda. Isso ocorreu em Campinas/SP: PT/PSOL articularam a frente, que só não foi ao segundo turno por cerca de 6.000 votos, e a candidata do PCdoB teve aproximadamente 12.000.

A direita, capitaneada pela mídia corporativa, já tem estratégia definida e ela está focada na construção de um “centro” para 2022, formado por partidos tradicionais e neoliberais. Contudo, como o que determina o jogo político é a correlação de forças, que pode se alterar até 2022, a proposta de composição desse “centro” poderá variar mais para a esquerda, com Ciro como candidato à presidência, ou mais para a direita, com Hulk, Dória, Maia e outros, a depender da correlação de forças.

Cabe destacar, por fim, que os dados de eleições passadas demonstram que não há relação direta entre eleição municipal e eleição presidencial. Contudo, é indispensável não vacilar em relação à construção de uma “frente de esquerda”, mesmo que nela não caiba Ciro e o PSB, para que se possa não apenas enfrentar os próximos processos eleitorais, mas também, e principalmente, para retomar a luta político-ideológica nas bases, hoje ocupadas, em larga medida, por fundamentalistas cristãos e neofascistas. Até porque eleição não pode ser finalidade última do PT, mas meio para conquistar as necessárias transformações profundas na sociedade brasileira, em favor de quem mais precisa.

(*) Marcos Francisco Martins é professor da UFSCar campus Sorocaba e pesquisador do CNPq. E-mail: marcosfranciscomartins@gmail.com


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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