Por Luiz Sérgio Canário (*)

Tal qual um República das Bananas a poderosa República dos Estados Unidos da América embolou a eleição para Presidente em um enredo antes só visto na periferia do Império. Três dias depois da eleição ninguém sabe quem ganhou e quem perdeu. E segue o baile!

Os analistas da nossa imprensa, principalmente os canais de notícia da TV, se desdobram em análise e de descer a detalhes nunca visto em uma eleição no Império. Quem está acompanhando passou a conhecer em detalhes a geografia estadunidense. Estados pouco conhecidos, condados, que poucos sabem o que é isso, que ninguém nunca ouviu falar e que de repente passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Mais até que o Amapá e seus municípios que estão sem energia elétrica há alguns dias e ainda devem ficar mais muitos dias assim. O que será que teremos primeiro? A energia no Amapá ou resultado das eleições no Império? Piadas não faltam.

Os Estados Unidos tem um sistema eleitoral confuso e com centenas de regras. Cada estado tem suas próprias regras. Um enorme emaranhado de leis e regulamentos. É tão confuso que não há um órgão ou entidade pública que centralmente consolide os resultados e proclame o vencedor. Isso é feito tradicionalmente por uma agência de notícias, a Associeted Press – AP.

O presidente não é eleito pela maioria dos votos do povo, base de qualquer república liberal, mas sim por Colégio Eleitoral formado por representantes de cada estado da federação. A quantidade de delegados de cada estado é uma proporção de sua população. A Califórnia, estado com a maior população, tem 55 delegados. Já o Alaska tem 3 delegados. Os delegados seriam livres para votar em quem quisessem. Mas na prática os delegados estão ligados ao partido que ganha a eleição no estado. Na maioria dos estados quem vence leva todos os delegados. Mas há alguns, para complicar ainda mais o sistema, que dividem os delegados proporcionalmente a votação de cada partido. Vence as eleições quem elege mais delegados para esse Colégio Eleitoral. Uma confusão que algumas vezes, como na eleição de Trump em 2016, não elege o candidato com mais votos dados diretamente pelo povo. Hillary Clinton teve mais votos que Trump, mas perdeu.

Esse confuso e antidemocrático sistema exclui da disputa partidos menores, que existem bastante por lá. Apesar de na aparência ser um sistema bipartidário, na verdade não é. É que somente os dois grandes, o Republicano e o Democrata, conseguem de fato disputar uma campanha multibilionária com chances de eleger delegados nos estados. A estimativa de gastos de campanha dos dois candidatos nessa eleição é 14 bilhões de dólares, quase 80 bilhões de reais!

Interessante é ver os malabarismos retóricos dos jornalistas das grandes redes brasileiras para justificar que esse sistema garante a participação do povo na “maior democracia do mundo”.

Mas o que era ruim nessa eleição ficou pior. A fragilidade do sistema que suporta a grande democracia ficou exposta. Tanto pelas suas fraquezas intrínsecas, quanto pela participação no processo de Donald Trump. Ele não está nem aí para os Pais da Pátria e para as “tradições democráticas” de seu país. Ele, e os que ele representa, querem o poder, a presidência da república do centro do Império Capitalista. Se para isso é necessário atropelar todos os princípios sagrados da tal democracia, às favas com os escrúpulos, como já se disse por aqui na decretação do AI-5. Lá como cá a democracia é um enfeite, um bibelô para servir de cenário para a exploração. Lá como cá se for preciso sacrificar os belos princípios fundadores da república, passa-se a faca no pescoço. A democracia burguesa não resiste aos sopros dos interesses do capital. Mesmo quando são frações do capital que estão disputando. Se as tradições do aparelho estatal estão atrapalhando, vamos modernizar o aparelho com nossas ideias. Ou acabar com essas tolas tradições. É o que Trump está fazendo.

Trump está passando como um trator por tudo que é de mais sagrado às instituições do Império. Está acusando o sistema eleitoral de fraudulento em favor do seu adversário. Preparou o aparato judicial com a nomeação de uma ultraconservadora para o STF deles. E vai levar a briga até as últimas consequências. Ele está fazendo por dentro o que os “comunistas” não conseguiram por fora: desmoralizar o sistema que dá suporte a democracia estadunidense. E não está propondo nada em seu lugar.

A dita maior democracia do mundo, o alicerce democrático do mundo, que quer exportar seu modelo à força para os incultos e bárbaros está às voltas com problemas de legitimidade de seus processos de escolha dos representantes do povo. O centro, afinal, não está assim tão distante da periferia. O Império está mais próximo dos bárbaros do que eles imaginavam. É esse o modelo de democracia exportável?

Esses acontecimentos só agudizam a crise do mundo capitalista. E só demonstram que somente processos revolucionários tendo a frente a classe trabalhadora pode construir sociedades realmente democráticas com a real participação de todo o povo. Demonstram os limites da democracia liberal-burguesa e a sua inépcia em tratar os seus conflitos. A crise do capitalismo não é somente econômica. Ela atinge as entranhas do seu poder político. Trump e a direita europeia deixam a nu as entranhas de um sistema insustentável. E para nós… Bolsonaro! O Trump dos trópicos. Para os que riem de Bolsonaro, Trump está aí para mostrar que não estão somente na periferia os piores exemplos.

Cabe a classe trabalhadora, através de seus partidos e organizações populares, compreender o momento de crise e construir estratégias que a coloquem no centro da disputa política. Que saiba se aproveitar das contradições geradas por essa enorme crise do capitalismo para tomar as rédeas do processo histórico. O capitalismo não cairá de podre. Essa só será a crise definitiva do capitalismo se a classe trabalhadora e o povo esmagado por esse sistema se levantarem e travarem as batalhas necessárias à conquista do poder e da derrota dos seus inimigos.

A conjuntura exige a tomada de posições que desafiem o poder do Império. Lá, como aqui.

(*) Luiz Sérgio Canário  é militante DZ Pinheiros do PT-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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