Por José Antônio Leite

Há quem diga que a política é  como as nuvens no céu, a cada momento tem novos contornos, agora imaginem num mundo cercado de tecnologia e com a comunicação sedenta por novidades qual não é a velocidade com que as nuvens da política se movem.

Por isso mesmo se alguém quiser fazer uma análise ou mesmo simples comentário sobre um acontecimento na politica, que o faça de pronto, senão corre o risco de perder o “time” e ter sua opinião desconfigurada da realidade.

Fazendo esta ressalva, vamos falar um pouco do “tsunami” político a que o PT do Acre vem sendo submetido nas últimas eleições, em especial naquela que vivemos recentemente. Não vejo na política nada por acaso, tudo acontece na relação de causa e efeito, portanto debitar na conta de um fato ou de uma personalidade parece ser simplório e que não ajuda muito no encaminhamento das ações futuras.

Para comentar o nosso desempenho no processo eleitoral de 2020 penso que devemos voltar um pouco no tempo e se me permitem vou resgatar trechos de análise que fiz logo após termos conquistado  o quinto mandato consecutivo ao governo do estado e a reeleição da presidenta Dilma  em 2014.

Nele fizemos alertas das mensagens que as eleições  tinham nos transmitido e dos desafios que teríamos pela frente, não se tratava de adivinhação nem tão pouco uma visão pessimista, pois embora a política não seja uma ciência exata, ela guarda uma certa lógica que se deve ficar atento.

Comentávamos sobre os riscos de desgastes ao não sabermos interpretar as mensagens que tínhamos recebido naquela eleição das gestões políticas de nossos mandatos.

Sabemos que muitas vezes as vitórias escondem erros grosseiros e no futuro nos cobrará com juros, é possível ter acontecido exatamente isso nas eleições gerais de 2018 e com mais profundidade neste ano nas municipais.

O resultado daquela disputa nos conferiu uma situação  otimista quanto a nossa representação conseguindo  as reeleições da presidenta Dilma e do companheiro Tião Viana,  além de três vagas na Câmara Federal e cinco na Assembleia Legislativa.

Esta vitória escondia uma armadilha que ao meu ver não soubemos e não quisemos perceber e se tornaram avassaladoras com o golpe no impeachment  de Dilma e a prisão de Lula.

Embora vitoriosos, sugerimos reflexão mais aprofundada da eleição e dos desafios futuros.

“… Este longo processo de quatro mandatos consecutivos no comando político do estado do Acre, além de oferecer a oportunidade de avançarmos na construção do modelo político por nós idealizado,  também permite que façamos as correções dos equívocos que tenhamos cometido…

Sabemos que a manutenção do comando político, por vezes nos acomoda e pode causar a sensação de que somente nós temos a capacidade de entender e atender os anseios da população, e isto têm provocado alguns equívocos encobertos por sucessivas vitórias. Precisamos discutir mais e melhor o papel do partido e de suas lideranças,  tanto a nível local como nacional.

Embora tenhamos conseguido  vencer as últimas eleições,  percebe-se um sentimento de desconforto na maneira como tem sido tratados antigos companheiros que em algum momento estiveram dentro do projeto e que hoje reforçam os quadros da oposição ou se mantém ausentes dos debates e das construções políticas…”

E finalizando aquela análise, destacamos:

“Projeções para 2018 já começam a ser feitas e em todas elas o cenário é emblemático,  pois as grandes lideranças do partido como o governador Tião Viana e seu irmão o senador Jorge Viana são impedidos pela legislação eleitoral de concorrer ao governo do estado. Assim sendo, penso que precisamos identificar desde já os nomes que possam fazer a disputa, no mínimo,  em pé de igualdade com a oposição,  visto que ela saiu fortalecida ao apresentar nomes com grande densidade eleitoral.

Precisamos resgatar princípios do projeto que desejamos e incorporá-los em nossos governos, mais ainda rever a participação de falsos aliados e pseudo-lideranças que se encastelaram em nossas gestões,  nos fazendo justificar por equívocos que não precisavam acontecer e debitando a fatura em nossa conta.”

Em 2016 tivemos a reeleição do companheiro Marcos Alexandre, mas cometemos um erro grotesco, em minha opinião, de trazer na chapa como vice prefeita a professora  Socorro Nery de tradicional família política no estado e sem vínculos com o projeto da  Frente Popular do Acre. Isto nos preocupava, pois o nome que poderia estar na disputa ao governo do estado era justamente do prefeito eleito no primeiro turno, caso fosse este o desenho, como de fato ocorreu, entregaríamos o comando do executivo a vice prefeita.

Com nossa derrota ao governo do estado deixamos a única capital de estado que tínhamos conquistado na época.

A partir daí e com o péssimo desempenho  nas eleições gerais de 2018, quando perdemos o governo federal, o governo do estado e as representações no Senado e na Câmara Federal, vimos a professora Socorro Nery assumir efetivamente a gestão e fazer mudanças que desfiguraram o projeto da FPA reformulando sua equipe de trabalho e nos afastando da administração, tendo inclusive cooptado companheiros e militantes a se filiarem a outros partidos na formação de sua base de apoio.

Ao mesmo tempo que se afastou do PT,  fez aproximação com o governador do estado Gladson Cameli com quem caminhou na eleição  deste ano chegando ao segundo turno quando foi derrotada pelo candidato do Partido Progressista  Tião Bocalon.

Nesta eleição municipal não conseguimos avançar para o segundo turno como já dissemos, mas isto foi só uma parte da derrota, pois o nosso candidato, o deputado estadual Daniel Zen, ficou no modesto quinto lugar com pouco mais de 7000 votos,  além de não conseguirmos eleger nenhum vereador na próxima legislatura.

Podemos dizer que o futuro se apresenta preocupante quanto as nossas aspirações de retomar o comando politico no estado, embora tenhamos conseguido reeleger três prefeituras que já administrávamos e reconquistar outra  que havíamos perdido.

O fato é que são municípios com pouca densidade eleitoral e baixo potencial econômico,  dependendo muito de recursos e repasses do Estado e da União e das verbas parlamentares.

Neste ambiente com a saída de lideranças cooptados pelo partido da prefeita, PSB, e outras desiludidas com os caminhos que o PT traçou nos últimos tempos,  fica claro as dificuldades do partido em organizar suas bases. Junte-se a isso o fato de que no estado predomina a “economia do contra cheque” e assim a subsistência acaba por conduzir qualquer ideologia politica.

Vejo o momento do partido com muita preocupação,  não só pelo cenário desenhado, mas principalmente porque na campanha deste ano as “grandes lideranças” pouco ou quase nada se engajaram, talvez prevendo o resultado eleitoral e se preservando para os embates futuros.

Fato é  que o momento pede uma reorganização do partido com o que “sobrou” ou ainda com aqueles que alimentam o sonho de implantar um modelo socialista em nosso estado e no país.

Os desafios são grandes, mas por isso mesmo vejo a oportunidade de nos reencontrar com nossas identidades sem o inchaço que tem acometido o partido em suas filiações com pouca ideologia, cuja principal motivação era conseguir o comando nas direções que nos afastaram das causas que motivaram a criação do PT.

Será que…?

 Deixo algumas questões que penso precisam ser discutidas com mais profundidade, sob risco de continuarmos fantasiando as disputas eleitorais e nos tornarmos mais um partido destes muitos que criticávamos.

– Será  que devemos justificar os resultados das eleições municipais deste ano, apenas na conta do movimento  anti petista  em curso?

– Será que não temos cometido equívocos na condução da nossa agenda política, onde há algum tempo nos afastamos ou deixamos os movimentos sociais sem atenção especial, notadamente na formação de lideranças e na atualização de pautas que situam melhor o momento  político que vivemos?

– Será que nossa comunicação, há muito criticada, não está conseguindo dialogar com nossa base militante num cenário em que as novas mídias vem conduzindo o debate político,  exigindo linguagem e conteúdos mais adequados e atualizados.

– Será que o crescimento físico do partido sem o cuidado com a formação e organização não estão  comprometendo a fidelização de nossos filiados e militantes?

– Será que o processo eleitoral que elege nossos dirigentes não precisa ser repensado na lógica da organização interna do partido e na postura enquanto organismo ativo na politica, quer sejamos gestores ou não?

– Será  que nossa agenda tem se resumido ao calendário eleitoral e mesmo assim fazendo opções cada vez mais dissociadas das expectativas da sociedade, não sendo raros os casos de lideranças do nosso quadro que se abrigam em outras agremiações?

Espero podermos responder algumas destas questões e caminharmos com nossas utopias, mesmo que isso signifique apenas uma direção e um sentido.

(*) José Antônio Leite é militante petista


(*) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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