Por Luiz Sérgio Canário (*)

A águia americana é o animal nacional e símbolo dos Estados Unidos da América. Uma águia também já tinha sido símbolo de Roma, especialmente das legiões romanas. Ela é uma enorme ave de rapina, no topo da cadeia alimentar. A poderosa ave jamais emitiria um som parecido com o piu de um pintinho. A ave de fato não. Mas o poderoso país que ela é símbolo piou ontem, 06/01/2020. Essa data ficará marcada na história por mostrar que toda águia tem seu dia de pintinho.

O poderoso “irmão do norte” teve seu dia de república de bananas, como declararam vários de seus proeminentes políticos. Um dos maiores, senão o maior, símbolo da democracia deles foi invadido por uma turba raivosa. Além de várias bandeiras e faixas com frases e símbolos caros a direita, havia também gente fantasiada de viking e de outras coisas igualmente engraçadas. Mas para mostrar que tipo de turba era essa havia também gente com camisas pretas com Campo de Auschwitz escrito e outras falando que matar seis milhões, de judeus, pelo que se entende, foi pouco.

As cenas transmitidas pelas TVs e outros meios da invasão do templo da democracia são patéticas. Parlamentares correndo de um lado para o outro. Policiais apatetados, aparentemente sem saber o que fazer. Nada que lembrasse um país em que a segurança nacional é uma atividade tão importante que muitas vezes atropela o próprio governo. Aparentava ser ou uma completa falta de organização, digna mesmo de uma republiqueta de bananas ou algo tolerado. No dia da manifestação do Black Lives Matter, por exemplo, tropas de choque cercaram o prédio para que ninguém entrasse. E a turba de ontem entrou como se estivesse em uma visita guiada. Somente depois do quebra-quebra e da invasão dos plenários se viu que a coisa era séria. Mas aí já tinha um “cidadão de bem”, com chapéu de pele com enormes chifres e sem camisa, lembrando o cantor Jamiroquai, sentado na cadeira do presidente do senado. Parece piada, mas não é.

Essas cenas, no que possam proporcionar memes e cards engraçados, têm um alcance e um significado que não são nada cômicos. Podem estar representando um ponto de inflexão em todo um sistema de representação e de gestão da democracia em todo mundo. Trump e seus seguidores mostraram que as instituições, mesmo as “sólidas” instituições dos EUA, são incapazes de conter ações de uma nova forma da direita se expressar no cenário político em qualquer país. Trump e seu discípulo Bozo são exemplos disso. São lideranças que surgem por fora do perímetro da direita tradicional, com um enorme apelo populista e antissistema, sem nenhum respeito pelas instituições, que usaram essas instituições para chegar ao poder formal e que passam o tempo a golpeá-las usando suas turbas inflamadas. A democracia estadunidense tremeu quando viu na prática os acontecimentos no Capitólio. Não há mais ponto de retorno. A democracia burguesa, um conceito e uma prática sempre associados à dominação burguesa da sociedade, não consegue mais acomodar sem sobressaltos novas forma de atuação de frações dessa mesma burguesia. As sagradas instituições da burguesia estão sendo atacadas com violência não pelos revolucionários de esquerda, mas sim pela turba da extrema-direita.

Trump irá para por aí? Provavelmente não. Em virtude da má repercussão, e certamente porque a turba não atingiu a dimensão necessária, ele foi forçado a recuar. O establishment também não se moveu a seu favor. Mas não abandonou o discurso da fraude e que na realidade ele é o vencedor das eleições. Ele vai martelar esse mantra até o fim da sua vida. E que consequências isso terá ainda não se pode prever. Qual o tamanho real de Trump nos EUA? O quanto ele conseguirá se manter vivo no cenário não só de lá, mas do mundo? Seguidores cegos dele, como Bozo, estão espalhados pelo mundo.

Entre nós Bozo já deu a senha: em 2022 se não tiver voto impresso as coisas serão mais graves. Voltou a falar que a eleição de 2018 foi certamente fraudada pois ele ganhou no primeiro turno. Tal qual uma crônica de uma morte anunciada, ele já anunciou o que nos espera em 2022. Se não for pela falta do voto impresso será por qualquer outra razão: ele vai tentar melar as eleições para se manter no poder. Não precisa ser um grande analista da GloboNews para prever isso! O que acontecerá se ele tentar isso? Imprevisível. Se for favorecer os interesses de setores importantes da classe dominante ele faz. Se não for vai tentar, mas tem grandes chances de não conseguir. Isso mantidas as condições atuais em que o PT se junta ao que de pior temos na política na formação da mesa da Câmara dos Deputados e em tantos outros parlamentos Brasil a fora.

Não podemos ser joguete nas mãos das disputas entre a classe dominante. Nessa briga não temos lado. Temos que nos preparar e fortalecer nossos laços com a classe trabalhadora e com o povo. Se quisermos barrar as tentativas de Bozo, e de quem mais estiver associado a ele, precisamos mobilizar o povo. Essa será a única contenção para ele e para qualquer outra aventura tentada. A mobilização popular nos levará a ter força eleitoral para vencer as eleições em 2022 e garantir a posse e o governo a seguir. Sem isso corremos o risco de até ganhar as eleições, mas sucumbir a alguma forma de golpe dado por Bozo ou pela direita mais civilizada, como em 2016.

Mas para chegar em 2022 temos que passar por 2021. Um ano que não tem nenhum sinal que será bom para o povo. Será um ano provavelmente de aprofundamento da miséria, do desemprego e da destruição do Estado como promotor do desenvolvimento e gestor dos serviços voltados para a população. Por todas essas razões o cerco a Bozo deve ser um tema central. Trá-lo da presidência, a ele e a todos que o representam, é o caminho para que possamos ter um 2021 ao menos de início de recuperação e um 2022 sem tantas sombras no horizonte. E também de lutar pela recuperação dos direitos políticos de Lula, para que ele possa ser o nosso candidato em 2022, e com boas chances de ganhar.

FORA BOLSONARO, MOURÃO E TODA SUA QUADRILHA!

(*) Luiz Sérgio Canário é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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