Por Milton Pomar (*)

Xangai, na costa central da China, é a maior cidade do país, com mais de 26 milhões de habitantes

Texto publicado na edição de outubro do Jornal Página 13

Comandada há 72 anos pelo Partido Comunista, a economia chinesa chegou ao topo mundial em 2020, dados do Banco Mundial: o maior PIB pela paridade do poder de compra (PPP), US$24 trilhões; renda per capita (PPP) de US$17,3 mil (a renda per capita no mundo foi de US$17,1 mil, e a do Brasil US$14,8 mil). Para que se tenha noção do crescimento da economia chinesa nos anos 2000, o seu PIB (PPP) passou de US$4 trilhões em 2001 para US$24 trilhões em 2020.

O “Socialismo de Mercado” chinês, que incorporou na economia real mais de 800 milhões de pessoas pobres desde 1980, e acabou com a pobreza extrema no país em 2020, resultou também em 698 bilionários em 2020, com US$3 trilhões no total, aproximando-se assim dos EUA (724 bilionários, US$4,4 trilhões), segundo a revista Forbes (edição sobre ricos no mundo).

As megaempresas estatais e privadas chinesas seguem crescendo bem mais rápido que a média mundial, de acordo com estudo da revista Fortune (https://fortune.com/global500/2020/search): das 500 maiores empresas do mundo, 124 são da China, contra 121 dos Estados Unidos (EUA). A nº1 em vendas é dos EUA, mas a segunda, a terceira e a quarta maiores são chinesas. Na edição de 2012 da Fortune Global 500, havia 73 empresas chinesas e 138 dos EUA.

Segue crescendo 6% ao ano (o que para muitos analistas comprova que a economia chinesa está em desaceleração), mantendo pleno emprego graças à geração de 10 milhões de novos empregos por ano, proporcionando crescimento salarial e aumento contínuo do poder aquisitivo. Para conseguir isso, mantêm agressiva atuação comercial no mundo inteiro, o que a tornou maior parceiro comercial de mais de 100 países.

Com US$3,4 trilhões de reservas cambiais, o ex-país muito pobre dos anos 1950-70 é hoje o maior credor dos EUA, detendo quase 20% do total de Treasuries, as famosas letras do Tesouro norte-americano. Tanto capital permite ainda à China liderar os dois bancos de investimentos em infraestrutura da Ásia (AIIB) e do Brics (NDB) – em concorrência direta com instituições como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – e financiar investimentos produtivos e em infraestrutura em dezenas de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, principalmente da Ásia Central, para viabilizar o funcionamento do “Cinturão e Rota”, e da África, por razões estratégicas (suprimento mineral e de produtos agrícolas).

Realmente, por ter tanto dinheiro e o poder correspondente, a economia chinesa gera dúvidas e incomoda muita gente: domínio do 5G, criptomoedas, Internet, Made in China 2025, intervenção do Estado em jogadas especulativas na Bolsa de Valores, rejeição ao monopólio na Educação privada e em outros segmentos, manutenção de estatais em áreas estratégicas, mais regras em atividades que querem menos regras (“liberdade de mercado”), e inéditos grandes investimentos na modernização das Forças Armadas.

A China entrou em 2021 executando o seu 14º Plano Quinquenal, com diretrizes muito claras de desenvolvimento centrado na ciência, tecnologia e inovação, na continuidade dos investimentos em infraestrutura e em preservação ambiental, e em um esforço inédito de modernização rural e da produção agropecuária.

Atacado duramente pelos governos dos EUA, por causa do câmbio, do superávit na balança comercial, por não ser uma “economia de mercado” nos moldes neoliberais – e, apesar disso, por fazer parte com pleno direito da Organização Mundial do Comércio (OMC), desde dezembro de 2016 –, o “Império do Centro” continua maior exportador mundial, segundo maior importador, e maior comprador de produtos agropecuários do mundo (total de US$133 bilhões em 2019).

Desde o início das Reformas na economia da China, em 1980, a velocidade e as dimensões do processo geraram crescentes descompassos entre os vários setores, por mais que o Estado chinês planeje e monitore a execução do que foi planejado. Sempre em déficit em relação ao ritmo geral, o setor da Energia é um dos vilões do momento, porque por mais investimentos que receba é difícil aumentar a produção energética acima do consumo, e fazer isso substituindo fósseis por fontes renováveis, em um país no qual há mais de duas mil usinas termelétricas movidas a carvão (que segue dominando quase 60% da matriz energética chinesa, polui muito, consome água para ser utilizado, e acabará em 30 anos no máximo).

Causa e efeito do crescimento espantoso da economia chinesa, a migração rural para as grandes cidades veio para ficar, e deverá continuar assim nos próximos 30 anos pelo menos, quando se espera que 300 milhões de habitantes da área rural se somem aos mais de 500 milhões que já percorreram esse caminho e hoje lotam as cidades, mantendo altíssima a demanda por imóveis para vender e alugar. Dinheiro sobrante e demanda muito maior do que a oferta de imóveis, levaram a classe média chinesa a investir em imóveis nos últimos dez anos, cada vez mais. Ainda que com diferenças significativas em relação ao “subprime” norte-americano (que só aconteceu graças ao “liberou geral” do governo Reagan), também na China a corrida imobiliária gerou uma “bolha” no setor – combatida inicialmente com restrições à compra de um segundo imóvel por família (o discurso era que imóvel era para morar, não para especular), que logo foram burladas graças ao “jeitinho chinês” (até divórcios para que os “ex” pudessem ter cada um o seu imóvel…) para contornar restrições governamentais.

Risco de megaempresas falirem por fraudes sempre há, e os EUA têm vários exemplos dessa prática nos anos 2000. Talvez por isso o susto da mídia ocidental com a possibilidade de um “Lehman Brothers” chinês no caso Evergrande. Sobre essa possibilidade é sempre bom lembrar a campanha de propaganda da mídia norte-americana (principalmente) contra o setor financeiro chinês nos últimos 20 anos, com o argumento de que ele estava cheio de “créditos podres” e que quebraria mais cedo ou mais tarde – fato que realmente ocorreu, mas nos EUA, em 2008.

Enquanto os neoliberais, os capitalistas ocidentais e suas mídias se apavoram com os riscos do caso Evergrande causar nova crise financeira mundial, é a crise do Mundo do Trabalho que mais preocupa os chineses nesse momento: os resultados do Censo 2020 revelaram a extensão e a urgência dos problemas demográficos na China, principalmente a redução na População em Idade Ativa (PIA, de 15 a 64 anos de idade), em decorrência da queda abrupta da Taxa de Fecundidade e do enorme aumento da quantidade de pessoas com mais de 60 anos de idade.

Não há dúvida do “Socialismo de Mercado” vigente na economia chinesa ter sido capaz de acabar com a pobreza e a fome (de total de pessoas equivalente a quatro vezes a população brasileira), através de políticas públicas na contramão da lógica neoliberal – principalmente via investimentos do Estado em infraestrutura, educação e em industrialização. Mas há dúvidas se o sucesso do desenvolvimento econômico ocorrido no país, principalmente nos anos 2000, se deva ao “Socialismo de Mercado”, e não ao “Capitalismo de Estado”, ou puramente ao sistema capitalista (ao qual a China teria se entregue há tempos…).

Chega a ser patética essa insistência em se colocar um título na economia chinesa, como se um nome, por mais adequado que pareça ao seu criador, possa dirimir as dúvidas existentes a respeito da situação e, principalmente, do que deverá ocorrer na China nos próximos anos – se será mais capitalista e menos socialista ou o contrário.

A única certeza definitiva que se tem hoje é a dependência da China pela maioria dos países, seja do seu transporte marítimo (containers e navios), de suprimentos essenciais que ela produz, como é o caso do circuito integrado, no qual é o maior do mundo (US$143,4 bilhões em 2020), ou da área de saúde, evidenciada na pandemia.

(*) Milton Pomar é professor, geógrafo e mestre em Políticas Públicas.

 

 

 

 

 

 

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