Por Mateus Santos (*)

2020 já começou com bastante agitação no noticiário político nacional. Em ano de eleições municipais, incorporando mudanças na legislação eleitoral e, mais importante, com as expectativas de manutenção da polarização política que marca o país, os partidos políticos se movimentam em suas bases, mas também costurando alianças políticas que poderão reverberar em acordos futuros. Dentre os atores em ação, encontramos o PDT e Ciro Gomes. Terceiro-lugar nas últimas eleições presidenciais, o cearense vem construindo seu caminho para uma nova tentativa em 2022, a quarta de sua trajetória política.

As últimas notícias do mundo político dão conta das aproximações de Gomes e do PDT com o Democratas (DEM) em algumas capitais nordestinas. Após diálogos entre o ex-ministro e presidente da sigla ex-PFL, ACM Neto, os dois partidos poderão caminhar lado a lado em Salvador, Fortaleza e São Luís. Tal movimentação chega a surpreender? Sim e não. Este é um desafio analítico a ser encarado brevemente por este texto.

A aparente nova estratégia traçada pela liderança do PDT deve ser olhada sob um ponto de vista histórico que contemple um passado mais recente e um passeio por sua trajetória um pouco mais remota. Ciro não esconde de ninguém o seu interesse em ser presidente do Brasil. Além de suas duas tentativas em 1998 e 2002, o mesmo ensaiou candidaturas em outros contextos, 1994 e 2010, mas que não tiveram sucesso diante da inclinação de seus partidos por outros nomes.

Já em 2002, enquanto candidato pelo PPS, Ciro Gomes apoiou Lula no segundo-turno presidencial. Com a eleição do petista, o cearense ocupou o Ministério da Integração Nacional durante o primeiro mandato. Mais do que ocupar um cargo de grande relevo, Ciro fez parte de um movimento político bastante complexo no Nordeste. Conforme aponta André Singer, o lulismo foi (e ainda é) um dos maiores fenômenos da política nacional mais recente, com grande força no Nordeste. O sucesso dos programas de transferência de renda, medidas de aumento do poder aquisitivo (13º dos aposentados e políticas de crédito) e a ampliação do consumo possibilitaram a formação de um bloco de apoio ao então presidente, sustentado especialmente pelo voto dos mais pobres, aqueles diretamente beneficiados com as novas políticas. Contudo, este fenômeno também incorporou novos atores. Entre eles, lideranças já enraizadas nas políticas estaduais ou mesmo no cenário nacional. Dentre os nomes a serem destacados, encontram-se Eduardo Campos, a própria família Sarney e, é claro Ciro Gomes. Por apadrinhamento político ou não, estes e outros nomes reforçaram seus lugares na política nordestina, tanto pelas suas trajetórias mais antigas, mas também por este alinhamento nacional. Voltando ao caso do cearense, ao olharmos as eleições para governo do Estado, o apoio de Lula foi peça importante para as vitórias de Cid Gomes (2006 e 2010) e Camilo Santana (este do PT, em 2014), todos também apoiados por Ciro.

A expressão de Ciro no interior do Lulismo também ganha força ao olharmos o que aconteceu entre 2012 e 2013. Sua saída do PSB, bastante polêmica, teve como um dos principais fatores o rompimento de Eduardo Campos com Dilma e o anúncio de sua pré-candidatura à presidente. Naquela ocasião, Ciro e a ala que o apoiava no interior do partido defendiam a reeleição de Dilma. Derrotado entre os socialistas, Gomes se encaminhou para o PROS, apoiando Rousseff em 2014.

Por este breve histórico, a conclusão que se poderia chegar em relação ao questionamento colocado sobre as movimentações atuais poderia ser de surpresa. Como alguém que caminhou lado a lado com Lula e Dilma durante mais de 10 anos poderia agora estar com uma das maiores legendas de oposição naquele tempo? Mas, de 2014 para cá, a trajetória continuou e continua, sendo bastante esclarecedora, não só para a compreensão desse novo posicionamento de Ciro, mas também sobre os limites do Lulismo entre as tradicionais lideranças nordestinas.

Ao contrário de outros nomes que um dia fizeram parte da base de Lula e Dilma, Ciro não apoiou o golpe contra Dilma. Ao se lançar como pré-candidato à presidência já em 2016, seu movimento foi, em primeiro lugar, de apresentar-se como uma possível alternativa aos setores de oposição ao governo Temer. Colocando-se contra o então presidente, contra a operação Lava-Jato e em favor do que considerava como a retomada do crescimento, Gomes se credenciava para talvez ser um herdeiro do lulismo. Houve quem dissesse que uma aliança entre PDT e PT para as eleições de 2018, com Ciro à frente, fosse algo muito provável. Elemento que ganhou alguma força após a injusta prisão de Lula.

Contudo, com o lançamento da candidatura do ex-presidente e a manutenção do nome de Ciro pelo PDT, uma nova estratégia foi colocada em curso. Gomes acenou para setores de centro, parte da base do governo Temer, na expectativa de costurar uma suposta terceira-via política. Naquela conjuntura, até mesmo aquele que hoje parece ser seu aliado, o DEM, foi procurado. Esforços sem sucesso. Boa parte das legendas se enveredaram para a candidatura Alckmin e, posteriormente, Bolsonaro. Coube a Ciro tentar encontrar o seu lugar em meio ao pleito com o maior número de candidatos da história recente das eleições brasileiras. Com a interdição do nome de Lula, um último aceno: a possibilidade de garantir a transferência dos votos do ex-presidente, então líder nas pesquisas, para sua candidatura. Boa parte dos levantamentos feitos naquela época demonstravam o insucesso deste movimento. Fernando Haddad pouco a pouco foi absorvendo boa parte das intenções de voto de Lula, ultrapassando Ciro na corrida.

Para quem se recorda dos últimos debates eleitorais, a última cartada de Gomes foi, sem dúvida nenhuma, um suspiro ao lulismo com flerte ao antipetismo. Por um lado, valorizava sua passagem enquanto ministro do governo do ex-presidente, por outro buscava desidratar Haddad com declarações sobre corrupção, alianças políticas e outros elementos. Numa verdadeira crise de identidade, a candidatura do PDT não vingou, seja entre as lideranças políticas regionais, seja entre os mais diversos setores do eleitorado brasileiro.

E o pós-eleição? Este é mais conhecido por todos nós. Ida à Paris, declaração de apoio crítico, polêmicas em torno de um discurso de seu irmão num palanque petista e acusações sobre traição e etc…O que se pode considerar hoje como uma nova estratégia, a aproximação com o DEM, em verdade, representa uma continuidade de uma liderança buscando o seu lugar político em meio à polarização. Na busca por construir um centro de apoio, Gomes busca setores que também se encontram à procura de outros lugares na política, como uma garantia de sobrevivência. Os DEMistas, partido com o maior número de indicações ao governo Bolsonaro, hoje enxergam-se em contradição. Como apoiar um governo sem ser parte integral dele? O receio de que o desgaste do Governo Bolsonaro, especialmente no Nordeste, atinja redutos eleitorais históricos, hoje faz com que o partido de Rodrigo Maia também busque novas costuras, sem necessariamente abandonar o atual presidente e sua agenda econômica.

O casamento entre PDT e DEM é ainda uma incógnita política. Do ponto de vista eleitoral, poderá gerar algum saldo em determinadas capitais, mas não é nenhuma garantia para cenários futuros. Ao contrário, poderá culminar com a perda de apoio político em Estados do Nordeste, especialmente diante da vinculação do Democratas ao governo Bolsonaro. Na sua incessante busca de acordos nacionais, Gomes poderá sacrificar setores de seu próprio eleitorado no Ceará ou em outras partes do Nordeste.

Essa reflexão, porém, precisa ir um pouco mais além do que vem fazendo o cearense. Mesmo após o golpe de 2016, o PT voltou a costurar alianças com aqueles setores da política regional que um dia o apoiaram, mas que, no contexto do rompimento democrático, optaram por estar ao lado de Temer e aliados. Em quase todos os Estados nordestinos, essa foi a regra. O Lulismo do “alto”, isto é, também possuiu seu prazo de validade. Seja pelo receio do antipetismo ou por projetos individuais, muitos daqueles que um dia foram chamados de “aliados” hoje são indiferentes ou mesmo inimigos no cenário político, pois estão ao lado daqueles que abertamente apregoam a violência ou a derrota nossa.

Para um verdadeiro Nordeste de Resistência, conforme se afirmou a partir do final das eleições de 2018, é preciso discutir também o Nordeste de conciliação. Em vários Estados, muitas lideranças locais ganharam alguma sobrevida política graças ao legado de Lula e Dilma colocado à prova na disputa presidencial. Contudo, tais nomes não se traduziram em base de enfrentamento ao golpe e ao novo governo, pois fazem um jogo camaleão, isto é, atuam conforme seus interesses, de forma bastante contraditória, em nível estadual e nacional. Mais uma vez, o PT é chamado a reconstruir seus projetos políticos em estados que ainda possui um apoio bastante significativo. Qualquer projeto novo de país, passa pelo fortalecimento e formação de lideranças com conteúdo político-programático bastante claro.

(*) Mateus Santos é militante da JAE- BA e Executiva JPT – BA

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