Por Luiz Sérgio Canário (*)

Imediatamente após a vitória de Dilma nas eleições de 2014 a burguesia brasileira começou a deixar claro que não aceitaria mais 4 anos de PT e que passaria por cima de tudo para isso. Primeiro contestou o resultado. E daí para o golpe foram poucos meses. As justificativas “legais” para o impeachment eram ilegais e a justificativa política insustentável, falsa e mentirosa. A justificativa para o povo era de que o país não suportaria mais um governo petista e que a recessão se aprofundaria. E que bastava afastar o PT do governo que como em um passe de mágica todos os nossos problemas estariam resolvidos. Que o mundo veria o Brasil como um paraíso para investimentos e que isso nos inundaria de dólares e de oportunidades.

Como somos todos testemunhas, as condições de vida e de sobrevivência das classes populares estão se deteriorando vertiginosamente. Desde e o golpe salvador não parou de piorar. E já se foram quatro anos. O golpe trouxe no seu bojo as pesadas reformas neoliberais que foram retirando direitos adquiridos pela classe trabalhadora em décadas de luta. Primeiro no “governo” de Temer e aprofundando fortemente com Bozo e Guedes, o “chicago boy” remanescente. Ao lado disso cortes absurdos nos vários serviços públicos, que atendem a expressiva parcela do povo, que dependem deles para viver.

Serviços fortemente protegidos pela constituição de 1988, saúde e educação, foram sendo desidratados, em acordo com os empresários desses setores, de olho em expandir seus negócios. Vales creche na educação, OSs na saúde, a proposta de capitalização da previdência, são sinais dos rumos que a burguesia brasileira quer empurrar o estado. O rumo de um teórico estado mínimo, como reza a cartilha neoliberal, associado a uma burguesia inepta e parasitária, que ao mesmo tempo que diz querer reduzir a presença do estado nos seus “negócios”, não vive sem um subsídio, um empréstimo camarada, a sonegação mais vil e suporte permanente do dinheiro público. Um estado mínimo para uns, o povo, mas generoso com outros, a burguesia.

A boiada ia passando com seus passos de destruição quando no final de 2019 começaram a vir a público as primeiras notícias sobre o famoso vírus SARS Cov-19. Em menos de três meses estávamos no meio de uma das maiores pandemias da história. O vírus se espalha rapidamente, exigindo dos governos ações rápidas. A China, ponto inicial da pandemia, age rapidamente e em pouco tempo controla a situação. Os países do centro do capitalismo passam por enorme impacto, mas vão conseguindo controlar a expansão da primeira onda de espalhamento do vírus. Exceto nos EUA, em que Trump minimizando o impacto, faz pouco caso do estrago que o vírus estava causando. Hoje lidera a corrida macabra de infecções e mortes.

Entre nós, na disputa neoliberal entre a vida e o capital, prevalece o capital. E da forma mais bruta possível. O governo se recusa a admitir a seriedade da pandemia, até nega sua existência e perigo, e decide seguir na trilha do maior rigor fiscal, sem se mover para contribuir com a sobrevivência do povo. A pandemia avança, os governadores e prefeitos tomam as medidas que acham necessárias, sem nenhuma coordenação e com pouco apoio do governo central. A pandemia explode no país. E aí o governo resolve se mexer, com um auxílio emergencial que não queria e com poucas ações para equilibrar a economia.

Com o passar do tempo o negacionismo de Bozo e de seus seguidores aprofundam o descaso com que o governo federal trata a situação. O terceiro ministro da saúde é um militar inepto e burro, que mal consegue falar, e quando fala é para afirmar que tem que obedecer ao chefe e para aconselhar a tomar cloroquina, com centenas de pessoas morrendo em Manaus. O caos toma conta da gestão da saúde e ultrapassamos 200.000 mortos.

Teto de gastos, cortes no financiamento do SUS, fim do auxílio emergencial, reformas que extinguem direitos, alguns fundamentais, a politização da vacinação, a falta de vacinas, o isolamento internacional do Brasil, o aperto fiscal, a crise econômica e o desemprego estratosférico, tudo junto e misturado, resultam em um desastre humanitário. Que não é acidental. É fruto de uma política, de uma visão de mundo e das necessidades de sobrevivência das pessoas, é deliberado. Bozo e sua turma conduzem uma política genocida. Como um deles falou, morrer as pessoas mais velhas na pandemia é bom porque tira pressão da previdência. São mais de 200.000 brasileiros com morte por covid registradas. Fora os que estão morrendo nos pontos mais afastados sem qualquer assistência médica. A esses devem ser acrescentados os que já morreram por doenças provocadas pela fome e pelas péssimas condições de vida. O desemprego, a falta de vacinas e do auxílio emergencial ainda vão matar muitos de nós.

Por definição, genocídio é: “extermínio deliberado, parcial ou total, de uma população, de um povo, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso”. Apesar de não ser uma ação decidida em uma reunião ministerial, como o extermínio dos judeus pelos nazistas, as decisões políticas tomadas por esse governo claramente estão exterminando partes da nossa população. Especialmente a parte pobre e preta. Não há um conteúdo racista ou dirigido especialmente para algum grupo. É dirigida por uma visão neoliberal da sobrevivência dos mais aptos e capazes, uma espécie de “seleção natural” abjeta. E a base da pirâmide social é a mais atingida. E ele é formada majoritariamente por pretos e pobres. As experiências neoliberais radicais, como é do gosto de Guedes e dos seus asseclas, deixam um rastro de mortes, como a dos aposentados no Chile que se mataram por falta de condições sobreviver com suas aposentadorias miseráveis.

Taxar esse governo de genocida não é só uma figura de linguagem. O uso de um termo pesado para ter efeitos de propaganda. Se o neoliberalismo, que já vinha sendo a política dos governos depois do golpe de 2016, mata por entregar o povo à própria sorte, sem políticas públicas que os ampare, o governo de Bozo, que agregou ao neoliberalismo a crueldade do negacionismo de tudo aquilo que diz respeito a preservação da vida e que faz disso o fio condutor que o conecta com sua base social, pode sim ser caracterizado de genocida. Não é somente a condução da economia e da gestão do estado com uma visão neoliberal. É a completa indiferença de um governante e de seu governo com dezenas de milhares de mortos resultantes da combinação do neoliberalismo com o bolsonarismo. E o completo descaso com a vida dos que estão vivos.

O impeachment de Bolsonaro e o impedimento de Mourão assumir a presidência são imperativos para a preservação da vida do povo brasileiro!

IMPEACHMENT JÁ!

(*) Luiz Sérgio Canário (*) é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Deixe uma resposta