Por Valter Pomar (*)

Waguinho e Flávio Bolsonaro

O PT já governou Belford Roxo.

O PCdoB já governou Belford Roxo.

As candidaturas presidenciais petistas eram campeãs de voto em Belford Roxo.

Aí veio o anus terribilis de 2016.

E o PT resolveu não lançar candidatura própria à prefeitura de Belford Roxo.

O PT decidiu apoiar Waguinho.

Aí veio 2018. E o PT foi mal nas eleições presidenciais em Belford Roxo.

Mas mesmo assim, em 2020 a maioria do Diretório Municipal local decidiu apoiar a reeleição de Waguinho.

Argumentos?

“Já fazemos parte do governo”, “priorizar a eleição de vereadores”, “troca de apoios passados, presentes e futuros” etc.

O Diretório do PT do Rio, por maioria, manteve o apoio a Waguinho.

O mesmo ocorreu na Câmara de Recursos e na Executiva nacional do PT.

Como a mentira tem perna curta, no dia 3 de agosto Waguinho se derramou em elogios públicos a Bolsonaro, ao seu clã e ao seu governo.

Mas mesmo assim, o Diretório Nacional do PT, reunido 4 dias depois, chancelou (com 29 votos favoráveis) o apoio.

Desta vez, contudo, um limite político havia sido ultrapassado.

Afinal, qualquer defensor sério de alianças sabe que, para o PT, aliança com bolsonarista não é aliança, é contrassenso.

E de todo lado vieram reclamações e protestos, inclusive de 6 ex-presidentes nacionais do PT.

Mas não foi o suficiente.

No dia 17 de agosto, o Diretório Nacional do PT decidiu (com 40 votos favoráveis e 36 contra, mais 1 abstenção, segundo informou a mesa diretora) que não reabriria o debate a respeito.

Na falta de argumentos para reafirmar o mérito, optaram por um subterfúgio: “matéria votada é matéria vencida”.

Ou seja: votaram contra reabrir a discussão sobre o assunto.

Mas subterfúgio é subterfúgio, não importa como seja apresentado.

Dos 94 integrantes do Diretório Naconal, 54 não se comprometeram com esta decisão.

Ou não compareceram na reunião; ou compareceram, mas não votaram; ou votaram a favor de reabrir a discussão.

Dentre os que compareceram, mas não votaram, três explicaram os motivos: o senador Humberto Costa estava numa consulta médica, mas deixou claro que era contra a aliança; Cida Lopes e Mariana Janeiro tiveram problemas de conexão, mas também deixaram claro ser contra a aliança.

Somados estes três nomes, aos 36 que votaram contra, a votação poderia ter sido 39 a 40.

Vale informar que a companheira Gleisi Hoffmann não votou a favor, não votou contra e não se absteve.

Vale informar, também, que o companheiro Lula não se manifestou formalmente a respeito e tampouco estava na sala, no momento da votação.

O que vai ocorrer agora?

Não sabemos.

Pode haver alguma reviravolta surpreendente (vai que Bolsonaro acha indigesta a companhia do PT…)?

Pode, até porque o Waguinho é, segundo os que o defendem, um malandro.

Não sabemos, mas uma coisa é certa: esta decisão revela que uma perigosa fronteira foi cruzada.

Quando se está na ofensiva, cometer erros é um problema menor.

Mas quando se está na defensiva, cometer erros pode ser fatal.

Ou, como disse um ex-presidente nacional do PT, a respeito do episódio: sic transit [gloria] mundi.

*

As listas abaixo foram confeccionadas a partir da leitura dos votos, feita pela mesa diretora da reunião. Portanto não é uma lista oficial e pode conter imprecisões.

Quem votou contra a aliança com o bolsonarista de Belford Roxo: Misa Boito, Joaquim Soriano, Cicero, Eric Moura, Valter Pomar, Misiara, Natalia Sena, Patrick Araújo, Camila Moreno, Rosane, Júlio Quadros, Sheila, Elen, Jandyra, Paulo Teixeira, Marcos Sokol, Eutalia, Rosário, Rui Falcão, Gil Kairos, Raul Pont, Luna Zaratini, Renato Simões, Antonio Carlos, Tiytta Ferreira, Rose Rodrigues, Luis Eduardo Greenhalgh, Sérgio Silva, Moara, Penha Lopes, Lucinha, Luana, Ricardo Ferro, Demétrio, Juliana Cardoso, Edjane. E, como explicamos anteriormente, manifestaram explicitamente que eram contra a aliança: Cida, Mariana e Humberto.

Quem se absteve: Luis Henrique, do Maranhão.

Quem, em nossa opinião, na prática votou a favor da aliança com o bolsonarista de Belford Roxo: Romenio, Ze Geraldo, Sonia Braga, Quaquá, Luiz Caetano, Karine, Ideli, Janaina, Katia, Sibá, Enio, Regina, Cantalice, Juarez, Everaldo, Micaela, Isabel, Nunes Silva, Casula, Ludmila, Fatima Cleide, Odair Cunha, Patrícia Melo, Anne, Gleide, Magno, Rodrigo Soares, Monica Valente, Rennan, Quarenta, Sara Prado, Mariana Rodrigues, Lais Almeida, Teresa Leitão, Martvs Chagas, Zé Inácio, Saulo, Juvandia, Dulci, Wagner Freitas, Paulo Cayres.

(*) Valter Pomar é professor da UFABC e membro do Diretório Nacional do PT

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