Por Leidiano Farias*

 

Na perspectiva dos interesses históricos da classe trabalhadora uma frente é um instrumento político-organizativo fundamental para garantir unidade das forças populares tanto em momentos de defensiva estratégica, quanto em situações que possibilitam a retomada da ofensiva sobre os inimigos do povo.

A formação de frentes políticas de caráter democrático, nacional e popular é determinada por condições históricas específicas como se constata em diversos processos revolucionários ao longo do século XX.  Quais foram, então, as contradições que favoreceram a construção da Frente Brasil Popular a partir de setembro de 2015?

A convergência de três contradições fez surgir uma nova situação política no país que rompeu o pacto neodesenvolvimentista e abriu caminho para o avanço da escada golpista, resultando no impeachment sem crime de responsabilidade sofrido pela presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2016. São elas: os impactos da crise econômica sobre o Brasil, a ausência de um projeto político sob a hegemonia da classe trabalhadora que dirigisse os governos Lula e Dilma e os erros de condução na política econômica no segundo governo Dilma.

O golpe expressou a derrota de uma estratégia que buscava melhorar a vida do povo brasileiro sem efetivar as reformas estruturais e sem a construção de uma força social de massas que garantisse a hegemonia da classe trabalhadora. A ausência de uma estratégia de conquista do poder político e adesão a um certo republicanismo ingênuo que subestimou o caráter de classe do Estado foram determinantes para a viabilidade do golpe.

É neste contexto de derrota estratégica da esquerda brasileira e avanço do programa de restauração neoliberal que surge a Frente Brasil Popular. Esta iniciativa político-organizativa protagonizou os principais momentos de resistência ao golpe e reúne o que existe de melhor da vanguarda do campo democrático e popular. Um espaço dinamizado pelo movimento popular, partidos políticos, intelectuais (dentre outros) e que está contribuindo para a reoxigenação da esquerda brasileira.

A II Conferência Nacional da Frente Brasil Popular ocorre num momento de avanço da restauração neoliberal caracterizada por uma política de desmonte do estado brasileiro sem precedentes. O objetivo dos golpistas é realinhar o Brasil aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos, recuperar as taxas de lucro dos capitalistas acabando com direitos históricos dos trabalhadores e apropriar-se de recursos naturais como é o caso do petróleo da camada pré-sal. Por isso, seguem a todo vapor as políticas privatistas na Petrobrás e Eletrobrás. As reformas neoliberais avançam no Congresso Nacional e o governo golpista de Michel Temer corta drasticamente o orçamento para as áreas sociais.

Diante desta situação, onde os inimigos avançam sobre as conquistas históricas da classe trabalhadora, cabe à Frente Brasil Popular organizar uma eficiente defensiva estratégica que, por um lado, tenha como eixo central a defesa da soberania nacional e o restabelecimento da democracia.    Para isso, é fundamental a eleição de um governo democrático e popular em 2018 que amparado no movimento de massas convoque uma Assembleia Nacional Constituinte que revogue as medidas golpistas e lance as bases de uma nova institucionalidade para o Estado brasileiro que permita avançar na construção de um projeto nacional. Neste sentido, a Frente Brasil Popular defender o direito de Lula ser candidato é defender a democracia e um passo importante para derrotar o golpe.

Por outro, a Frente Brasil Popular deve contribuir para reconstruir uma estratégia de poder para a esquerda brasileira, assim como para recolocar na agenda a necessidade de um projeto popular pautado na defesa do desenvolvimento nacional e em reformas estruturais que objetivem resolver os problemas fundamentais do povo brasileiro.

Para que a Frente Brasil Popular consiga avançar na concretização destas tarefas é fundamental enfrentarmos três desafios: retomar o movimento de massas, multiplicar seus comitês em todo o território nacional e dotá-la de um programa. O programa de emergência está sendo um importante ponto de partida para fazer o trabalho de base, debater os problemas nacionais com o povo e acumular para a construção de um projeto nacional.

Além disso, é importante colocar na agenda da Frente Brasil Popular a possibilidade de permitirmos o ingresso individual de militantes como forma de atrair milhares de lutadores para a luta popular. Acrescente-se ainda o desafio de aperfeiçoarmos os métodos de decisão, superando as formas decisórias pautadas exclusivamente no consenso.

Neste momento, a unidade em torno da Frente Brasil Popular é uma necessidade histórica. Reunir amplos setores que têm contradições com o golpe é uma tarefa urgente. Ela será consolidada no processo de ampliação da luta popular, na construção de convergências no debate estratégico e no fortalecimento da confiança política entre as organizações que a constroem. Não se trata de substituir o papel dos partidos políticos e dos movimentos populares. Pelo contrário, o fortalecimento dos partidos e movimentos populares é fundamental para o êxito e a vitória da Frente Brasil Popular.

 

* Leidiano Farias é dirigente nacional da Consulta Popular

 

Fonte: Página 13 n. 174, dez. 2017

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