Por José Sergio Gabrielli de Azevedo (*)

Passadas as eleições, é tempo de balanço. A análise dos resultados pode ter vários objetivos, mas para um partido político deve servir principalmente para identificar erros e acertos, corrigir rumos e preparar novas estratégias e táticas para o futuro.

Nessas eleições municipais, algumas características próprias precisam ser destacadas em qualquer avaliação: realizadas sob uma pandemia, sem possibilidades de amplos contatos corpo a corpo, pela primeira vez sem coligações para eleições proporcionais, sob o governo extremista de Bolsonaro, seguido do golpe institucional que foi o impeachment contra a presidente Dilma.

Outras especificidades são: governos no Sudeste renovados; governos no Nordeste em segundo mandato; auxílio emergencial com impactos diferenciados entre as regiões; assim como as possibilidades de trabalho remoto. A economia patina, mas a situação do mercado de trabalho é diferenciada em cada região, com o Nordeste e Norte com menos isolamento social do que nos grandes centros do Sul e Sudeste do país.

Mas, talvez o mais grave é que essas eleições ocorreram em um momento de profunda deterioração das condições econômicas, com desemprego crescente; desestruturação do mercado de trabalho, com aumento dos postos de trabalho mais precarizados; redução das atividades econômicas, sem perspectivas de retomada de crescimento no curto prazo e com ameaça de retorno da inflação, especialmente dos alimentos, que afeta de forma particular mais fortemente o orçamento das famílias mais pobres. O ano de 2021, o primeiro do mandato dos novos governantes municipais, deve ser uma tragédia social com dificuldades fiscais imensas.

Nessas circunstâncias, as urnas mandaram algumas mensagens. Os governadores do Nordeste, com exceção de Camilo no Ceará, vivem mudanças na sua base social com os partidos de sua sustentação caminhando mais para a direita; com amplo fortalecimento das prefeituras controladas pelo PP, PSD e até MDB; ao mesmo tempo em que diminuíam as prefeituras governadas pelo PT e PC do B. PSB e PDT se fortalecem, especialmente o PDT, que ganhou no segundo turno as eleições de Fortaleza e Aracaju.

O governador Rui Costa (PT) vai ter mais dificuldades na composição de forças para as eleições de governador em 2022 com uma candidatura do PT, com o fortalecimento de seus aliados PSD e PP ao mesmo tempo em que sofre as derrotas de Feira de Santana e Vitória da Conquista para o MDB, aliado do DEM estadual. Evidentemente que a votação de 2020 nessas cidades foi melhor do que em 2016, mas ao fim do dia, os candidatos do PT foram derrotados.

ACM Neto, presidente do DEM, ganhou as eleições de Salvador e sai também politicamente mais fortalecido, com o PT aumentando o número de vereadores mas tendo importantes derrotas como em Cruz das Almas, Serrinha, Juazeiro e Senhor do Bomfim, diminuindo o número de prefeituras sob seu comando.

Flavio Dino, governador do PC do B do Maranhão, também vê uma fragmentação de sua base de sustentação com derrotas importantes de seus candidatos em várias cidades do estado e fortalecimento dos partidos mais conservadores.

Observamos um movimento em direção aos partidos da direita tradicional, retornando depois da grande derrota que tiveram para a extrema direita em 2018, onde o chamado candidato “não político” ocupou espaços numa posição anti-política. Agora os profissionais da política tradicional retomaram seus lugares, ganhando a maior parte das prefeituras, não só no Nordeste, mas no Brasil inteiro.

Em São Paulo, o PSDB se concentrou, diminuindo no resto do país, mas consolidando seu controle sobre importantes cidades paulistas. DEM e PSDB devem intensificar seus contatos, tanto em torno da sucessão do governo de SP, como relativamente à eleição da Mesa da Câmara de deputados em fevereiro de 2021, em preparação para as eleições presidenciais de 2022. Doria, Rodrigo Maia, Alcolumbre e ACM Neto devem se encontrar mais nessa nova conjuntura. O PSD e o PP vão querer se aproximar.

Mas há dificuldades no âmbito de Bolsonaro e seus apoiadores. Grande derrotado nas eleições, elegendo poucos dos seus candidatos, Bolsonaro sequer tem um partido para chamar de seu, ficando à mercê do posicionamento dos seus apoiadores de extrema direita, organizados em torno do PSL, Republicanos, Patriota, PRTB e outras siglas menores. Não será fácil a composição dessa aliança da extrema direita mais ideologizada com o pragmatismo dos profissionais do Centrão, partidos que dão a sustentação parlamentar indispensável para a condução do governo Bolsonaro.

Papeis importantes serão desempenhados pelo PDT e PSB, que ou podem se associar à direita tradicional ou se aproximar de uma composição mais progressista, com o PT, PC do B e PSOL. Ambos, PDT e PSB, deram sinais de preferência pela centro direita nessas eleições.

PC do B e PSOL, com o destaque das lideranças jovens de Boulos e Manuela, serão parte integrante do centro das articulações em 2021, com vistas a 2022. Os dois partidos vivem sob a ameaça da cláusula de barreira e as eleições de deputados ocorrerão também sem coligações proporcionais. Na busca de sua sobrevivência, as pressões para participação com candidatos próprios aumentam, dificultando a possibilidade de uma frente de esquerdas para as próximas eleições.

As eleições deixam sequelas importantes no relacionamento do PT-PSB, com a baixaria da campanha de Recife e também com o PDT, devido aos seus vários apoios ao DEM em diversos estados, além dos impropérios de Ciro contra Lula. As conversas, no entanto, devem continuar.

Um dos problemas dessas eleições foi a incapacidade de constituição de frentes mais progressistas para disputar com melhores condições em muitas cidades. Não conseguimos também polarizar as eleições com temas nacionais, incluindo a responsabilização de Bolsonaro por muitas das vidas perdidas com o Covid-19, pela irresponsabilidade de sua política de prevenção. Também não conseguimos introduzir na pauta eleitoral as imensas dificuldades do nosso povo com o desastre econômico e falta de perspectivas de retomada do crescimento e redução das desigualdades.

As urnas também mostraram a importância de temas como o racismo, a luta das mulheres e dos LGBTQIA+, além da demanda da participação política da juventude. Tudo isso exige uma reformulação programática, de formas de organização e atuação política do PT e da esquerda. Se vai ser difícil constituir alianças no plano eleitoral, é preciso encontrar pontos programáticos que possam aproximar as forças progressistas nos movimentos sociais. É preciso voltar às ruas em protestos com agenda defensiva, contra as perdas de direitos e ameaças conservadoras. Com esses desafios, também será difícil a constituição preferencial de alianças mais ao centro do espectro político, uma vez que a realidade exige propostas mais claras, que enfrentem diretamente os grandes problemas do país que têm sua origem na desigualdade da distribuição de renda e poder. É preciso redefinir propostas para a sociedade. As eleições deixaram uma grande lição: continuar como está não podemos!

(*) José Sergio Gabrielli de Azevedo é ex-presidente da Petrobrás


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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