Definido Nilmário Miranda como nosso pré-candidato para a Prefeitura de BH nas eleições de 2020. Mas como que esse nome foi definido? E quais os impactos dessa decisão para a esquerda e a classe trabalhadora em BH? Optaremos por uma boa briga contra Kalil e a extrema-direita ou um mau acordo – que inclusive pode estar sendo pautado por aqueles que consideram o atual prefeito um “potencial aliado”?

 Por Roberto Nery (*)

Após termos definido nossa tática eleitoral em Belo Horizonte, no dia 14 de junho, ainda faltava a definição de quem seria o nosso nome para a disputa da Prefeitura de Belo Horizonte. Em relação a esse primeiro encontro, escrevi um relato disponível também aqui no Página 13 (em https://www.pagina13.org.br/uma-boa-briga-sempre-e-melhor-que-um-mau-acordo-a-tatica-do-pt-em-bh/).

 Apesar dos apelos para ampliarmos os debates ao máximo possível, principalmente após a confirmação do adiamento das eleições municipais para novembro, o Encontro para a Definição da Pré-Candidatura à Prefeitura aconteceu durante a manhã e parte da tarde do último sábado, 4 de julho. Inicialmente, foram inscritas 8 pré-candidaturas até dia 19 (data limite indicada pela Direção Municipal): Eduardo Novais, Geraldo Arcoverde, Guima Jardim, Luanna de Souza, Luiza Dulci, Miguel Corrêa Júnior, Nilmário Miranda e Rogério Correia.

 Esse artigo não pretende debater cada nome especificamente, porém um comentário: entre os nomes constavam uma boa variedade de opções, desde deputado federal a dirigentes municipais e militantes de base, às primeiras mulheres da história que se colocaram para a disputa interna do PT em BH, enfim. Assim, percebemos de início que a unidade em torno de um nome não existia.

 Também devido a isso, houve pedidos para ampliação da data para a decisão da candidatura, referindo-se principalmente a dois pontos: sobre a necessidade de termos mais debate com a base e a militância do PT e a inclusão de mais filiadas e filiados no processo efetivo de escolha do nosso nome. Infelizmente, sem ampliar o prazo, foram realizados somente dois debates – na segunda e sexta anteriores a votação – com a participação de cerca de 300 pessoas. Considerando que o partido na capital detém aproximadamente 25 mil filiados (conforme listas divulgadas), pouco mais de 1% dos filiados acompanharam o debate – um problema, na minha visão.

 Problema maior foi o colégio eleitoral que escolheu o nome, definido de forma antiestatutária pela Comissão Executiva Nacional do PT. Somente as e os membros do Diretório Municipal tiveram direito ao voto, ou seja, somente 46 pessoas – eleitas pelo PED em setembro de 2019, num processo reconhecidamente cheio de vícios em vários locais – tiveram acesso ao “poder” de decisão. Isso tornou as prévias que nosso partido sempre teve orgulho em realizar, num processo antidemocrático e sem a participação da base, contando somente com dirigentes – quase em totalidade com votos já marcados. Assim, num universo de 25 mil filiados, apenas 0,2% tiveram a oportunidade de votar. E havia formas de fazer mais ampliado, conforme fizeram São Paulo e Campinas, ou mesmo adiar a votação, como fez Guarulhos – 13ª cidade com mais eleitores do país.

 Parte dos pré-candidatos, como Rogério, foram enfáticos na defesa da aliança com frente de esquerda em seus manifestos publicados. Já outros apresentavam uma linha mais da necessidade do PT ter uma candidatura própria independente da opinião dos demais partidos da frente, como colocou Nilmário. Isso consolidava as diferenças no debate e nas candidaturas colocadas – o que já estava exposto na diferença da tática eleitoral, conforme o relato do encontro anterior. Nós, da Articulação de Esquerda, divulgamos publicamente nossa posição em favor do nome de Rogério, por entender a importância da frente de esquerda em BH, bem como a necessidade de nosso partido apresentar um nome competitivo politicamente e combativo politicamente.

 Dos 8 pré-candidatos colocados, somente metade participou dos debates – metade nem sequer isso, retirou e apoiou o companheiro Nilmário Miranda. Dessa forma, chegamos à manhã do sábado decisivo com somente 4 candidaturas: Luanna de Souza, Luiza Dulci, Nilmário Miranda e Rogério Correia. Após a aprovação do regimento interno, partimos para uma “infinita” sequência de saudações – em mais uma prova de que parte das reuniões do Partido se tornaram praticamente audiências públicas. Após fala dos deputados e dirigentes presentes, as quatro candidaturas se apresentaram, sendo que infelizmente Luanna e Luiza retiraram suas candidaturas em prol de Nilmário. Aproveito para comentar que os discursos feitos foram muito bons, no sentido da renovação política e geracional do PT, mas lamento a retirada de ambas – como dito, uma boa briga sempre será melhor que um mau acordo.

 Assim, após iniciar o processo com 8 pré-candidaturas, chegamos as defesas das candidaturas com somente dois participantes. Um processo que poderia ter realizado uma união real da base petista em torno de um nome, chegava ao seu fim com algo mais parecido com um conjunto de unidades forçadas. As defesas foram feitas: enquanto a defesa de Nilmário foi feita pelo Deputado Estadual Virgílio Guimarães e pelo Vice-Presidente Nacional do PT Luiz Dulci, Rogério indicou que Neila Batista, ex-vereadora e atual vice-presidente do PT, fizesse sua defesa.

 Faço uma pausa para um comentário: Virgílio, um dos que defendeu a pré-candidatura de Nilmário, defendeu no último encontro que o PT deveria ver no atual prefeito, Alexandre Kalil (PSD), um “potencial aliado”. Isso mesmo. Ou seja, que o PT deveria considerar como “potencial aliado” alguém que negligenciou a classe trabalhadora nos últimos quatro anos em suas políticas municipais e que está em um partido que compõe a base de sustentação de Jair Bolsonaro, junto com Antônio Anastasia, relator do golpe em 2016. Isso não quer necessariamente dizer nada, mas acredito pouco em coincidências, ainda mais considerando o histórico recente do PTBH, com alianças como a de 2008. Precisamos superar a estratégia da conciliação em nosso partido.

 Votação feita, 34 votos contabilizados para o Nilmário, 11 para Rogério e uma abstenção. Enquanto a votação ainda acontecia, já era comemorado o resultado, como “uma histórica vitória da unidade petista”. Pouco depois do resultado oficializado, já era divulgado nos grupos de esquerda dessa forma e era comemorada a repercussão positiva na imprensa burguesa.

 Sinceramente, me pergunto quão histórica e quão unitária foi essa decisão. Quanto à unidade, a mesma não existia e ainda não existe, na divergência daqueles que pensam que deva ter candidatura do PT a todo custo, mesmo que isso divida a esquerda, e aqueles que pensam que o partido deve liderar a construção dessa frente. Quanto à história, resta saber se esse processo entrará de forma positiva ou negativa, visto a baixíssima participação no processo de escolha. Como disse ao pronunciar meu voto: que saudade da democracia interna do PT!

 Quanto aos impactos, resta ver a posição do agora pré-candidato oficial, Nilmário Miranda. Resta saber se ele e a direção do PTBH seguirão as decisões do penúltimo encontro, realizando pesquisas qualitativas e quantitativas para definir a chapa majoritária junto da frente de esquerda, buscando se aliar com as demais pré-candidaturas da esquerda colocadas: Áurea Carolina (PSOL), Leonardo Péricles (UP) e Wadson Ribeiro (PCdoB), bem como com os demais partidos progressistas. Em uma política abertamente de oposição ao atual prefeito Kalil e aos desgovernos de Romeu Zema (NOVO) e Jair Bolsonaro, denunciando os desmandos das três esferas frente aos direitos da classe trabalhadora e mesmo frente à pandemia, apesar de inicialmente o atual prefeito ter seguido os indicativos científicos.

 Em um cenário no qual cada partido lance sua própria candidatura, teremos a esquerda fragmentada, sem conseguir ter peso suficiente para polarizar o debate junto à direita e a extrema-direita. Assim, possivelmente não alcançaremos o segundo turno, deixando a classe trabalhadora de BH entre a cruz e a espada, com dois candidatos da direita neoliberal como opção – como passamos em 2018 com Zema e Anastasia no segundo turno para governo do estado. Nesse cenário, tanto o PT quanto os demais partidos da esquerda ficariam ainda mais fragilizados e desmoralizados na cena belo-horizontina, deixando mais uma vez de ser opção para milhares de votantes.

 Não vivemos em um cenário de normalidade, estamos em plena crise sanitária, social, econômica e política, devido aos ataques fascistas do governo federal e suas políticas genocidas durante a pandemia. Não temos mais condições nem tempo para erros causados por concepções e interesses exclusivistas e individualistas! Assim, defendemos a nossa opção por construir e acumular forças para uma boa briga em defesa da classe trabalhadora ao invés de um mau acordo interno – que inclusive pode estar sendo pautado por interesses escusos de alguns que defendem alianças com a centro-direita e à direita em BH.

 Por isso, defendemos que os partidos de esquerda, movimentos sociais e a nossa base social e militante se unifique em BH, construindo um programa combativo e uma chapa majoritária de uma frente de esquerda para derrotar o neoliberalismo e a extrema-direita na capital mineira!

Fora Bolsonaro, Fora Zema, seus governo e suas políticas! E levem o Kalil junto!

 É PRA VALER, É COM A ESQUERDA QUE QUEREMOS O PT!

Viva a união da esquerda belo-horizontina! Por uma BH socialista e popular!

 Assine você também o manifesto da unidade da esquerda em BH:

Por uma BH democrática, popular e progressista – https://forms.gle/NUd5dPkX32mXr1wy8

 (*)  Roberto Nery é graduando em Ciências do Estado na UFMG e militante do Partido dos Trabalhadores, atualmente na Direção Municipal do PTBH e na Secretaria Estadual da JPTMG. roberto.nery.pereira@gmail.com – instagram: robertonery13

 

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