Por Wladimir Pomar*

 

É provável que, na história do Brasil, nenhum governo tenha acreditado tanto em suas próprias mentiras e estórias quanto o do golpista Michel Temer. A economia estaria entrando nos eixos e em breve recomeçaria a crescer firmemente; o desemprego estaria sendo reduzido e em breve estaria superado; o consumo estaria sendo reativado; a Petrobras teria sido saneada e voltara a ter lucros… A lista é enorme para vender a ideia de que nunca um governo teria feito tanto em tão pouco tempo.

Tudo bem no melhor dos mundos. Ao criar estórias da carochinha com a ajuda da burguesia midiática, o governo Temer transformou Pangloss, o célebre otimista de Voltaire, em realista e cético. Pouco adiantou que se confrontasse a toda hora com pesquisas econômicas e de opinião pouco favoráveis que as desmentiam. E pouco adiantou ser avisado de que haviam altas tensões em diversos setores sociais. O governo golpista acreditou piamente que suas mentiras tinham o condão de transformar-se em verdades pelo simples fato de serem repetidas sem que suas faces tremessem.

Assim, foram apanhados de surpresa com a greve dos caminhoneiros. O aparato de informação e inteligência do governo da república nada detectara. E, apesar da massividade e da extensão nacional da greve, dias depois Temer ainda não tinha ideia da composição dos grevistas, nem o que fazer e com quem conversar. A seguir, apesar de haver montado um gabinete de crise, acreditou negociar com os representantes de todas as frações de classe envolvidas, embora os caminhoneiros autônomos haverem ficado fora das conversas.

Para piorar, ao chegar a acordo com a fração empresarial dos transportes, Temer anunciou haver atendido às reivindicações de todos e atacou a “minoria radical infiltrada”. Ou seja, confundiu os autônomos (cerca de 30% dos motoristas que trafegam nas estradas brasileiras) com os grupos direitistas de choque que tentavam promover a intervenção militar no país. Com isso, foi obrigado a novas e demoradas negociações cujo principal prejudicado foi o conjunto da população.

Quem quer que queira compreender a natureza desses acontecimentos, já históricos, terá que examiná-los como uma expressão da luta entre classes e/ou frações das classes sociais presentes na sociedade brasileira neste momento. E levar em conta que essa luta, como outras do passado e do futuro, além de expressar as motivações materiais de cada uma das frações ou classes envolvidas, também trouxe à tona o desejo de alguma dessas frações luta buscarem na finada ditadura militar a motivação para glorificar sua luta ou sua aspiração política.

Não é tão difícil identificar que os interesses das principais frações da burguesia brasileira, incluída a fração dos proprietários das frotas de transporte rodoviário, sempre foram orientados pelos interesses do latifúndio, antigo ou moderno, e sempre estiveram atrelados aos interesses das frações financeiras e das burguesias estrangeiras. Não fosse assim, as frações burguesas industriais nativas teriam desde sempre se batido para evitar a crescente desnacionalização da produção manufatureira e o desmonte criminoso do sistema ferroviário nacional, muito mais barato e eficaz, e teriam lutado contra os programas neoliberais de desindustrialização.

No Brasil, frações burguesas manufatureiras e nacionalistas sempre foram minoritárias e com baixo potencial político. Foram esporádicas e de pouco eco as resistências burguesas nacionais ao domínio monopólico das corporações empresariais estrangeiras sobre a economia brasileira. E, nos últimos anos, as diversas frações burguesas nativas, numa imitação canhestra das burguesias dos países capitalistas desenvolvidos, tendem cada vez mais a viver do rentismo de altos ganhos financeiros e patrimoniais.

É com esses objetivos materiais que as diversas frações da classe burguesa brasileira sempre se preocuparam em dominar a máquina do Estado. Por um lado, para ocupa-la com membros de sua classe e para garantir que tal máquina esteja sempre pronta a proteger o conjunto da burguesia como dominante e privilegiada. Por outro, para se apropriarem da principal parcela dos recursos que o Estado arrecada através do sistema tributário ou de atividades produtivas.

É isso que explica a existência e a permanência de diversos sistemas de transferência de recursos públicos para os proprietários privados, a exemplo da tributação regressiva, do constante endividamento externo, das concessões de serviços públicos a entes privados, e das redes de corrupção. É através desses sistemas que as diversas frações burguesas dividem entre si os recursos arrecadados das demais classes pelo Estado e compensam os lucros, dividendos, rendas etc que não conseguiram obter através dos processos produtivo, de circulação e de distribuição da renda bruta.

Nas últimas décadas, essas poderosas bombas de sucção das finanças do Estado pela burguesia transformaram-se num dos principais pontos de atrito entre as diversas frações da burguesia, e entre a burguesia e as diversas frações da classe média. Esta classe, composta por pequenos e médios proprietários de meios de produção e de circulação urbanos e rurais e por assalariados públicos e privados de alta renda, não se diferencia da burguesia pelo que costuma chamar de princípios. São suas condições materiais de vida, condições que não lhe permitem ter acesso pleno à propriedade privada e às vezes a empurram em sentido contrário, que comandam suas ações e suas lutas.

Ela vive o constante drama de pretender ser a classe do futuro, mas não passar de uma classe intermediária entre a que detém a propriedade privada e a que vive de vender sua força de trabalho para os proprietários privados. Nessas condições, nela se confrontam os interesses opostos da burguesia e da classe trabalhadora assalariada, o que a transforma num conglomerado passível de ações extremadas por um lado ou por outro, ou contra ambos os lados, a exemplo do tenentismo dos “18 do Forte” e da “Coluna Prestes”.

Não muito depois do PT haver galgado o governo central, algumas frações burguesas e da classe média (em particular as ocupantes de parcelas importantes do aparelho do Estado, como promotorias, judiciários, polícias, forças armadas) aliaram-se contra a classe trabalhadora. Primeiro para liquidar a crescente participação trabalhadora em parcelas do Estado (governo e legislativo). Segundo, para frear suas políticas de redistribuição de recursos públicos para a população vivendo em situação de pobreza extrema.

É verdade que adotaram como motivação pública inicial dessa luta a punição dos membros do governo acusados do uso de caixa 2 nas contribuições empresariais para campanhas eleitorais. Depois, com a experiência acumulada nos processos do mensalão (2005), e com os crescentes sinais de que a crise econômica mundial começava a atingir a economia brasileira, passaram a desdobrar suas ações. Organizaram movimentos massivos contra as políticas sociais focadas nos pobres e miseráveis, cujo ápice foram as demonstrações de 2013, e ingressaram numa verdadeira caça às bruxas, tendo como centro a Operação Lava Jato, momentaneamente articulada à campanha de impedimento da presidente Dilma pela prática das chamadas pedaladas fiscais.

A Operação Lava Jato, no entanto, inicialmente focada na suposta organização criminosa chefiada por Lula, correu o risco de morrer na praia. Isto, seja por ausência de provas, seja pela mixórdia da suposta corrupção ser inferior a dois milhões de reais (soma do valor do triplex do Guarujá e dos pedalinhos de Atibaia). Esses valores não batiam com a acusação de que Lula seria o capo de uma organização criminosa, a não ser que fosse um total imbecil. E eram muito inferiores às centenas de milhões de dólares desviados por executivos de estatais e de grandes empresas capitalistas para si próprios e/ou para representantes políticos da burguesia ou da classe média.

Para sanar tal contradição e legitimar a perseguição a Lula e ao PT, base da aliança entre frações burguesas e da classe média, teriam que deixar de lado o power point Dalagnol e cortar na carne das frações burguesas da construção infraestrutural e de seus representantes políticos no Congresso, numa imitação canhestra do terrorismo jacobino da revolução francesa de 1789. Assim, à medida que foi levada a cabo pela classe média do judiciário, da polícia e dos empregados do sistema de corrupção empresarial, a burguesia como um todo se sentiu atingida e descambou a aliança em crise.

A burguesia como um todo, talvez excetuando sua fração estrangeira, assim como outras frações da classe média, começaram a entrar em pânico à medida que os justiceiros escancaravam a caixa de Pandora do empreendedorismo corrupto do capitalismo brasileiro. Sinais dessa situação foram notados na mudança de posição de alguns ministros togados, no crescimento da preferência eleitoral por Lula e pelo PT na classe média e na crescente oposição social aos golpistas.

A necessidade de “distinguir entre as frases e figurações dos partidos ou grupos políticos e seus interesses específicos, entre a capa que vestem momentaneamente e sua natureza de classe”, apontada por Marx, tornou-se ainda mais evidente na greve dos caminhoneiros. Sua fração burguesa praticou lockout ao ordenar a seus motoristas assalariados que aderissem ao movimento. Mas, ao mesmo tempo que ajudou os caminhoneiros de classe média a organizarem o movimento, esqueceu seus interesses específicos nas reuniões preliminares com o governo, levando-os a radicalizar a paralisação.

Mesmo prejudicando as demais classes presentes na sociedade, os caminhoneiros têm o mérito histórico de haverem recolocado a luta de classes na ordem do dia da sociedade brasileira. E, quando tal processo de luta reemerge, torna-se indispensável voltar a analisar os interesses e as posições reais das diferentes classes sociais e de suas frações e representantes políticos. Mesmo porque, como dizia Marx, esses representantes têm a mania de transformar em socialista ou comunista até mesmo o mais fino liberalismo burguês e qualquer reforma democrática. Reforma que se torna cada vez mais uma necessidade imperiosa da sociedade brasileira.

 

* Wladimir Pomar é escritor e analista político

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