Márcio Ferezini Marangoni (*)

 

Antes de iniciar com o tema, gostaria de escrever sobre o motivo da escolha do título. Eu, como quase todos – ou todos – os homens, já participaram daquelas famosas rodas de conversa que só tinham homens. E, geralmente, nessas rodas, quando um pretende falar sério com o outro, utiliza esse jargão popular.

Este texto é um esforço teórico que propõe tematizar a discussão sobre a constituição da masculinidade e o processo psicológico do qual participamos. Não pretendo trazer conceitos que possam dificultar a leitura, o que me obriga a escrever de modo que a leitura seja acessível sem muitos obstáculos. Quero iniciar com uma provocação: por que os homens acreditam que as características ditas masculinas são naturais e não construídas? Judith Butler chama a atenção para esse fenômeno e afirma que somos produzidos e reproduzidos nas relações sociais e institucionais pela via gestual e discursiva. Assim, homem ganha materialidade como um substantivo pela qual se anunciam e se afirmam no mundo, o que revela-se performativa a escrita da história dos homens.

Sem dúvida, o que podemos notar aqui é a mistificação da falsa consciência que inibe a compreensão ideológica da cultura dominante. Se entendemos ideologia como um sistema de ideias que tem por interesse a defesa de determinados grupos sociais, então, ideologia, neste contexto, não é mais do que a ocultação da realidade que opera por meio de uma inversão para justificar um discurso “verdadeiro”. Importante ressaltar que a prática ideológica do masculino se manifesta no discurso, o que garante a materialidade vívida. Desse modo, o que a classe dominante deseja é uma “vontade de verdade” que mais se revela como uma máquina de inclusão e exclusão. Os homens ditos masculinos são os incluídos no sistema dominante, mas, e isso é importante dizer, são incluídos apenas os que aderem ao “modelo de homem ideal a ser seguido”.

Que homem é esse? São aqueles que demonstram agressividade, dominação, insensibilidade etc. Ou seja, é o homem que não chora, que não tem medo, que demonstra dureza, que não falha, que é autoritário, chefe de família etc. A lista é longa. São características que são repetidas incansavelmente por outros homens por meio de gestos e discursos desde o nascimento até a fase adulta. O homem que não tem comportamento masculino, é tido como “mulherzinha”, no sentido pejorativo do termo, pois, para eles, é tido como um xingamento e ofensa. Demonstrar sensibilidade, medos, sentimentos, afetos é o mesmo que pertencer ao universo feminino. Ideologia, aqui, portanto, age na estrutura psíquica com o objetivo de inserir pensamentos e comportamentos que correspondam à estrutura econômica e política da sociedade.

Existe urgência em debater sobre esse tema, pois refletir sobre a masculinidade significa romper com os padrões normativos que nos foram impostos, e reconhecer a urgência de pautar a masculinidade significa lutar “contra normas e convenções que restrinjam as condições da própria vida, como respirar, desejar, amar e viver” (PORCHAT, 2014, p.18). E foi graças aos movimentos feministas e as questões colocadas por elas que foi possível rever e discutir sobre nossos privilégios e comportamentos.

Curioso notar que muitos respaldam seus argumentos em favor dos comportamentos – masculinos – com bases genéticas. No entanto, é possível afirmar que os cromossomos não determinam nem justificam seus comportamentos. Ao contrário, são hábitos produzidos desde o nascimento (com a família) e em seguida com as instituições (escola, Estado, Mercado, Religião etc). Tentarei demonstrar como se dá esse processo no decorrer do texto.

A teoria freudiana descreve a forma clássica pela qual se deu a interação indivíduo-sociedade em todos os sistemas de dominação passados. Essa forma é ilustrado pelo mito filogenético da horda primitiva. O Pai despótico, que monopolizava as mulheres da tribo – a mãe ou mães – é assassinado pelos filhos e devorado num banquete totêmico. Estes percebem, em face dos imperativos da luta pela existência, que a tirania paterna era necessária. E reintroduzem, voluntariamente, aquelas mesmas restrições. O pai morto é interiorizado, juntamente com todas as prescrições e proscrições originais (ROUANET, 2001, p. 227)

São práticas de dominação sob vigilância que se justificam esses rituais passados e que se perpetuaram no tempo e na cultura coletiva. Assim, as normas se materializam nos corpos. Com efeito, percebe-se, então, que a psicanálise é fundamental para refletir e questionar o pensamento naturalista, ligado ao masculino. É por meio dos estudos de Freud que torna possível analisar a constituição da masculinidade a partir das relações parentais. Ele utiliza o mito de Édipo para descrever como ocorre a masculinização na criança através da represália praticada pelo Pai sobre o desejo incestuoso pela mãe. Por meio desse ritual é que a criança é inserida no “universo masculino” da força e virilidade que tem como exemplo principal o pai, e com o distanciamento da mãe, o que dá início ao processo de identificação [1] com o progenitor. Na teoria freudiana, então, já denota que a família, seguindo os moldes do pai autoritário, é a instituição formadora de masculinidades também autoritárias.

Os simbolismos, proferidos pela linguagem enquanto objetos ideológicos, são materializados em práticas sociais através de comportamentos por meio da repetição. É dessa maneira que os discursos regulam e instauram saberes que são capazes de produzir “verdades”[2]. É um mecanismo psicológico de “adestramento” que faz com que o sujeito, dominado pelo pai autoritário, assemelha-se a um animal doméstico, pois imitam automaticamente comportamentos preestabelecidos.

A relação indivíduo-líder é um jogo de espelhos, um vai-e-vem entre rosto e imagem, cópia e modelo, em que não se sabe o que é real, e o que é reflexo, e em que a identificação do indivíduo ao líder parece representar a outra face de identificação do líder ao indivíduo. Mas tal impressão não é aleatória, e sim orientada; o desfecho desse jogo de identificações é previsível, e corresponde à identificação como líder, e através dele, com o sistema de forças sociais que ele representa. (ROUANET, 2011, p. 132).

É possível verificar, portanto, que o sistema da construção de masculinidades tidas como naturais ao homem partem do que podemos designar por hábito. São esquemas de pensamento e ação que são adquiridos no processo de socialização primária. É corporificado e materializado para expressar uma tendência que é produzida e reproduzida através de estratégias educativas que atuam nas estruturas psíquicas. Através da identificação com o pai, o Estado mobiliza também seus fantasmas para que ocorra a identificação com o status quo. Este, é claro, muito mais fácil, pois o trabalho de identificação primária já foi feito. Utilizo um exemplo de Marcuse para exemplificar como se dá esse processo de domesticação com o recurso linguístico positivo.

Sua linguagem testemunha a identificação e a unificação, a produção sistemática de pensamento e ação positivos, o ataque concertado às noções transcendentes e críticas […] Na expressão desses hábitos de pensar, a tensão entre aparência e realidade, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e imitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem […] Essas identificações, que aparecem como uma particularidade do operacionalismo, reaparecem como características da locução no comportamento social (MARCUSE, 1982, p. 93).

A criança repete palavras e comportamentos do pai enquanto, na vida adulta, imita o comportamento daqueles que representam a figura do pai. Em decorrência dessa constatação, então, notamos que a masculinidade é um processo de materialização, o que requer a repetição das normas reguladoras para perpetuar-se. Não há como pensar a constituição da masculinidade sem a linguagem. A manutenção se dá pela repetição de atos que trazem a ideia de naturalização. Por isso, a masculinidade é performativa: ser um homem não é uma realidade, é uma fábula inventada para impor regras de civilidade. O substantivo homem não quer dizer nada enquanto fato natural físico. É uma invenção que tem como função hierarquizar e justificar o mito da superioridade masculina sobre o feminino. Assim, por meio de atos performativos os homens (re)produzem normas e convenções para o que não há verdades.

Se os atributos e atos do gênero, as várias maneiras como o corpo mostra ou produz sua significação cultural, são performativos, então não há identidade preexistente pela qual um ato ou atributo possa ser medido; não haveria atos de gênero verdadeiros ou falsos, reais ou distorcidos, e a postulação de uma identidade de gênero verdadeira se revelaria uma ficção reguladora. O fato de a realidade do gênero ser criada mediante performances sociais contínuas significa que as próprias noções de sexo essencial e de masculinidade ou feminilidade verdadeiras ou permanentes também são constituídas, como parte da estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as possibilidades performativas de proliferação das configurações de gênero fora das estruturas restritivas da dominação masculina e da heterossexualidade compulsória (BUTLER, 2013, p.201).

Dessa maneira, podemos notar que a construção da masculinidade não se dá no discurso isolado, mas sempre sob a vigilância do Outro como recurso legitimador de comportamentos e discursos. O problema da masculinidade nos atravessa há tempos e muito se fala da urgência de reconfigurar os padrões preestabelecidos de virilidade, agressividade insensível etc. No entanto, além do homem re-pensar a sua constituição, também deve ser criado um projeto de educação e políticas públicas para o próprio modelo de funcionamento político e social. Isso porque “A masculinidade não cai do céu; ela é construída por práticas masculinizantes” (CONNELL, 1990, p. 90). É um problema que começou despertar interesse como resultado da teoria feminista e da constatação da invisibilidade da violência constitutiva da masculinidade na perspetiva de gênero.

Se, por um lado, Marcuse utiliza Freud para explorar os mecanismos de dominação pela qual é interiorizado e perpetuada a unidimensionalidade do pensamento acrítico, por outro, também faz com que Marcuse faça uma leitura filosófica da metapsicologia de Freud para sugerir a emancipação por meio da teoria da sexualidade (erotização do corpo). Os homens são constituídos pela masculinidade desde os primeiros passos, como já foi dito, e a cultura da masculinidade só deixará de ser constituída do jeito que é através de uma intersubjetividade que permita o homem romper com o despotismo patriarcal da horda primordial. Ou seja, é fundamental reconfigurar esses modelos ideais (família e sociedade) para rompermos com comportamentos e discursos que nos afetam negativamente.

Finalizo com uma sugestão conceitual que pode permitir provocar as fronteiras do pensamento dito masculino. A masculinidade é muitas vezes abordada como se fosse uma construção estrutural. Pois bem, a maneira que é colocada implica numa contradição de termos, pois o termo “construir” nos faz pensar em devir (algo que está em movimento) e “estrutural”, ao contrário, faz com que pensamos em algo inerte e acabado. Trocaria o termo “estrutural” pelo termo “estruturante”. Explico: “estrutura”, de maneira geral, pode ser usada como os termos “sociedade” ou “patriarcado”. É como se a estrutura fosse o que não somos, como se houvesse uma espécie de status quo ao qual nos opomos. No entanto, é preciso deixar claro que a estrutura nos define, parcialmente.

Tomemos a linguagem como exemplo: todos aprendemos a falar e, desse modo, seguimos as regras da língua. Assim, a estrutura não é algo que se recusa, o que não significa que seja imutável, como quis Platão. Importa, por isso, atentar às mudanças da língua e pensar que não somos estruturados desde sempre e para sempre, ainda que sejamos sempre estruturados de alguma maneira. É fundamental que reconheçamos que a masculinidade é estrutural. Mas em que medida essa frase é uma aceitação de uma assimetria de gêneros apresentada como eterna? E em que medida ela é uma tentativa de compreensão e subversão da estrutura? Quando repetimos que a masculinidade é estrutural, queremos dizer que ninguém escapa, ou seja, estou aprisionado e sem possibilidades de mudança.

Com esse texto, não tenho pretensão de excluir-me dessa masculinidade. Ao contrário, me reconheço inserido nessa instanciação de gênero com preconceitos a ser dissolvidos. Portanto, prefiro pensar que fui estruturado pela masculinidade, mas devo, junto com outros, formular e reconfigurar outras maneiras de pensar, sentir, agir. Então, sim, a masculinidade é estrutural, mas como forma e não como prisão. Faço parte da estrutura como um indivíduo estruturante.

[1] . “A identificação, como se sabe, é um conceito central para a psicanálise, onde designa o processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto ou atributo de outro, e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo deste último.”(ROUANET, 2011, p. 122)
[2]. Somos bombardeados o tempo todo com propagandas, novelas e filmes que nos ditam o que devemos fazer, pensar e falar. São estilos de vida impostas por todo um sistema que não aceita a contradição. Assim, o modelo de homem deve ser seguido sem questionamentos. “A vida é aquilo que é, a indústria cultural é a reprodução inflexível de um mundo que não pode ser diferente (ROUANET, 2011, p. 137)”. A “ilusão fílmica” é o produto cultural mais representativo porque são técnicas de reprodução mecânicas que tornam a velha experiência ilusória da continuidade do filme com o mundo externo. Isso se dá pelo adestramento do espectador. A indústria cultural, portanto, se torna um filtro obrigatório do mundo inteiro.

(*) Márcio Ferezini Marangoni é filiado ao PT e estudante do curso de Filosofia na Universidade Federal de São Paulo

 

BIBLIOGRAFIA

BUTLER, Judith. Entrevista a PRINS, Baukje; MEIJER, Irene Costeira. Como os corpos se tornam matéria: entrevista com Judith Butler. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p.155-167, 2002.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

CONNELL, R. W. (1990). Como teorizar o patriarcado. Educação e Realidade, 16(2), 85-93.

CONNELL, R. W. (1995). Políticas da Masculinidade Educação & Realidade, 20(2), 185-206.

MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea. In: SCHPUN, Mônica (org.). Masculinidades. São Paulo: Boi tempo Editorial; Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2004.

MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial: O homem unidimensional. Tradução de Giasone Rebuá, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.

MARCUSE, H. Eros e a civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de

Freud. Tradução de Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.

PORCHAT, Patrícia. Gênero, psicanálise e Judith Butler – do transexualismo à política. Tese de doutorado – Instituto de Psicologia. São Paulo: USP, 2007.

ROUANET, Sérgio Paulo. Teoria crítica e psicanálise, Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo Universitário, 2001.

Este post tem 2 comentários

  1. Marcelo F. Marangoni

    Seria interessante se todxs pudessem praticar tudo aquilo que teorizam. Vejo as pessoas usando as palavras para impressionar, mas não seguem o que falam.

    Observação: gostaria de me filiar ao PT e poder explicar melhor a minha fala.
    Desde já, obrigado

Comente!