Por Valter Pomar (*)

Vivemos uma crise sistêmica, ou seja, a conjugação orgânica de inúmeras crises (ambiental, sanitária, social, econômica, política, nacional, geopolítica & cultural).

Esta crise sistêmica é uma crise do capitalismo, por dois motivos. O primeiro é que há uma crise de acumulação, que teve em 2008 um de seus picos. O segundo é que a sociedade em que vivemos é organizada em torno da acumulação de capital e, portanto, a crise sistêmica desta sociedade é uma crise sistêmica do capitalismo.

Daí resulta que desta crise emergirá uma alternativa sistêmica?

Não necessariamente. Crises imensas podem produzir o colapso geral da sociedade, uma versão Global Mad Max daquilo que os dois velhos barbudos chamavam de “destruição das classes em luta”.

Mas se surgir uma solução sistêmica, ela será de natureza anticapitalista?

Não necessariamente. Aliás, o mais provável é que não seja. O mais provável é que o capitalismo aproveite a crise sistêmica para trocar lâmpadas velhas por lâmpadas novas, destruindo forças produtivas (a começar pelos seres humanos), concentrando e centralizando capitais, substituindo trabalho vivo por trabalho morto, aprofundando a exploração das periferias pelos centros. Etc.

Porém, se existe um bom momento para iniciar novas tentativas de transição socialista, é exatamente em momentos como esse, de crise sistêmica do capitalismo.

Ou alguém acha que será mais fácil iniciar uma transição socialista, em tempos de funcionamento normal e exitoso do capitalismo?

Por isso, aqueles que hoje recusam ou secundarizam debater uma alternativa sistêmica socialista, argumentando a correlação de forças e outras dificuldades absolutamente reais, não percebem que “depois da crise” as dificuldades vão aumentar, não diminuir.

Pois passada a crise, em que tudo é muito difícil, virá na melhor das hipóteses nova expansão, onde tudo será muito mais difícil para aqueles que lutam pelo socialismo.

(*) Valter Pomar é professor da UFABC e membro do Diretório Nacional do PT

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