Por Valter Pomar (*)

Em debate recente, dois importantes intelectuais de esquerda afirmaram que esta não é a crise final do capitalismo. Não sei como eles chegaram a esta conclusão, mas nisto concordo com eles. Entretanto, tiro desta afirmação uma conclusão muito diferente.

Vale dizer que nem esta, tampouco qualquer outra das crises do capitalismo, foi ou será a “final”, pelo simples motivo de que o capitalismo é uma relação social, não apenas uma relação entre os capitalistas e os assalariados, mas também uma relação entre o trabalho morto e o trabalho vivo.

E esta relação só poderá ser superada, em condições de imenso desenvolvimento das forças produtivas & abundância, quando os produtores das riquezas possam realmente decidir o que produzir, quanto produzir,  como produzir, quando produzir e como distribuir as riquezas.

Dito de outro jeito, o capitalismo só será superado no curso daquilo que se convencionou chamar de transição socialista. Por isto, aliás, quem tentou fazer uma transição socialista excluindo por princípio toda e qualquer relação capitalista, não teve o êxito esperado na superação do capitalismo.

Mas qual a decorrência que se pode extrair deste raciocínio?

Primeiro, que não devemos esperar a “crise final”, porque ela não comparecerá nunca. O capitalismo não morrerá de morte morrida. Morrerá de morte matada.

Segundo, que não podemos esperar a “crise final” para lutar pelo socialismo, pois se fizermos isso, o capitalismo viverá para sempre ou– mais provável — nos destruirá tentando. É só no curso de uma transição socialista que se pode derrotar o capitalismo.

Aliás, se os revolucionários vitoriosos do século XX tivessem esperado a “crise final”, é provável que eles continuassem esperando até agora, pois foi só com a revolução socialista que países como Rússia e China conseguiram eliminar os obstáculos (feudais, coloniais, imperiais etc.) que travavam o desenvolvimento das forças produtivas, inclusive das forças produtivas capitalistas.

Conclusão: a discussão sobre a “crise final” não tem nada que ver com o assunto da luta pelo socialismo. A não ser, é claro, como argumento démodé — a “crise final” era argumento corrente na socialdemocracia do final do século XIX — para tentar negar que só no curso de uma transição socialista conseguiremos superar de conjunto, de maneira sustentável e permanente, a dependência externa, a desigualdade social, a falta de liberdades democráticas e o desenvolvimento troncho que caracterizam o Brasil.

(*) Valter Pomar é professor da UFABC e membro do Diretório Nacional do PT

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