Por Silvio Queiroz (*)

O ano insólito de 2020 termina, para os jornalistas do Distrito Federal, com a paralisação mais longa dos últimos 20 anos na redação do Correio Braziliense – a maior redação entre as de diários impressos na capital. Uma greve que, antes de ser festejada como efeméride, merece ser entendida como ilustrativa do momento atual para as lutas da classe trabalhadora.

Talvez o ponto de partida mais sólido para essa análise seja reconhecer que se tratou de um movimento, antes de mais nada, defensivo. Os jornalistas do Correio cruzaram os braços por três dias (8, 9 e 10 de dezembro) simplesmente para exigir da empresa o pagamento integral dos salários de novembro. Foi o terceiro mês seguido de atrasos e acerto a conta-gotas, que marcam o ponto mais baixo – até aqui – em um longo processo de precarização e degradação das relações de trabalho.

Mais do que tudo, a determinação dos trabalhadores de sustentar a paralisação até que toda a redação recebesse o salário completo pode ser resumida em uma mensagem passada à empresa: paciência esgotada. Nos últimos anos, o principal jornal de Brasília acumulou um pesado passivo trabalhista que inclui depósitos de FGTS, férias, auxílio-alimentação e até mesmo parcelas de um acordo judicial recém-firmado para quitação de benefícios em atraso.

Ao longo desse período, o Sindicato dos Jornalistas do DF e a redação do Correio acumularam também um importante processo de lutas e organização. A direção da empresa reconheceu como interlocutora uma comissão de representantes dos jornalistas, que tem contribuído igualmente, para o enraizamento do sindicato. Assembleias, paralisações parciais e outas formas de protesto asseguraram conquistas parciais e reforçaram o sentimento de luta e união.

É, indiscutivelmente, ilustrativo do tempo que vivemos no país que mereça atenção um movimento que teve como objetivo o recebimento do salário! É quase como reconhecer que lançamos mão de uma arma do mais alto calibre apenas para obter algo garantido por lei, convenção coletiva e contrato de trabalho. E isso ao final de um ano em que, nas condições inéditas da pandemia, nossa categoria dependeu de negociações arrastadas e penosas para conseguir um reajuste mínimo de salários e outros benefícios.

Embora a greve no Correio tenha sido 100% defensiva, ela transmitiu aos jornalistas de Brasília uma mensagem forte de resistência e apontou o caminho da luta. Tem tudo para contribuir, neste início de 2021, para que outras redações com maior peso se encoragem a defender, ao menos, o patamar atual das condições de trabalho. Ao mesmo tempo, ela nos convida, como sindicalistas, a examinar a situação da categoria, identificar os pontos nevrálgicos e explorar cada oportunidade para consolidar e, se possível, ampliar o terreno conquistado.

No acúmulo de forças, com paciência e esforço constante, temperados pela dose necessária de ousadia, o movimento sindical pode abrir caminhos para encorpar e ocupar o lugar que lhe cabe na luta para isolar e derrotar o bolsonarismo. E, nessa perspectiva, fazer das duras condições da crise econômica, social e sanitária a contramola capaz de reabrir os horizontes da luta pelo socialismo.

(*) Silvio Queiroz é Coordenador-geral do Sindicato dos Jornalistas do DF e militante da AE


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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