Por Natália Sena (*)

Muita coisa tem sido falada e escrita acerca do balanço das eleições municipais de 2020. Da direita à esquerda, por dirigentes, militantes, lideranças públicas, pela grande mídia e pela mídia alternativa, uma enxurrada de conclusões muitas vezes deterministas, fatalistas e oportunistas estão à disposição no cardápio das “análises”.

Os resultados objetivos da eleição já nos dão algumas pistas de qual tipo de balanço pode ser feito. Algo em torno de 75% do eleitorado votou em partidos de direita, entendendo-se como direita tudo aquilo que muitos chamam de centro-direita, “centrão”, direita tradicional, neoliberais, extrema-direita, bolsonarismo. Ou seja, 25% do eleitorado votou no que pode ser chamado de centro e esquerda. Prefiro não falar centro-esquerda, pois quando se trata do combo PT-PSOL-PCdoB-PDT-PSB, está muito nítido quem é esquerda e quem não é. Além disso, chamar de centro uma agremiação que dá vida a uma campanha como a de João Campos em Recife é até uma benevolência muito grande de nossa parte. Nesses 25%, mais ou menos 10% foram votos na esquerda propriamente dita. Um patamar próximo de 2016 e muito inferior ao quantitativo de votos que obtivemos em eleições municipais na década anterior.

Então, o declínio da esquerda de uma forma geral, em termos eleitorais, é inegável: a esquerda inteira (PT-PSOL-PCdoB) vai governar, a partir de 2021, menos municípios (234) que o PT governou sozinho entre 2017 e 2020 (254), e apenas uma capital, Belém, numa chapa PSOL-PT. Já a direita vai governar quase todas as capitais e médias cidades, sem falar na imensa capilarização que mantiveram nas pequenas. Além disso, no caso do PT, mesmo com a vitória em quatro médias cidades (Mauá, Diadema, Contagem, Juiz de Fora), é preciso dizer que não cresceu de forma relevante o número absoluto de pessoas governadas por nós, o que de certa forma desmonta o argumento de que “compensamos as perdas porque crescemos em grandes centros”.

Obviamente, isto não significa o fim do mundo para nós petistas. Dentre os partidos de esquerda, o PT segue sendo o maior, o mais enraizado no país, o com maior capacidade de travar a disputa institucional e, se quiser, com maiores condições de ser organizador da intensa luta social que precisa acontecer no Brasil. E para os petistas que ficam de calças arriadas com o resultado do PSOL em São Paulo, recomendo três coisas: 1) que analise o volume de abstenções no 1º e 2º turno e as implicações disso no perfil do voto que foi decisivo para o resultado; 2) que olhe para os resultados além de São Paulo, pois o PSOL governará apenas 5 cidades a partir de 2021; 3) que pense um pouco sobre se um projeto de esquerda no Brasil alcançará uma situação de ofensiva a partir das migalhas eleitorais disputadas entre os atuais partidos deste campo.

Agora, na minha opinião, o mais relevante para um balanço que seja útil para as lutas futuras é analisar os resultados para além dos números e do eleitoral propriamente dito. Por não ter ilusão de que é a partir de ocupação de prefeituras e câmaras de vereadores que construiremos caldo para grandes transformações no Brasil, prefiro olhar para os resultados apenas como uma das partes a ser analisada. Ou seja, a partir dos resultados, mas também das campanhas feitas, do acúmulo político e organizativo consequente de cada derrota ou vitória eleitoral, é que devemos compreender se politicamente tivemos um saldo mais positivo, negativo ou se ficamos num patamar similar ao de antes.

Uma das coisas que vejo muita gente falar é que “perdemos para o antipetismo”. Ou seja, que a operação de queimação contra o PT surte efeitos continuados a ponto de ser fator de forte rejeição em relação ao voto no 13. Certamente, para um partido que assumiu o governo federal em 2003 e desde 2005 até hoje é alvo do que o PT é, seria difícil sair “ileso”. Acontece que mesmo com as inúmeras perseguições, após a vitória de 2002 com Lula presidente o PT foi vitorioso em 2006, 2010 e 2014, e também nas eleições municipais que intercalaram as nacionais. Aí veio o golpe de 2016, que alterou de forma profunda a situação política, e a prisão ilegal de Lula impediu que chegássemos em 2018 com toda nossa força.

No pano de fundo de tudo isso esteve a situação econômica e social do Brasil e do mundo, as alterações na política dos nossos governos e a consequente piora nas condições de vida da maioria da população. E aí fica uma pergunta: o antipetismo é um fenômeno de rejeição ao PT por causa da queimação relacionada à acusações de corrupção; ou teria relação com a nossa (des)conexão com a classe trabalhadora e (in)capacidade de nos apresentarmos, após 13 anos de governos nacionais, como uma opção que vai de fato melhorar a vida do povo? Se a resposta for a primeira, o que fizemos e faremos em relação a isso? E, mais difícil ainda, se a resposta for a segunda, o que estamos fazendo para alterar essa situação? E se forem as duas coisas? Isto para não entrar em maiores comentários sobre a posição equivocada, superficial, submissa e vergonhosa dos que acham que a solução para o “antipetismo” é mandar o PT para o banco de reservas.

Outra coisa muito comentada nos balanços é que a solução para futuras vitórias é uma “frente de esquerda”, “frente popular” e variações. Essa é divertida demais. Travamos um intenso debate sobre “frente ampla x frente de esquerda” ao longo dos primeiros meses de 2020, ainda no início da pandemia, quando lutávamos para que o PT falasse “Fora Bolsonaro”, protocolasse pedidos de impeachment e dedicasse energias para travar uma intensa luta contra o governo de destruição. Por um período importante prevaleceu a posição “em defesa da vida”, como se fosse possível compatibilizar a defesa da vida com a manutenção deste governo.

O que aconteceu foi que a vida mostrou que não existia frente ampla possível, porque só quem aceitou defender Fora Bolsonaro foi a esquerda. Os pedidos de impeachment nunca chegaram nem perto de ser pautados e agora tem muita gente defendendo que apoiemos o candidato de Rodrigo Maia (ou o próprio) para a presidência da mesa da Câmara. E na eleição municipal, a direita saiu vitoriosa e o chamado centro (PDT, PSB) já deu todos os sinais de rompimento com o PT para 2022 (como se em 2018 tivesse tido alguma aliança relevante). Seria cômico, se não fosse trágico, que tenha gente entre nós achando que o PT abrir mão de ter candidatura, seja em prol de Boulos ou de um Ciro Gomes da vida, seja solução para alguma coisa.

Ao fim e ao cabo, o que importa mesmo para um balanço sério acerca do resultado da eleição municipal de 2020, na minha opinião, é medirmos que acúmulo político e organizativo alcançamos para travar a principal batalha conjuntural do atual momento: a luta pela derrubada do governo Bolsonaro. E deste ponto de vista acho que deixamos a desejar. As nossas campanhas, mesmo nas capitais e nas cidades médias, onde tem segundo turno e retransmissoras de TV, foram de forma geral com conteúdo municipal, de baixo enfrentamento contra a política genocida do governo federal. Sem polarização, e principalmente, sem politização pela esquerda, fica mesmo difícil se diferenciar das alternativas postas e, independentemente dos resultados eleitorais, colher resultados políticos que acumulem no médio prazo na luta anti-Bozo e contra seu programa ultraliberal.

De uma forma geral, para termos bons resultados eleitorais nas esquerdas, devemos travar muita luta social, ter muita organização de base e fazer enfrentamento e disputa de alto tom. Não é através de alianças que nos descaracterizam, nem de concessões programáticas que nos colocam em contradição com o projeto que defendemos, que iremos para a ofensiva no atual momento histórico. Ou compreendemos a disputa eleitoral para além de concepções administrativistas e republicanas e como uma trincheira a mais na luta política geral, ou a tendência neste momento de defensiva da esquerda é seguirmos acumulando derrotas.

(*) Natália Sena é advogada e integrante da Comissão Executiva Nacional do PT.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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