Página 13 divulga artigo de Marcos Jacoby, militante petista, a respeito de entrevista concedida recentemente por Dilma Roussef ao Tutameia.

 

Considerações acerca de uma entrevista

Muito interessante a entrevista concedida por Dilma ao Tutaméia, publicado no dia 01 de agosto e disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=6SXr6q7y0_c ). Toda a entrevista aborda aspectos importantes, porém algumas questões merecem destaque. Dilma caracteriza o governo Bolsonaro como, simultaneamente, neoliberal e neofascista. Descreve alguns traços dessas “duas faces”, as quais estariam “inteiramente ligadas”. No entanto, ela chama a atenção para o fato de que haveria uma contradição interna, um conflito e uma tensão que se desenvolve entre estas duas linhas.

Esse conflito tem, segundo sua percepção, de um lado, a extrema-direita, de feição neofascista, e de outro lado, setores tradicionais da direita, alguns que inclusive foram democráticos, que aderiram ao golpe e dão apoio à Bolsonaro (PMDB, PSDB, centrão, a grande mídia, setores do judiciário,  etc.). Considera que o programa neoliberal é o que dá unidade a coalizão bolsonarista.

Avalia que a “contraface” ao neofascismo na coalização imaginava ser possível “domesticar” Bolsonaro. Mas o fascismo não é domesticável, como afirma a própria presidenta. Mas “eles” (a direita tradicional e a classe dominante) precisam de Bolsonaro para fazer as reformas ultraliberais. Por isso, muitas vezes, “passam pano”, ou são omissos, com as atitudes/declarações autoritárias e fascistas de Bolsonaro. Cita o caso do presidente do Itaú, o qual afirma que declarações deploráveis de Bolsonaro “não atrapalham as reformas”.

Dilma explica que usa o termo “neofascismo” porque, diferentemente do fascismo clássico, do século XX, o atual não tem uma dimensão “nacionalista”, dada a hegemonia neoliberal no Brasil. Diz estar perplexa com as Forças Armadas, com sua ala nacionalista, pois “é forte e tem tradição no Brasil. Acho que essa parte está adormecida, que ela ressurge. Porque o desastre é imenso”.

Acho curiosa essa crença, nutrida por muitos na esquerda, acerca de uma “ala nacionalista” nas Forças Armadas. Pois, na atual quadra histórica, não parece haver uma base factual que a justifique. Não se viu declarações, documentos, movimentações e atitudes que possam conformar uma iniciativa ou movimento entre os militares com o intuito de contestar a aplicação do programa ultraliberal (com suas privatizações e desmonte de setores estratégicos do Estado brasileiro) e a subordinação da política externa brasileira aos EUA.

Aliás, nesta última semana veio à tona detalhes de ameaças feitas ao STF, pelo comando do Exército, às vésperas do segundo turno das eleições de 2018 visando assegurar as condições para eleição de Bolsonaro. Antes, já havíamos assistido às ameaças ao judiciário com vistas a manter Lula preso. Por fim, os militares estão com muito espaço no governo e tutelam cada vez mais diferentes esferas do Estado e da sociedade, sintonizados e sendo agentes da escalada autoritária que temos presenciado. Daí a incompreensão, minha, de que uma expectativa como essas possa ser alimentada.

A presidenta alerta para o modo como Bolsonaro e extrema-direita opera. A lógica seria a de destruir o Estado para construir outro. Isto significa liquidar com as regulamentações do trabalho, do meio ambiente, de proteção aos indígenas, dos instrumentos democráticos, da legislação social, de empresas públicas e de qualquer base que possa dar ao Estado capacidade “desenvolvimentista”. No seu lugar, entra um estado ultraliberal, autoritário e submisso aos EUA. Dilma não acredita que o impeachement seja a saída para atual situação. “Para colocar quem?” Pergunta ela. Reitera o ambiente golpista que levou a eleição de Bolsonaro e defende que o caminho são novas eleições e a libertação de Lula, o qual sofre de uma perseguição política agora escancarada com as revelações da Vaza-Jato.

Uma das interpretação que fiz da entrevista de Dilma, posso estar equivocado, é que ela entende que esquerda deve explorar, como elemento estruturador de sua tática, as contradições entre “as duas faces” da coalização golpista, de modo que se intensifique os conflitos a tal ponto que haja uma ruptura na coalização. Contudo, é bom lembrar, como ela mesma afirma, “eles” precisam do Bolsonaro. Essa parece ser uma questão importante para o debate no seio da esquerda, pois há avaliações e expectativas muito diferentes em relação ao tamanho atual e potencial dos conflitos na coalização golpista.  Na minha opinião parece haver expectativas superestimadas sobre esta possibilidade. Por outro lado, Dilma acredita que o caminho para sairmos desta situação não está colocado no curto prazo, devido à correlação de forças. Que não será uma corrida de tiro curto, mas sim uma maratona. Será necessário construir outras condições na sociedade.

 

Marcos Jakoby, militante petista.

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