Conferência nacional de formação do PT, democracia interna e Alckmin

Por Marcos Jakoby (*)

Entre os dias 11 e 13 de fevereiro, está acontecendo a etapa Nacional da Conferência “Paulo Freire” de Formação e Educação Política do PT.  No dia 12, participei de um dos grupos de discussão, que tinham como meta debater os pressuposto teóricos e metodológicos para um sistema de formação do partido.  Depois de muita confusão e atrasos, deu-se o início às discussões.

A apresentação do documento-base deu enfoque para as ideias de “partido educador e educando”, de que “todos [no PT] têm direito à fala e a escuta” e de que precisamos construir um partido democrático e militante.  Da parte dos integrantes do grupo, muitas falas na linha de que o partido precisa “retomar o trabalho de base”, “voltar às bases”.  Um comentário dos coordenadores dos espaços questionava como o PT poderia lidar com as suas contradições.

Na minha fala, e nos comentários que fiz, mencionei, entre outras questões, que é importante construirmos uma coerência entre aquilo que muitas vezes se prega para a formação política com aquilo que acontece na vida cotidiana do partido. Ou seja, se falamos que a formação política deve ter como objetivo fortalecer o caráter democrático e militante do partido, com capacidade de se contrapor à hegemonia cultural e ideológica das classes dominantes, estimulando o protagonismo das bases partidárias, esses pressuposto precisam também precisam ser construídos nas diversas dimensões da vida partidária. Do contrário, não haverá “comunicação” entre os objetivos da formação política e do partido de conjunto.

Nesse sentido, apresentamos algumas emendas. Uma delas tinha como conclusão de que “os participantes da Conferência Nacional de Formação reivindicam ao Diretório Nacional que abra o debate com as bases partidárias sobre nossa política de alianças e nomes para a vice-presidência para as eleições desse ano.”

A proposta caminhava no sentido das colocações que reforçavam a ideia de um partido que valoriza o debate, as bases e a democracia interna. Mas parece que bastou pautar-se um tema relevante na atual conjuntura para que esses pressupostos fossem relativizados (não houve consenso na emenda) e abriu-se um debate interessante, sobretudo nos comentários do grupo, sobre o tema Alckmin.

Duas afirmações demonstram a confusão política e ideológica que a busca pela conciliação com frações da elites são capazes de gerar na base do partido. Uma delas, mencionava que “não podemos ser sectários, podemos ser inclusivos ensinando humanismo a eles [a Alckmin]”.  De que Lula irá dar “aulas práticas dos excluídos e ele [Alckmin] vai aprender a respeitar o humanismo”.

Sim, há quem acredite (sinceramente ou não) de que, com algumas aulas, golpistas, neofacistas e lideranças do neoliberalismo podem se tornar democratas e humanistas. Então lembrei que Alckmin liderou governos tucanos marcados pela violência contra as demandas e as lutas populares, a exemplo do Massacre do Pinheirinho. Na sequência, um dos coordenadores do espaço fez a segunda afirmação que chamou muita a minha atenção.

Lendo o comentário sobre a violência dos governos tucanos de Alckmin, ele afirmou que em nossos governos também há contradições, como se fosse possível equiparar as duas coisas. Tipo assim, Alckmin cometeu erros como nós cometemos. Esquecendo que Alckmin e os tucanos lideravam, e lideram, um projeto que tem como objetivo, que tem como intencionalidade, que tem como “sistemática”, o massacre da população pobre e trabalhadora. E que isso não pode ser igualado, de forma alguma, a erros ou contradições de um projeto que tem como meta a ampliação de bem estar social da população.

Esse tipo de “degeneração” e de “revisão histórica” está em curso, em decorrência, entre outros motivos, de movimentos como esse de buscar uma aliança com Alckmin & assemelhados, agravado por não haver um debate apropriado na instâncias do partido, mas por fora delas. E onde a base tem como informação o que é divulgado pelo oligopólio da mídia, ao invés de ser parte importante do debate nos espaços e nas instâncias adequadas do partido. E não deixa de ser incrível como muitos abandonam o apelo “às bases” e  ” à democracia” na primeira divergência que incide sobre os rumos do partido.

(*) Marcos Jakoby é professor e militante do PT no Rio Grande do Sul

 

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