Foto: Said Khatib/AFP

 

Por Pedro Pomar*

 

As capas das edições de 15 de maio de 2018 da Folha de S. Paulo e do Estadão prestam-se a uma aula de jornalismo. Não, porém, pelas razões que se poderia supor. Prestam-se como tema de uma aula por condensar, nas suas manchetes e chamadas sobre os acontecimentos da véspera na Faixa de Gaza, todos os vícios de um jornalismo de mentalidade semicolonial, carregado de preconceitos e vieses contra o valente mas empobrecido povo palestino, que luta contra a maior potência militar do Oriente Médio: Israel.

O truque para maquiar o massacre de mais de meia centena de palestinos pelo Exército de Israel, num único dia, foi exatamente suprimir das manchetes a palavra “Israel”. Assim, na manchete da Folha, os palestinos aparecem como os únicos responsáveis pela própria tragédia: “58 palestinos morrem em confronto na faixa de Gaza”. O outro lado desapareceu?

Para saber-se com quem foi o “confronto”, e por quê, é preciso continuar lendo. Na linha fina, aquela frase com algum destaque situada entre a manchete e a respectiva chamada, o leitor fica sabendo (ou quase) o que ocorreu, afinal: “Embate com o Exército israelense ocorreu no mesmo dia da abertura da Embaixada dos EUA em Jerusalém”.

Ah, bom! Então houve um “embate” com o Exército israelense, o que supõe algum equilíbrio. A chamada, em corpo menor, procura arredondar as coisas: “Confrontos entre tropas israelenses e manifestantes palestinos no dia da abertura da Embaixada dos EUA em Jerusalém deixaram 58 mortos, todos palestinos, na fronteira de Gaza com Israel”. Repassemos. Os “confrontos”, sic, “deixaram” 58 mortos, e por coincidência “todos palestinos”. Todos. Somente no final da chamada é que se lê que “a ONU considerou desproporcional a reação das forças de Israel”, imediatamente seguida da afirmação deste país de que “o Exército apenas se defendeu”.

O Estadão, por sua vez, deu em manchetinha no alto da capa, sobre uma fotografia impressionante do ataque de Israel à multidão, aberta em cinco colunas: “Protestos em Gaza deixam 58 palestinos mortos”. Aqui, portanto, os palestinos deixam de ser o sujeito (como na manchete da Folha) e quem assume essa posição na frase são os “protestos”. Israel ou seu Exército? Nada.

Há que se ler a chamada, em corpo pequeno, para saber-se (ou quase) o que ocorreu: “Pelo menos 58 palestinos morreram ontem em confrontos com as forças israelenses na Fronteira de Gaza com Israel. Não houve mortes do lado israelense”. Um modo elegante, muito elegante, de dar a entender que houve algum desequilíbrio entre as partes, não? “Não houve mortes do lado israelense”.

Depois de informar que os protestos “ocorreram durante a inauguração da Embaixada dos EUA em Jerusalém”, que antes “ficava em Tel-Aviv”, o Estadão junta-se ao discurso de Israel: “Por meio de alto-falantes, representantes do Hamas, que governa Gaza, divulgaram o falso rumor de que a cerca na fronteira havia sido rompida”. Ah, bom! Então, se o Hamas está envolvido, e se divulgou um “falso rumor” (reportado pela correspondente do jornal em… Washington), a conta fecha, vale tudo!

Por fim, a chamada procura explicar em que consistiu esse “confronto” entre desiguais: “Manifestantes atiraram pedras e bombas incendiárias na direção dos soldados israelenses, que responderam com tiros”. Talvez a falta de espaço tenha impedido acrescentar, aos tiros, as bombas atiradas por Israel na multidão, visíveis nas fotografias publicadas.

Na capa do caderno internacional, o jornal repete a dose, ao manchetear: “Protesto contra embaixada dos EUA em Jerusalém deixa 58 palestinos mortos”. Foi o protesto o autor das mortes, não o Exército de Israel, certo? Maquiagem, portanto.

Mundo afora, a conversa foi outra. O Washington Post, por exemplo, não mediu palavras: “Israelenses matam mais de 50 palestinos em protestos em Gaza, dizem fontes oficiais de saúde” (“Israelis kill more than 50 Palestinians in Gaza protests, health officials say”). Citou já no título, como fonte, as autoridades palestinas.

Uma legenda que serve a uma série de fotografias registra: “Soldados israelenses mataram dezenas de palestinos que protestavam ao longo da cerca da fronteira”. O texto principal do Post menciona a “Marcha do Retorno”, omitida pelos jornais brasileiros, e assinala o caráter desproporcional da ação: “Nenhum soldado israelense se feriu”, “e Israel atraiu condenação generalizada por uso excessivo da força”.

A manchete do New York Times foi ainda mais clara e direta que a do Post: “Israel mata dezenas de pessoas na fronteira de Gaza, com a abertura da embaixada americana em Jerusalém” (“Israel Kills Dozen at Gaza Borden as U.S. Embassy Opens in Jerusalem”).

Portanto, para encerrar, voltemos ao início deste texto, quando dissemos que as capas da Folha e Estadão prestavam-se a um aprendizado sobre práticas jornalísticas condenáveis. Seus congêneres norte-americanos mostraram independência editorial muito maior. Post e NYT fizeram jornalismo ao contar aos seus leitores o que realmente aconteceu, ao passo que Folha e Estadão procuraram maquiar o crime cometido por Israel e seu Exército.

Quando trabalhei no jornal da noite da TV Gazeta, na década de 1980, tinhamos um colega, comentarista de assuntos internacionais, que emitia opiniões favoráveis aos palestinos. Não demorou para que a Federação Israelita fizesse lobby sobre o Banespa, nosso único anunciante, que entrou em contato com a emissora para que o comentarista suprimisse os pronunciamentos que tanto incomodavam os defensores da política de Israel.

Curvar-se a pressões desse tipo e escamotear aspectos cruciais dos acontecimentos em questão, alterando a percepção dos leitores (ou espectadores ou ouvintes) a respeito desses acontecimentos, é adulterar o jornalismo.

 

* Pedro Pomar é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação.

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