Por Antônio Augusto (*)

Capa do jornal EXTRA (dia 29)

Nesta quinta, 29 de outubro, a contragosto, contribuí com R$ 1,50 para o aumento da enorme fortuna dos irmãos Marinhos, donos das Organizações Globo – todos os três entre os 15 bilionários mais ricos do Brasil.

Comprei o pasquim deles, “Extra”, produzido no Rio de Janeiro, dedicado, na linguagem mercadológica dos “empreendedores”, às “classes B e C”.

Na manchete, a total falta de vergonha de uma mentira completa, capaz em grande parte de se desacreditar pela total falsidade:

“Saiba quais são os direitos do trabalhador temporário”

Com o antetítulo todo em maiúsculas: “VAGAS DE FIM DE ANO”

Na frase sob a manchete: “Quem conseguir uma oportunidade [oh!, que jornal “prestador de serviços”, exemplo de “modernidade jornalística”] para ajudar nas vendas de Natal [ah!, interesses comuns entre patrões e explorados, “somos um mesmo time”] precisa ficar de olho em algumas diferenças na hora da contratação, como a falta de estabilidade, entre outras. PÁGINA 11” [um grão de verdade, fiquemos de olho nesta coisa “natural”, “a falta de estabilidade”, o olho da rua a qualquer momento].

Comprei o imundo jornaleco para saber a que ponto pode chegar a capacidade de mentir. Mesmo como jornalista escolado, crítico e conhecedor de todas as artimanhas da podre imprensa burguesa brasileira (uma das piores do mundo), chegou até a me surpreender um pouco tal grau de manipulação numa manchete.

Talvez não devesse me surpreender do ponto de vista meramente racional, mas, felizmente, jamais perdi a capacidade de me indignar contra injustiças, apesar da onipresença delas no Brasil.

Comprei para tomar conhecimento da matéria e poder escrever contra tanta desinformação praticada da forma mais desenvolta.

E o que encontramos na página 11? Vamos saber “quais os direitos do trabalhador temporário”.

No alto da página 11, o título da editoria em letras vermelhas: “Ganhe Mais”. É ou não é um mundo de oportunidades?

“Ganhe Mais” SEM NENHUM DIREITO TRABALHISTA

Título da matéria: “Temporário: conheça seus direitos antes da contratação”

É realmente de um humor involuntário: “Direitos” só mesmo “antes da contratação”.

Por que o que ocorre durante a contratação?

Uma professora de Direito do Trabalho informa sobre direitos, mas nada é dito que são constantemente desrespeitados pelos patrões, e não são cumpridos: “o trabalhador temporário deve ter o mesmo salário dos efetivos”. Qualquer pessoa que arrumar um bico desses, e insistir nisso, simplesmente não será contratada.

“No entanto”, diz a professora, os contratados “não têm direito à multa de 40% [do salário do trabalhador, a ser paga pelo patrão] nem aviso prévio ao serem dispensados”.

O contrato, ela prossegue, é normalmente de 180 dias, podendo ser prorrogado por mais 90 [subemprego temporário], ou, como ela acrescenta, “não há um prazo mínimo de contratação” [ou seja, é o subemprego temporário com temporalidade mínima].

A ditadura dos patrões sobre as condições de emprego e trabalho desses assalariados precários é completa:

[Ora, vejam só]: “O empregado que for demitido não poderá prestar serviços para a mesma empresa antes de dezoito meses”.

“O empregado temporário também não possui garantia de estabilidade nem para casos de acidente de trabalho nem para gravidez”.

Isto é, são esses os “direitos” apregoados na manchete, ou estamos rumo à “naturalização” do trabalho escravo?

É a falsa alternativa de Bolsonaro, inimigo nº 1 dos trabalhadores e do povo brasileiro: superexploração máxima ou desemprego total.

Ora, não se trata de um problema, “incidentalmente” o texto do “Extra” “informa” esta “obviedade”: isso acontece porque “a Reforma Trabalhista [assim mesmo, com iniciais maiúsculas] alterou algumas regras para essa modalidade”.

Que “modalidade”? “O temporário”, que tem “direitos antes da contratação”.

Realmente é uma coisa “natural”, “boa” até, tão defendida pelo “jornalismo” da Rede Globo em todos seus telejornais, fechadinha com Bolsonaro e Paulo Guedes no que lhes importa: a intensificação sem limites da exploração do trabalho.

Veja mais “direitos”: empresas transnacionais como a TIM, ou grandes empresas como a Natura, reservam 50% das vagas de estágio (estágio = trabalho com baixíssima remuneração) para negros. Já na Danone, não há estágios para negros, mas “a seleção para “trainee” não exigirá inglês; que coisa magnânima: concede-se aos explorados poderem falar português no Brasil.

As Organizações Globo são permanentemente golpistas, incompatíveis com a democracia no Brasil, defensoras permanentes da exploração dos trabalhadores, e de sua opressão política, e cultural, entreguistas contra os interesses do Brasil. A matéria em questão do “Extra” apenas enfoca a partir de um assunto específico essencial tais objetivos permanentes da bilionária “famiglia” Marinho.

(*) Antônio Augusto é jornalista


 

(**) Textos assinados não refletem necessariamente a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13, sendo de inteira responsabilidade do autor.

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