Por Júlio Quadros (*)

O povo gaúcho foi as urnas para exercer o seu legítimo direito de falar sobre as privatizações no Rio Grande do Sul. E falar sobre as privatizações no Brasil.  Isto aconteceu nos dias 16 a 24 de outubro. A primavera da democracia mobilizou 90.265 pessoas que votaram presencialmente e através de plataforma e disseram na sua grande maioria, mais de 96%, não à política de privatização do governador Leite, disseram não à retirada da Constituição do direito do povo ser consultado sobre a privatização da CORSAN, Banrisul e PROCERGS.

É um dado importante,  pois desmascara o conteúdo e método de um dos pré-candidatos tucanos. Conteúdo porque mostra que Leite tem uma visão tradicional de Estado liberal, que deixa os negócios na área da infraestrutura logística e social, na área financeira e das novas tecnologias nas mãos dos interesses privados. Ao Estado para Leite basta cuidar, e geralmente mal, de educação, saúde e segurança. Neste aspecto, o programa de Leite é o mesmo de Guedes. Sim, Guedes, pois este é o estrategista da confiança do mercado.

Do ponto de vista do método, mostra o apego de Leite à democracia formal e representativa. Ao retirar da Constituição a obrigatoriedade de consulta à população para esta aprovar ou não a privatização das empresas estatais, Leite mostra o desprezo pela democracia participativa. Para Leite, na prática, basta o povo votar de quatro em quatro anos e estará tudo bem.

Portanto, o debate com os presidenciáveis aqui no RS, deve ir além do combate ao autoritarismo, do combate ao fascismo, deve ir além da análise da postura de cada um no episódio dramático da pandemia, deve entrar nos temas da economia e do papel do Estado e a quem este deve servir.

O senador Luis Carlos Heinze do PP e o Ministro Onix (até agora DEM) vão representar fielmente e disputar o eleitorado bolsonarista no RS.  Serão a expressão clara e nítida deste projeto, até porque aqui o peso do agronegócio é muito grande. As diferenças com a terceira via serão no campo do debate do “Estado Democrático de Direito”, dos bons costumes e do enfrentamento à pandemia. Terão unidade plena no tema do papel do Estado, no papel da economia e na abordagem dos problemas sociais e criminalização dos seus agentes.

Os nomes no estado, com referência na “terceira via” nacional, encontram atualmente dificuldades. Bolzan do PDT, que era cotado como candidato ao governo do Estado, hoje  está enfraquecido e por consequência não ajuda Ciro a alavancar a sua pré-candidatura presidencial; já o governador Leite tem densidade, segundo as pesquisas,  caso seja candidato à presidência. Será um adversário com força eleitoral, mas com profundas contradições programáticas. Caso não seja candidato, sua capacidade de transferência de votos para o seu candidato presidencial e ao governo do Estado será imponderável. Por fim, o PMDB busca compor um campo com Leite e o PSDB, sem ter o seu nome ainda. Portanto, Leite será o principal nome da terceira via no RS, sendo candidato ou não à presidência.

A esquerda deve ter em Edegar Pretto, do PT, o principal palanque e apoio à candidatura do Presidente Lula. Existem outras duas situações que devem ter desdobramentos. Primeiro o nome que o PSB está apresentando, do ex-deputado federal Beto Albuquerque, que na fala expressa compromisso com a candidatura Lula, por conta do acordo nacional, e que pode participar de uma composição aqui no RS. Tem também o nome do PSOL, vereador Pedro Ruas, que já manifestou concordância em estar num campo com o PT. O melhor para a esquerda seria uma composição que envolvesse estes partidos e o PCdoB, de Manuela D’ávila, e todos afinados com a candidatura Lula, pois criaria uma alternativa aqui no RS em condições de disputa real e de sustentação a Lula.

Muita água vai rolar debaixo deste moinho, mas no começo da primavera a polarização se dá em torno do nome de Lula e do cavernícola, com uma possibilidade de força eleitoral da terceira via, caso Leite seja o candidato tucano.

(*) Júlio Quadros é dirigente do PT gaúcho e do Diretório Nacional do PT

 

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