Por Valter Pomar (*)

Lincoln Secco, professor da USP, escreveu um artigo intitulado “O que aconteceu com aquele PT?”

O texto está disponível em vários lugares, entre os quais:

https://aterraeredonda.com.br/o-que-aconteceu-com-aquele-pt/

O texto faz uma análise crítica acerca da trajetória do PT, o que é ótimo. Mas adota uma chave de interpretação que na minha opinião não consegue captar adequadamente como “aquilo” deu “nisso”.

Não parece ser assim, porque o estilo de Secco envolve grudar uma descrição as vezes pitoresca com uma conclusão lacradora, passando a impressão de que uma coisa decorre da outra. É assim no seu artigo e também no seu livro, que se chama (mas não é) História do PT.

Vou dar um exemplo do que critico: “Sintomático da falta de ideias, é que a geração de dirigentes sindicais ou da luta armada foi gradualmente derrubada pelos escândalos do mensalão e a operação lava jato. Dirigentes históricos como José Dirceu e José Genoíno foram substituídos não por jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda, mas por burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais locais. A direção de ex integrantes dos sindicatos e das organizações da luta armada cedeu lugar a outra. Não por acaso, alguns dos principais formuladores da CNB exerceram um mesmo cargo: a secretaria de finanças, através da qual se fazia a interface da direção nacional com as doações empresariais para campanhas e a distribuição de verbas do fundo partidário público. O PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros”.

Comecemos pelo final: “Não por acaso, alguns dos principais formuladores da CNB exerceram um mesmo cargo: a secretaria de finanças, através da qual se fazia a interface da direção nacional com as doações empresariais para campanhas e a distribuição de verbas do fundo partidário público. O PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros”.

Quem foram os tesoureiros do PT, desde 1995 até hoje? Cito de memória, correndo o risco de esquecer de alguém:  Clara Ant, Delúbio Soares, José Pimentel, Paulo Ferreira, João Vacari, Emidio de Souza, Marcio Macedo. Hoje é Gleice Andrade. Nenhum desses pode ser enquadrado na categoria “principais formuladores da CNB”. Por outro lado, a maioria deles teve uma larga trajetória política e sindical antes de virarem tesoureiros do PT. Falar que “o PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros” é uma desqualificação que não ajuda a compreender por qual motivo o controle das finanças ganhou uma importância tão grande em um partido de trabalhadores, a tal ponto do grupo majoritário – entre 1995 e 2021 – nunca ter aberto mão da tesouraria.

Vejamos agora a primeira parte: “Sintomático da falta de ideias, é que a geração de dirigentes sindicais ou da luta armada foi gradualmente derrubada pelos escândalos do mensalão e a operação lava jato. Dirigentes históricos como José Dirceu e José Genoíno foram substituídos não por jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda, mas por burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais locais. A direção de ex integrantes dos sindicatos e das organizações da luta armada cedeu lugar a outra”.

Que está em curso uma transição geracional no PT é inegável. Aliás, inegável e inevitável. E que uma parte dos novos dirigentes seja de “burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais”, também é inevitável em um partido que governou o país entre 2003 e 2016. Não há como comemorar nossa presença nos governos e achar que isso não teria implicações diversas, inclusive mudar a experiência primeva de nossos quadros dirigentes. Agora, achar que no contexto histórico que estamos vivendo “jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda” seriam qualitativamente superiores aos “burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais” é pura ilusão (compreensível, mas errada assim mesmo). Mas a maior ilusão é a referência feita a Dirceu e Genoíno, que a mim soa como éramos felizes e não sabíamos….

Entretanto, o mais importante é que não foram as “ideias”, nem foi a “falta de ideias” que explicam o ocorrido com o PT. Nem é verdade que hoje não haja “ideias”. Houve escolhas políticas, as vezes muito bem fundamentadas, que contribuíram para determinados desfechos.

Resumidamente: a história deste processo não pode ser simplificada. Aliás, foram simplificações deste tipo, mas no caso acerca do movimento comunista, que fizeram alguns dirigentes do PT acharem que estavam imunes às consequências de determinadas opções políticas.

Quando falo de simplificação, refiro-me a frases como: “É de certa maneira o mesmo partido conciliador que venceu quatro eleições presidenciais no século XXI, cuja direção envelheceu agarrada a cargos e desapegada de ideais e sofreu um golpe de Estado em 2016”. O problema não foi o envelhecimento, nem o apego a cargos ou o desapego a ideias; quer estes problemas existam ou não, o problema principal sempre foi a linha política. E este “detalhe” fica soterrado pela retórica.

Como luta interna, digamos assim, pode ser útil dizer algo assim: “como um cadáver adiado, esse grupo que hoje parasita a história do PT e consome seus últimos recursos simbólicos, manteve-se intacto em sucessivas disputas internas porque ainda tinha resultados eleitorais para entregar ao seu séquito. Afinal, sob a política de acomodação no poder o PT ganhou quatro eleições e tudo parecia ir muito bem”.

Mas como história, não soa bem. Por exemplo: a CNB teve maioria absoluta ou relativa em todas as disputas internas entre 1995 e 2019. Isso não ocorreu porque eles tinham “resultados eleitorais para entregar ao seu séquito”. O processo é muito mais complexo. Chamar milhões de pessoas (pois foram e são milhões) que confiaram na política proposta pelo “campo majoritário” e depois proposta pela “CNB” de “séquito” é reduzir a base do PT a uma clientela. Não é assim, simplesmente não é assim. Aliás, foi por acreditar neste tipo de interpretação que algumas pessoas saíram do PT, para depois descobrir que o PT não saiu delas.

Enfim, não vou glosar frase a frase o texto de Lincoln Secco; há passagens com as quais estou de acordo, há conclusões que me parecem acertadas, mas como escrevi antes, o conjunto da obra não ajuda a compreender como aquilo deu nisso.

Concluo chamando a atenção para uma passagem em que Lincoln diz que “não cabe a um intelectual definir o que a esquerda deve fazer e muito menos os capas pretas petistas”. Acontece que Lincoln faz isso o tempo todo no seu texto, explicita ou implicitamente. Ele chega até a classificar quem seria de esquerda e quem não seria. Na verdade, o artigo de Lincoln é o de um participante da luta interna do PT, mas que não quer ser visto nem julgado como um participante da luta interna do PT. Para evitar isso ele se refugia na categoria de “intelectual”, um esconderijo paradoxalmente convencional para quem concorda com o que diz Gramsci acerca dos intelectuais.

Um exemplo de luta interna disfarçada de análise de um “intelectual”: “A esquerda partidária nunca foi uma ameaça à CNB. Quando eu escrevi a História do PT em 2010, ainda parecia correto falar em esquerda e direita do partido. Hoje é diferente. Há petistas de direita e de esquerda. Essa é uma mudança resultante da fragilidade organizativa do partido, mas também da sua hegemonia no campo democrático popular. Pois de outra maneira não se entenderia por que um político petista ataca o próprio partido mas não abandona a legenda do PT. Tal personagem “fictício” não é da “direita do PT”. Ele é mesmo de direita, talvez do centro, e provavelmente social liberal e democrata. De novo cumpre lembrar que não se trata de ataque a uma pessoa específica, que deve pensar de si mesma outra coisa. Trata-se de uma caracterização das suas opiniões e ações públicas”.

Eu não sei se entendi direito o que está escrito acima. Do que entendi, sou de opinião que a expressão “nunca foi” é incorreta. Mas o que me preocupa é a decorrência disto. Se for verdade a afirmação de Lincoln, então os problemas vividos pelo PT ou não serão superados, ou serão superados através de um impulso que venha da própria CNB. Mas ao mesmo tempo Lincoln diz ser necessário “derrotar os novos capas pretas (como eram chamados os caciques partidários pelos militantes). Para isso seus opositores precisariam de duas coisas: um projeto radical para o país e a capacidade de impor medo à direção”. Pode-se concordar ou discordar, mas não consigo entender como falar isso e ao mesmo tempo falar que não cabe a um intelectual definir o que a esquerda deve fazer e muito menos os capas pretas petistas”.

Um comentário final. Lincoln afirma que “A esquerda precisa estabelecer seus objetivos estratégicos. Já que não é revolucionária, ela será uma esquerda social democrata de verdade”. Esta frase é um resumo genial do erro cometido por uma parte da velha Articulação, do Campo Majoritário e da CNB. Na vida real, o único jeito de ser uma “esquerda social democrata de verdade” é ser revolucionário. Foi por não entender isto que uma parte do PT nos empurrou para a situação em que estamos. Portanto, o conselho de Lincoln equivale a um “continuem errando”.

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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