Por Pedro Pomar (*)

Camaradas,

Acabo de tomar conhecimento da morte do companheiro Cloves Castro, o que é para mim motivo de profunda tristeza e dor. Não me lembro bem quando nos conhecemos, mas com certeza há mais de vinte anos, e nos tornamos amigos quase que imediatamente. Uma amizade quase cúmplice, temperada por nossas visitas a restaurantes e botecos, quando batíamos longos papos sobre política, regados por garrafas de Gato Negro, caipirinhas, chopp ou cerveja. Muitas vezes acompanhados de outros dois companheiros, Ricardo Menezes e Sílvio Aragusuku.

Ele gostava de ir ao “Demorô”, bar na Vila Mariana onde comíamos costelinha de porco e tomávamos caipirinha de lima-da-pérsia (e umas cervejinhas). Sílvio esteve conosco em várias dessas ocasiões, em que normalmente nos divertíamos muito. Depois pegávamos o metrô para voltar para casa: ele descia na Saúde para pegar um ônibus, e eu prosseguia até a Conceição. Nesse trajeto, quando não estávamos muito cansados, continuávamos conversando, trocando opiniões ou fazendo piadas.

Cloves Castro era um lutador social, e mais que isso, era um revolucionário. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, depois, da Ação Libertadora Nacional (ALN), a dissidência do PCB liderada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira que optou pela luta armada como forma de resistência. Cloves foi preso e torturado pela Ditadura Militar. Não passou informações nem desistiu da luta, pelo contrário.

Quando o monumento em homenagem a Marighella foi inaugurado na Alameda Casa Branca, na capital paulista, em 1999, Cloves e eu, com a ajuda de algum companheiro de quem não recordo neste momento, saímos colando adesivos com a inscrição “Alameda Carlos Marighella” nas placas de identificação dessa via. Creio que esta aventura de agitprop foi um momento importante da nossa amizade.

Militou na Oposição Metalúrgica de São Paulo, perfilando-se entre aqueles que combatiam o peleguismo de Joaquinzão e a repressão ditatorial. Esteve entre os líderes da greve de 1978, retratada pelo belo documentário “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”, de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo. Em dezembro de 2008 foi lançado um DVD que trazia, além do filme, entrevistas com os protagonistas da greve, entre eles Cloves. Convidado por ele, estive presente ao lançamento e assisti ao debate que contou com a participação de Gervitz, Evaldo Mocarzel, Amir Labaki, Waldemar Rossi e Cloves.

Creio que ele se identificou profundamente com a Articulação de Esquerda, porque foi um grupo em que pôde conjugar sua combatividade de militante de base com seus princípios marxistas aprendidos nos tempos do PCB, que sempre manteve. Tornou-se um militante petista de primeira linha. Tinha uma impressionante clareza sobre a dinâmica dos processos eleitorais e uma grande energia, que o levou a sair candidato a presidente do Diretório Municipal de São Paulo, no PED de 2019, aos 80 anos de idade.

Perdemos um grande companheiro. Devemos nos conformar pensando que ele nos deixa um formidável exemplo de luta e vitalidade revolucionária.

Comandante Cloves Castro, presente!

(*) Pedro Pomar é jornalista

Comente!