Por Fausto Antonio (*)

Os movimentos negros, de modo especial após 1978, se apresentam como antirracismo e/ou como movimentos negros que lutam pela superação das desigualdades raciais.  O que não é pouco para o movimento social negro, que carrega a herança da escravização criminosa, do racismo persistente e da opressão policial genocida.

Falo explicitamente dos movimentos negros (ou setores) à esquerda. Notadamente os movimentos negros, mesmo os setores mais conservadores, não se intitulam identitários.  As identidades negras são meios pelos quais os movimentos negros ou setores encruzilham, num mesmo movimento, raça, classe e território. Mas existem outras formulações; e o fato, de modo hegemônico, de os movimentos negros lutarem contra as desigualdades raciais é uma base, que não deve ser desprezada.

Além desse ângulo de compreensão, devemos considerar que há, a rigor, identidades negras, e elas são múltiplas e são históricas. Quero negritar que as identidades negras são respostas reais, materiais, imateriais, corpóreas, políticas e socioespaciais às estruturas racistas e, por igual necessidade, às identidades totalitárias racistas impostas pela branquitude brasileira e pelo imperialismo.

Existe uma organização e há igualmente uma identidade racial branca nos processos de exploração dos continentes, dos países pobres e em desenvolvimento.   A branquitude, os privilégios para brancos em nível mundial e nacional, deveria ser o alvo central da luta contra o racismo. A branquitude é uma das bases estruturantes do imperialismo e, no caso brasileiro, da burguesia nacional brancocêntrica, racista e classista. O identitarismo branco é algo sobrenatural na percepção de muitos marxistas de gabinete e/ou do marxismo tido como dogma.

O branco sujeito universal, que é o pilar da supremacia racista, impede ou fecha os olhos daqueles e daquelas que são adestrados para enxergar apenas as identidades negras em movimento, conflito, luta e embates com a branquitude que não se vê e não é vista, inclusive por certos marxistas, como base corpórea e de poder do sujeito étnico branco.

“Os identitários”, classificação arbitrária e de gabinete, coloca num mesmo lugar identidades negras múltiplas e historicamente construídas, vividas, vivenciadas, modificadas e revolucionadas em oposição à branquitude totalitária existente e persistente no Brasil.  O uso preguiçoso e brancocêntrico da tarja branca generalista, “o movimento negro identitário,” carrega e mobiliza a clara intenção, no caso específico dos movimentos negros e da sociedade brasileira, de inibir e anular a discussão de raça, racismo e da identidade branca “universal”; universalizante, que é o motor dessa política.

A bandeira do anti-identitarismo é usada para tudo. Ela é um escudo do branco sujeito “universal”; sem cor ou raça, à direita e à esquerda. É bem ilustrativa as críticas absolutamente corretas, por exemplo, a setores do movimento negro que se contentam com a simples representação nos limites da sociedade racializada e de classes. A crítica é correta aos movimentos ou setores dos movimentos negros que ficam apenas na ordem estabelecida, nos cargos decorativos e como negros decorativos.  O conceito ou chave interpretativa negro ou movimento negro identitário não se aplica, no entanto, e é reducionista, aos casos apresentados acima.

Não há possibilidade de inclusão de negros (as) nos limites do capitalismo, sem dúvida.  Sendo assim, é bem mais fácil e produtivo dizer que são negros (as) e movimentos negros da ordem, decorativos, colaboracionistas e tantos outros termos que expressam a necessidade de um movimento negro radical e revolucionário.

Sem tocar nos privilégios para brancos (as), os negros, as mulheres negras e seus movimentos são caracterizados pelo universalizante identitarismo branco de identitários. É o que dizem certos identitários da branquitude.  Ninguém ousa, relevando que o conceito é defendido por alguns marxistas, caracterizar os movimentos anti-cotas; aqueles que defendem os privilégios para brancos (as), de identitários.   O golpe de 2016 não foi e é uma produção do identirarismo branco empiricizado pelos privilégios assegurados pelo imperialismo e pela burguesia branca brasileira?

Há, subjacente ao uso da tarja branca “os movimentos negros identitários”, a ordem totalitária da branquitude para inviabilizar e apagar a corporeidade negra, base da identidade negra, e igualmente das categorias raça e racismo. O movimento identitário branco é muito atento, maquiavélico, perverso e não é por menos que constitui e comanda as duas estruturas do processo de opressão, ou seja, a burguesia brasileira e o imperialismo.

(*) Fausto Antonio é  escritor, poeta, dramaturgo e professor da Unilab – Bahia


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Este post tem um comentário

  1. Paulo Sérgio de Proença

    Mais uma reflexão serena, inteligente e revolucionária de Fausto Antonio. Não há lugar para negras e e negros na ordem da branquitude.

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