Por Natália Sena (*)

Não vejo ninguém questionar que a prisão de Fabrício Queiroz foi uma espécie de marco para uma mudança na forma como se posiciona o governo Bolsonaro, que passou a ser mais, digamos, “contido”, em certos aspectos. Isto vai desde a redução das aparições no “cercadinho” do Planalto, onde diariamente barbaridades eram ditas e repercutidas fartamente; até a criação de uma intimidade maior com o chamado “centrão” e uma preocupação em se desvincular dos ataques contra o STF e o Congresso, o que não por acaso veio junto do arrefecimento dos atos públicos que pediam intervenção militar e fechamento dessas instituições.

Mas essa aparente busca pela estabilização política por parte do governo fraudulento não pode jamais ser assimilada como uma redução nos ataques cotidianos aos direitos da classe trabalhadora, às liberdades democráticas, a soberania nacional e a própria existência de uma oposição de esquerda. Muito pelo contrário. O que está se desenhando é um ambiente onde o momento de maior fragilidade do governo aparentemente e ao menos por enquanto foi superado, e uma espécie de “acordo por cima” está em curso, o que pode ter como consequência um avanço dos ataques ultraliberais e neofascistas.

Este “acordo por cima” inclui a manutenção do presidente no cargo, o que é reforçado pelas recentes declarações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao programa Roda Viva, quando afirmou que não haveria crime de responsabilidade que justificasse o impeachment de Bolsonaro. E inclui também o prosseguimento da aplicação do programa ultraliberal, com a retomada do debate sobre as reformas numa perspectiva de ajuste, mesmo antes de a pandemia dar sinais de arrefecimento; e a adoção de medidas mais duras no que diz respeito à perseguição contra os opositores, do que é exemplo a elaboração de um dossiê pelo Ministério da Justiça, onde policiais identificados com o movimento antifascista são monitorados sem que se saiba com qual finalidade e de quê exatamente estariam sendo acusados.

Ao mesmo tempo, a oposição se vê diante dos dilemas e contradições decorrentes da opção por concentrar a maior parte dos esforços no combate contra Bolsonaro na luta parlamentar, eleitoral e nos poucos governos estaduais e municipais que lideramos. O maior emblema dessas contradições é o efeito político concreto causado pela aprovação e implantação do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600,00 para os trabalhadores informais. Vitória da pressão feita pela oposição no parlamento, o benefício começou a ser pago pelo governo em abril e, mesmo com imensos problemas para chegar efetivamente nas pessoas, é hoje a principal política pública de sustentação do apoio popular à Bolsonaro, inclusive na região

Nordeste A constatação de que é importante segurar este apoio está levando inclusive a elaboração de um programa permanente (Renda Brasil) que tem como objetivo consolidar esse apoio e suplantar a popularidade do Bolsa Família. Elaboração que, inclusive, é liderada por Paulo Guedes, ministro da Economia, defensor ferrenho da agenda do mercado e ultraliberal, mas aparentemente o ministro mais empenhado em garantir a reeleição de Bolsonaro, se tomarmos como base a famosa reunião ministerial de 22 de abril.

Ou seja, mesmo diante de todo o desmonte realizado no pré-pandemia, da desastrosa (e porque não dizer inexistente?) política de enfrentamento ao Covid-19, dos fortes conflitos com aliados (Moro, Operação Lava Jato) e instituições controladas pela direita (STF, parlamento), o governo Bolsonaro está demonstrando resiliência suficiente não apenas para seguir no comando, mas para seguir no ataque, na ofensiva.

Diante disso, segue martelando a questão: o que devemos fazer para construir uma oposição política e social de esquerda, que esteja à altura não apenas de resistir, mas de derrotar este projeto? Além de não subestimar a força popular que o bolsonarismo conseguiu conquistar e desenvolver um trabalho político cotidiano de disputa de consciência da classe trabalhadora para o nosso lado, é fundamental que a esquerda compreenda de forma cabal e definitiva que não é através da prioridade da luta institucional que os ataques liderados por Bolsonaro e Guedes serão derrotados.

Isto não significa que vamos deixar de fazer e de lutar para vencer a disputa eleitoral, mas sim reforça a necessidade vital que temos de alterar nosso modo de funcionamento para se reconectar com a classe trabalhadora e, até do ponto de vista eleitoral, criarmos as condições para voltar a ter vitórias em favor do projeto das maiorias. Evidentemente, uma das decorrências fundamentais desse raciocínio é que, para fazer frente aos ataques de Bolsonaro e Guedes, precisamos recolocar no front da disputa a única liderança popular capaz de derrotar a radicalidade do projeto da extrema-direita. Por tudo isso, é imprescindível que sejamos vitoriosos na luta pela recuperação dos direitos políticos de Lula e a sua presença, como candidato a presidente, nas eleições nacionais de 2022 ou antes, seja garantida.

(*) Natália Sena, advogada e integrante da comissão executiva nacional do PT

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