Por Varlindo Nascimento (*)

BRASÍLIA, DF, 05.04.2020: (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Na última semana Jair Bolsonaro e uma miríade de lideranças religiosas evangélicas mobilizaram as suas militâncias fundamentalistas convocando-as para “um dia de jejum e oração contra a praga do Coronavírus”. Não se trata de uma ação meramente religiosa, nem tão pouco de uma atitude desesperada de quem tem sofrido perdas importantes na sua base de apoio.

É nítido que a aposta de Bolsonaro em ir na contramão do mundo na gestão da pandemia por Coronavírus lhe custou parte importante do apoio que o trouxe até aqui. Mesmo que sua política esteja em acordo com o grosso da burguesia no que diz respeito à pauta econômica e na contraposição à Lula e ao PT, a postura do presidente e de seu séquito familiar causou uma ruptura difícil de ser recomposta com grande parte desse setor.

Existe hoje, a grosso modo, uma divisão do eleitorado brasileiro em três partes muito próximas quantitativamente. Numa ponta está o que convencionou-se chamar de bolsonarismo, na outra o campo da esquerda, majoritariamente petista/lulista, e no terceiro polo o fiel da balança, aqueles que formam sua opinião a partir de interesses mais pessoais e imediatos, seguindo normalmente o receituário da grande mídia. Na eleição passada, por exemplo, o reforço ao antipetismo foi muito mais evidenciado do que o risco de caminharmos para um regime de tipo fascista, o que levou a maior parte desse eleitorado a apostar suas fichas na candidatura de Bolsonaro.

O ponto importante é que essa terça parte flutuante hoje não aparenta mais fazer parte do lastro político do bolsonarismo, o que não quer dizer que ela migrou para o nosso campo. Porém, este cenário coloca sob risco a manutenção do governo, considerando que a burguesia calcula obviamente com a possibilidade de retirá-lo do cargo para levar adiante seu projeto em águas mais calmas.

Tendo em vista o conflito que Bolsonaro conseguiu capitalizar com o oligopólio da mídia, com quase todos os governadores e com a maioria do parlamento, além das desavenças com o ministro da saúde, o silêncio quase absoluto de Sérgio Moro, a postura dissidente de parte do judiciário e a tutela cada vez maior imposta pelo generalato, o presidente inteligentemente acena para a sua militância mais fiel e que age a partir de princípios que correm num plano a parte de qualquer pensamento racional.

É claro que as lideranças religiosas que mobilizam as massas que estão sob seu controle não agem fora de um cálculo racional e seguro a seus interesses, mas elas jogam com a fé e a disposição inconsciente dos seus militantes. E é no sentido de trazer cada vez mais para perto de si esse contingente que foi feita a convocação para o “dia de jejum e oração” realizado durante toda a semana. É um sinal de que Bolsonaro e seus pastores dobraram a aposta e demonstram que vão até o fim com ela.

O que acontece a partir disso é de difícil previsão, considerando que a solução real para o problema não é do interesse de que quem o criou, e que hoje quer apenas contorná-lo. Eleições livres para superar a fraude de 2018 não estão na ordem do dia da burguesia. A esquerda ainda titubeia no entendimento sob de que forma deve atuar neste cenário, compreendendo que um passo errado seu pode servir mais para perpetuar esse estado de coisas do que para recuperar a democracia e voltar a melhorar a vida do povo pobre e trabalhador. Aparentemente só o bolsonarismo tem definido o que quer e de que forma agir. Se a sua escolha tiver sucesso podemos nos preparar para tempos de obscuridade extrema. Se der errado, é provável que só lhes reste o suicídio político coletivo.

(*) Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho, graduando em História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas.

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