Por Thais Reis Oliveira / Carta  Capital

Deputado Eduardo Bolsonaro aconselha-se com o pastor RR Soares. Foto: redes sociais

Rede ligada ao presidente não está satisfeita apenas com WhatsApp e redes sociais

Em fevereiro, enquanto o Brasil brincava o Carnaval sem se ater à chegada da epidemia mais feroz do século, o deputado Eduardo Bolsonaro aproveitou a folga para fazer uma viagem aos Estados Unidos. A primeira parada, no dia 23, foi na sede da Christian Broadcasting Network, na Virgínia. Um conglomerado cristão multimídia criado pelo teleevangelista Pat Robertson no fim dos anos 1960. O primeiro programa foi ao ar graças a uma vaquinha de 700 espectadores. Nas décadas seguintes, a rede se tornaria peça-chave da incursão dos evangélicos na política. O pastor incentivou as guerras culturais dos anos 1980 que se estenderam ao longo do tempo. No passado, foi grande amigo de Ronald Reagan. Agora, é próximo de Donald Trump. Uma reportagem do site de notícias Politico publicada em 2018 classificou a CBN como uma porta-voz mais aguerrida do presidente do que a Fox News.

Impressionado com a visita, o filho 03 do presidente Jair Bolsonaro fez paralelos com o Brasil. “Um verdadeiro império cristão conservador que abrange rádio, tevê e universidade. É exatamente o que precisamos no Brasil para transformar o tsunami de 2018 numa onda conservadora permanente”, escreveu, no dia seguinte, em sua conta do Twitter.

Não foi mera bravata de político. Pouco tempo depois, o deputado procurou a figura mais parecida com Pat Robertson no Brasil, o pastor Romildo Ribeiro Soares, o RR Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus e dono de emissoras de rádio e tevê evangélicas. Ouvido no inquérito que apura a organização e o financiamento de atos antidemocráticos, em julho, Soares contou à Polícia Federal que Eduardo o procurou para alugar uma emissora de rádio em São Paulo e disse ter um “amigo interessado no negócio”.

A radiodifusão também foi assunto entre Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação Social do governo, e Otávio Fakhoury, dono de imóveis convertido em militante bolsonarista. Fakhoury é apontado como um dos financiadores da rede de fake news do “gabinete do ódio” e é um dos 29 acusados no inquérito que apura ataques ao STF.

As mensagens acima mencionadas foram descobertas pela PF, que apreendeu, em junho, o celular do rentista. Nas mensagens trocadas com Wajngarten por WhatsApp, Fakhoury falava da necessidade de comprar uma rádio simpática ao governo, e dizia ter um grupo de empresários disposto a “financiar a aquisição”.

Segundo o próprio Fakhoury admitiu posteriormente, a locação de um espaço no rádio se tornou bandeira de um grupo pró-Bolsonaro liderado por ele. E contemporizou: “Um investimento em uma rádio conservadora (sic) é desejo legítimo, natural, legal e moral que, se levado adiante, será realizado com recursos próprios e privados. Não sei por que tanto barulho por conta disso. Será pelo fato de que, por este meio, poderemos oferecer aos ouvintes a informação e análise sem o viés tendencioso presente em boa parte da mídia atual?”

Conversas de bastidores? Não só. Entre março e abril, Bolsonaro liberou o funcionamento de 440 rádios comunitárias. Embora a maioria dos pedidos tenha sido herdada do governo Temer, chama atenção a disposição do ex-capitão. Durante a campanha de 2018, sua entourage via as rádios comunitárias como “focos petistas” que serviam para divulgar ações de políticos ligados ao partido. Segundo dados da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias, um quarto dos municípios não possui nenhuma estação.

A fila pela regularização é enorme e, diante da morosidade, muitas operam na ilegalidade. Nesta situação, são mais suscetíveis à pressão política e ao poderio das igrejas. O governo Dilma chegou a lançar um Plano Nacional de Outorgas que previa, até o fim do ano de 2019, que todas as regiões do Brasil tivessem ao menos 70% dos seus municípios abrangidos por rádios comunitárias. O projeto foi engavetado no governo Temer e ainda não tem substituto. A falta de diretrizes facilita o toma lá dá cá. “Sem um plano, perdemos o controle de quem está disputando essas autorizações”, diz Geremias dos Santos, presidente da Abraço.

Eduardo Bolsonaro sonha com um conglomerado nos moldes da Christian Broadcasting Network, fundada nos EUA pelo pastor Pat Robertson

Essa guinada à radiodifusão é recente. Reservadamente, interlocutores admitem que, conforme avança o inquérito do STF e a CPMI das fake news, fica claro que não bastam o WhatsApp e as redes sociais. O bolsonarismo sonha com uma linha direta com o público. “Eles sempre acharam que só a internet resolveria. Perceberam que estavam errados”, diz um ex-marqueteiro do PSL.

O apoio das tevês e das grandes emissoras de rádio custa caro: juntas, Record e SBT receberam no ano passado 26,8 milhões de reais do governo. E é incerto: a Record pleiteia o apoio do governo à eleição de Marcos Pereira, do PRB, presidente da Câmara e de Celso Russomanno prefeito em São Paulo. Por isso, as AMs e FMs despontam como opções mais viáveis. Segundo um estudo do Kantar Ibope Media divulgado em setembro, 78% dos brasileiros ouvem rádio. Destes, três em cada cinco o faz todos os dias. A média diária ultrapassa as três horas.

A chegada do deputado Fábio Faria ao Ministério das Comunicações, em julho, tem dado ritmo às mudanças. O primeiro decreto do ministro liberou a expansão do sinal das FMs no interior dos nove estados que compõem a Amazônia Legal. A primeira chamada atende a 232 pedidos de canais, que levarão o serviço a 183 cidades que ainda não possuem FM.

Embora seja mais conhecido como genro de Silvio Santos, Faria é do ramo da radiodifusão: é herdeiro de uma rádio AM no interior do Rio Grande do Norte. O pai, Robinson Faria, é ex-governador do estado. De acordo com um levantamento do Intervozes de dois anos atrás, 20 deputados federais e seis senadores congressistas controlam diretamente outorgas de rádio e televisão. A maioria compõe partidos do Centrão.

Nessa toada, anda em baixa a sanha de privatizar a Empresa Brasil de Comunicação, a EBC. Há um ano, o governo unificou a programação da rede com a da NBR, criada durante o governo FHC para divulgar as ações e agendas do Poder Executivo, dando origem a uma fusão batizada de Nova TV Brasil. Sob a chefia do general Luiz Carlos Pereira Gomes, a sociedade civil e os funcionários têm perdido espaço e filiais foram extintas.

A emissora tem sido usada ainda para produzir conteúdo de interesse das Forças Armadas, a exemplo dos programas “Fortes do Brasil” e “Faróis do Brasil”. Além disso, o material em vídeo gravado com o maquinário da emissora se espalha com facilidade com o apoio de canais bolsonaristas do YouTube, em especial no Norte e no Nordeste. Um dos mais famosos deles, o Foco do Brasil (ex-Folha do Brasil), tem 2,2 milhões de inscritos.

(*) Publicado originalmente em Carta Capital

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