Por Mateus Santos (*)

Entre viradas, diferenças apertadas, contestações e incertezas, Joe Biden foi eleito o quadragésimo-sexto presidente da História dos EUA, num processo eleitoral com contornos políticos complexos. Se, segundo René Rémond, em Por uma História Política, as eleições constituem um vasto campo de pesquisa aos historiadores, movidos nas últimas décadas pela recuperação do interesse pelo “político” enquanto objeto de reflexão, as eleições estadunidenses desse ano certamente farão parte das reflexões e dos estudos daqueles que se dedicam a este ofício. Contudo, enquanto alguém que escreve sobre um presente em curso, a primeira questão que fica é: as fronteiras desse processo já estão delimitadas a ponto de virarmos esta página? Deixo tal questão no ar.

Hoje, olhando para trás, analistas e uma parcela não desprezível daqueles que nas últimas semanas voltaram seus olhos para os EUA podem até dizer que estavam certos quanto à vitória de Biden na votação popular e mesmo no Colégio Eleitoral, por uma margem a que podemos considerar como convincente. No entanto, previsões são previsões. Para quem acompanhou com detalhe a apuração, a certeza deu lugar à incerteza diante do alto comparecimento de estadunidenses às urnas e da briga quase que voto a voto em estados considerados estratégicos. Mesmo hoje tendo projeções mais seguras sobre a derrota eleitoral de Trump, o trumpismo demonstrou sua força política ao ter mobilizado seu heterogêneo eleitorado a irem as urnas tentar salvar o seu  presidente e sua gestão desastrosa. Apesar da diferença da disputa no voto popular estar na casa dos 4 milhões, o candidato republicano ampliou sua votação em ao menos 8 milhões em relação à 2016, demonstrando que a derrota eleitoral está longe de evidenciar o fim da luta política.

Essa talvez seja a maior dificuldade pra quem enxerga a derrota de Trump como uma superação do autoritarismo nos EUA ou mesmo um marco possível de alterações estruturais naquele país. Numa conjuntura caracterizada por uma grave sanitária e política, a luta eleitoral nos EUA revelou não apenas o enfrentamento entre candidatos ou projetos de governo, mas um parcial plebiscito acerca de um projeto de poder em específico. Trump não foi apenas o candidato do Partido Republicano, mas a síntese complexa da chamada “América Profunda”, uma reação frente às mudanças sociais, econômicas e demográficas na população estadunidense nas últimas décadas. Mais do que isso, seu nome foi sustentado também pelo o que há de mais conservador e reacionário na sociedade acima do Rio Bravo. Sua derrota não significa o fim da polarização política e nem tampouco do trumpismo enquanto um movimento sustentado por amplos setores sociais. Na complexa relação entre luta política e a luta eleitoral (sem desconsiderar que as eleições fazem parte da política), as ruas, as mídias poderão a continuar a se caracterizarem como espaços de disputa, de enfrentamento de diferentes projetos de país, inclusive daquele que saiu perdedor nas urnas.

Para além de uma sociedade profundamente dividida, comparável aos efervescentes anos 70 do século XX ou ainda aos momentos da Guerra Civil Americana, as eleições de 2020 evidenciaram, mais uma vez, o verdadeiro caos do sistema eleitoral estadunidense. Um bipartidarismo cristalizado e um processo de eleições indiretas são verdadeiros componentes da face estrutural antidemocrática daquele país. Como evidenciado em texto publicado recentemente no site de mesmo nome deste jornal (Ver: https://www.pagina13.org.br/um-telejornal-um-colegio-eleitoral-e-mais-que-um-detalhe-historico/), as raízes mais profundas de tal sistema, especialmente em relação ao Colégio Eleitoral, não se encontram necessariamente nas alterações sociais das últimas décadas.

O processo indireto, considerado por Hamilton como um meio de supostamente garantir homens de qualidade no exercício da presidência, em verdade foi consequência do triunfo de um projeto específico de Estado no contexto de independência. Os chamados “pais fundadores” buscaram escolher os seus filhos ao estabelecerem uma profunda seletividade da liberdade, da igualdade e do direito à cidadania. Se para Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de Como as Democracias Morrem, o Colégio Eleitoral e posteriormente os partidos teriam exercido também a função de “guardiões da democracia” estadunidense, um olhar mais crítico sobre sua  formulação, concepção e experiência histórica evidenciam como democracia é, ao mesmo tempo, conceito e prática, devendo ser caracterizada de forma profunda.

“O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”?

Muitos que agora me leem já devem ter ouvido esta frase. Ela foi proferida pelo chanceler Juracy Magalhães, durante o governo Castelo Branco e curiosamente repetida, em certa medida, pelo atual governador de São Paulo em redes sociais no último dia 7 de Novembro. Num dos momentos de maior subserviência da Política Externa Brasileira, comparável talvez ao “alinhamento sem recompensa” do governo Dutra, a frase é muito sugestiva para evidenciar a natureza da inserção internacional brasileira neste período.

Não somente o governador de São Paulo, mas outras figuras da cena política brasileira se pronunciaram com certa euforia frente à vitória Democrata. Aos olhos de analistas e mesmo de setores de oposição ou de disputa do protagonismo da coalizão golpista com o bolsonarismo, a vitória de Biden abriria um quadro de incertezas nas relações Brasil – Estados Unidos. Como ficou evidenciado nos últimos dois anos, a natureza das ligações entre Brasília e Washington se confundiu em uma equação complexa envolvendo relações de Estado, de governo e de movimentos de extrema-direita. Trump, “o salvador do Ocidente”, na concepção do chanceler Ernesto Araújo cumpria papel-chave na perspectiva antiglobalista, sendo visivelmente a principal referência da extrema-direita em nível mundial.

Ainda nessa discussão, olhares para a reação da diplomacia brasileira frente ao governo Biden sugere alguma possibilidade de alteração da agenda ambiental, uma das inúmeras catástrofes do atual governo, ou mesmo questões relativas ao multilateralismo. Há quem chega a traçar um quadro comparativo entre as Eras Bolsonaro – Biden e o fim dos anos 70, período dos governos ditatoriais de Geisel/ Figueiredo no Brasil e Jimmy Carter nos EUA. Esse tipo de exercício peca em ao menos dois grandes aspectos. O primeiro deles reside nas diferenças significativas do chamado “Pragmatismo Responsável” em relação à atual fase da diplomacia brasileira. Apesar de reivindicar o passado ditatorial, o governo Bolsonaro consegue estabelecer um tipo de Política Externa quase que antagônico aquele que, com contradições e ambiguidades, vigorou após a Crise de 1973 e influenciou a Nova República.

O segundo grande problema desse tipo de comparação é desconhecer as raízes mais profundas das divergências entre Brasil e EUA naquele período. Apesar da agenda dos direitos humanos comumente ser considerada como um aspecto principal, não se deve esquecer que o apoio brasileiro ao MPLA em Angola após a independência, o Acordo Nuclear com a Alemanha Ocidental, a aproximação com os países árabes e a possibilidade de exercício de uma posição mais autônoma no Atlântico Sul foram alguns dos elementos de maior atrito entre Brasil e Washington naquele período. Aliás, como bem demonstrou Moniz Bandeira em seu Brasil – Estados Unidos: A Rivalidade Emergente (1950-1988), divergências entre estadunidenses e brasileiros não são meras exceções às regras.

Alimentar esperanças sobre uma possível rivalidade Biden e Bolsonaro como um aspecto positivo para o enfraquecimento do governo brasileiro esbarra num aspecto muito simples sobre Política Externa: nada mais Republicano do que um Democrata no governo. Mesmo não repetindo o equívoco da indiferença de 2016, não podemos também voltar à ingenuidade de 2008. O governo pelo qual Biden foi vice em duas oportunidades, Barack Obama (2008-2016), foi o mesmo responsável pela chamada “Onda Azul”, a verdadeira varredura dos regimes progressistas e de esquerda na América do Sul, sem contar seus efeitos nocivos para o Oriente Médio e mesmo ao Leste Europeu. Aliás, uma breve visita à trajetória da Política Externa Americana tende a apresentar muito mais consensos entre os Partidos do que aspectos de distinção. Afinal, no jogo do Imperialismo, trocam-se as peças, mas se mantém as regras.

Trump foi derrotado eleitoralmente, mas não levou consigo nem o autoritarismo, nem o imperialismo, nem tampouco o trumpismo. Se seu revés traz algum ânimo para as esquerdas pelo mundo, isto não pode se transformar em mais uma das muitas ilusões frente ao cenário internacional e suas perspectivas de “replicação automática” no Brasil. Lá e aqui, a luta eleitoral não pode ser o único capítulo da luta política. Ao contrário, mesmo o caótico sistema eleitoral estadunidense evidenciou como o voto e números (pesquisas e resultados) não são o suficiente para a derrota de um projeto de poder como o Trumpismo. A chave da reversão do quadro político e social de um país sob o comando da extrema-direita se encontra na organização dos setores populares, na disputa das consciências e na organização de um projeto alternativo de poder popular, fazendo da vitória eleitoral uma consequência do êxito na luta política.

(*) Mateus Santos é historiador e Militante do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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