Por Marcelo Martins (*)

Na “Cidade das Mangueiras”, o campo de esquerda quebra jejum de 16 anos e elege Edmilson Rodrigues do PSol para seu terceiro mandato na cidade. O PT foi vice na coligação vitoriosa, com Edilson Moura (ex-Secretário Estadual de Cultura, do governo do PT), e que contou ainda com a participação do PC do B, PDT, UP e REDE.

1° turno

A coligação com maioria e comando da esquerda belemense saiu na frente nas pesquisas e não teve surpresas em sua votação. Edmilson recebeu praticamente a mesma votação que obteve no primeiro turno das eleições de 2008 e 2016.

A burguesia se dividiu em 8 candidaturas. Vale lembrar que o pré-candidato apoiado por Bolsonaro, o Dep. Federal Eder Mauro, levou duro golpe do PSD, que lhe negou, por ampla maioria, a candidatura, optando por Gustavo Sefer.

O PSDB, do atual prefeito Zenaldo Coutinho, rejeitado pela população como o “pior prefeito da cidade” (nas pesquisas de opinião), apoiou o Thiago Araújo do ex-PPS (hoje Cidadania), inexpressivo deputado estadual, mas filho do presidente do tribunal de contas do município.

A família Barbalho apoiou o primo do governador e candidato a prefeito nas duas últimas eleições, o deputado federal José Priante (MDB).

Cássio Andrade (PSB), Delegado Eguchi (Patriotas) e Vavá Martins (Republicanos e pastor da Universal) corriam por fora, aparentemente sem grandes chances eleitorais.

As pesquisas eleitorais indicavam até a véspera do pleito um segundo turno entre Edmilson (PSol) e Priante (MDB). Entretanto, ocorreu uma “migração” de apoio e votos na última semana do 1° turno, quando pastores das principais igrejas evangélicas e setores da direita bolsonaristas converteram seu apoio ao Delegado Eguchi, que terminou esse turno eleitoral em segundo lugar com surpreendentes 23,06% dos votos.

Priante acabou sofrendo um baque nas suas pretensões eleitorais, grande parte creditado ao anti-barbalhismo, muito forte na capital parauara. E mesmo com forte apoio do atual governador Helder Barbalho, mesmo com o uso da “máquina estadual” para eleger o primo, isso acabou não sendo suficiente para vencer o anti-basbalhismo já registrado em outras eleições.

O campo conservador, que vai da extrema-direita, passando pela direita neoliberal e pela centro direita, se fracionou em diversas candidaturas. O que em certa medida foi responsável pela isolada e não ameaçada posição de primeiro colocado nas pesquisas e na votação que obteve Edmilson Rodrigues e o campo de esquerda, liderado pelo PSol e PT.

2° turno

Edmilson Rodrigues recebeu apoio de Cássio Andrade e parte da base de apoio de Priante, candidato que optou pela “neutralidade”, assim como Thiago. Edmilson recebeu apoio de parte dos setores sociais que circulavam em torno do PSDB, como comunicadores, artistas e personalidades influentes na capital.

Delegado Eguchi, um desconhecido da maioria do povo, obteve notoriedade em 2019, quando foi cotado para assumir a presidência do Ibama (regional) no desgoverno Bolsonaro. Porém, com o vazamento de áudio de suas conversas com madeireiros e latifundiários, na qual garantia livre passagem para desmatamento e queimadas na região, ficou “queimado” e não assumiu cargo algum.

O candidato do Patriotas recebeu amplo apoio das igrejas evangélicas. E, na reta final do 2° turno, do próprio Bolsonaro. Também recebeu apoio do prefeito Zenaldo (PSDB) e da “máquina municipal”.

As pesquisas eleitorais divulgadas na véspera do pleito indicavam vitória folgada de Edmilson (PSOL) sobre Eguchi (Patriotas) com margem de 16% de diferença a favor do candidato do campo de esquerda.

A campanha, no segundo turno, acabou por se tornar uma eleição plebiscitária entre o bolsonarismo e o campo de esquerda. Em grande medida seguiu o roteiro impresso pelas fake news da direita conservadora aos moldes do que ocorreu em Recife, São Paulo e Porto Alegre.

O resultado final das eleições nos permite abstrair ao menos três conclusões importantes: a) o campo de esquerda ainda não possui “armas eleitorais” para enfrentar a metodologia das mentiras e do desconstrutivismo do campo conservador; b) a unidade do campo de esquerda desde o 1° turno possui mais chances de vitória que uma precária unidade em 2° turno; c) urge trabalho de base nas áreas e setores populares e periféricos da cidade.

A vitória do campo de esquerda em Belém, única capital que governará no Brasil, abre possibilidades para novos rumos a serem seguidos. Mostra também as fragilidades que esse campo ideológico precisa superar num contexto onde ainda prevalece o fortalecimento da extrema-direita, em específico, e do campo conservador em geral.

Tucanagem em extinção(?)

O ano de 2020 foi terrível aos tucanos parauaras. O ex-governador, Simão Jatene, teve suas contas rejeitadas pela ALEPA, inclusive com os votos da maioria dos deputados tucanos, fato que abalou o ninho e piorou a situação ruim vivida na capital do Pará, após 8 anos de gestão na cidade. Zenaldo e o PSDB acumularam denúncias de corrupção; a cidade foi tomada pelo lixo, pelos buracos, pelo trânsito caótico; mas principalmente, pelo abandono de políticas sociais e estruturais nas periferias da cidade. Essa situação foi amplificada durante a pandemia do covid-19.

O apoio do PSDB ao número 2 de Bolsonaro em Belém aponta que os tucanos seguem o mesmo caminho trilhado em 2018, quando apoiaram o miliciano Jair e seguem lhe concedendo apoio em todas as votações nas duas casas legislativas federais. Há quem diga que o desastre eleitoral tucano tem origem nesse casamento com o fascismo.

AE nas eleições 2020 em Belém

Pela primeira vez, superamos nossa votação na cidade das mangueiras e tivemos uma candidatura competitiva com chances de conquistar uma vaga na câmara municipal. O companheiro Professor Leirson Azevedo, atual vice-presidente do PT de Belém, obteve 2.225 votos. Candidato local mais votado do DAMOS (Distrito Administrativo de Mosqueiro), com uma campanha militante, de esquerda e com amplo apoio popular e na juventude.

Leirson Azevedo é um dos principais nomes de renovação política e geracional do PT em Belém, juntamente com a vereadora Bia Caminha, uma jovem liderança, com atuação no movimento LGBT. Leirson Azevedo, pela expressiva votação como candidato a vereador e pelo belo trabalho no 2° turno das eleições municipais garantiu a vitória de Edmilson Rodrigues no DAMOS. É cotado para assumir a Agência Distrital do Mosqueiro.

(*) Marcelo Martins é historiador.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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