Por Roberto Nery*

Em algumas horas, Jair Bolsonaro (PSL) tomará posse como Presidente do Brasil, João Doria (PSDB) como Governador de São Paulo, Wilson Witzel (PSC) como Governador do Rio de Janeiro, Romeu Zema (Novo) como Governador de Minas Gerais, entre outros. Em pouco mais de um mês, uma bancada de Deputados Federais e Senadores ainda mais conservadora e retrógrada que as últimas também tomará posse no Parlamento. Segundo o DIAP¹, na nova composição (2019/2023), a direita aumentou sua influência, o centro diminuiu e a esquerda manteve seu peso, mostrando ainda uma polarização, mas com avanço claro da direita nas eleições deste ano.

Ainda assim, os números mantêm o PT como um dos maiores do país, sem sombra de dúvidas, independente do que outros queiram. São 47 milhões de votos no 2º turno, 56 Deputados Federais, 4 Senadores, 4 Governadores – sendo a única mulher, Fátima Bezerra no RN, vários Deputados Estaduais/Distritais eleitos, também tendo de considerar a grande influência de Lula, que seria eleito Presidente caso as liberdades democráticas estivessem plenamente vigentes. Porém, com a vitória de Bolsonaro e outros, além de redução da votação petista em todas as estados – exceto o Nordeste – é preciso fazermos uma análise real das táticas e estratégias tomadas nos últimos períodos.

Apesar da resolução que foi tirada no Diretório Nacional, – aprovada apenas pela ala majoritária do partido – será necessário debater sobre os erros cometidos pelo lado de cá que possibilitaram a vitória do lado de lá. Erros que tornaram o Partido dos Trabalhadores um partido sistêmico, como a política econômica adotada pelo governo Dilma em 2015, as alianças com setores golpistas e conservadores, os acenos de Haddad ao centro e a direita e a falta de direção na campanha, dentre outros.

Conforme cita a Resolução da Plenária Nacional de Tática e Organização da tendência petista Articulação de Esquerda², “as eleições de 2018 constituem uma derrota eleitoral e revelam uma derrota estratégica e, além disso, confirmam uma vez mais o esgotamento da estratégia adotada até aqui pelo Partido dos Trabalhadores e pela maior parte da esquerda brasileira”.

Em Minas Gerais não é diferente e tal processo também precisa ser feito. A eleição de Romeu Zema (Novo) não é fruto de erros somente desse ano, mas de um afastamento das bases decorrente de sucessivos erros táticos, exemplificados em alianças com setores antipopulares e antidemocráticos, como em 2008 com Lacerda e o PSDB de Aécio Neves ou mesmo no pós-golpe, com a manutenção de golpistas no governo Pimentel. Sem esquecer as várias alianças forçadas nas chapas do interior, onde caciques petistas definiram coligações até mesmo com o PSDB visando ganhos eleitorais.

Em 2018, apesar do estado ter sido um dos poucos onde o PT manteve seu último resultado, elegendo 10 estaduais e 8 federais, não ter alcançado o segundo turno é expressivo e marcante. Houve tentativas de aliar-se formalmente com o MDB e o PSB até o último segundo – sendo abandonado por ambos na eleição, inclusive com candidatos ‘socialistas’ fazendo campanha para Anastasia e Rodrigo Pacheco – mas pouco se dialogou com os movimentos sociais e a militância. O PSB, inclusive, foi um caso à parte com a decisão de ‘trocar Pernambuco por Minas Gerais’, indo contra decisões de encontros estaduais.

Já nas coligações proporcionais, além de candidatos petistas fazem dobradas com figuras golpistas como Marcelo Aro (PHS) e caciques do MDB, é também marcante que os dois deputados estaduais mais votados de nossa coligação estadual serem defensores de projetos totalmente antagônicos: enquanto Beatriz Cerqueira é Presidenta da CUT/MG e do SindUTE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação), Léo Portela (PR) apoiou o golpe e é defensor do projeto ‘Escola Sem Partido’, inclusive lançando uma revista em quadrinhos sobre a ‘doutrinação política dos professores’³. Minas colheu o que plantou, literalmente.

Na campanha, somado ao desgaste de ser governo (decorrente também dos entraves junto ao governo federal golpista, com a Lei Kandir e o corte de repasses ao Estado, mas também com erros políticos da gestão⁴), houve vários impasses. A coordenação de campanha pouco dialogou e ainda desincentivou atividades já programadas pela militância, além de muitas vezes somente servir aos ‘amigos’ – como na formatação do comitê central. Comitê esse que, burocratizado e ineficiente, acabou ‘substituído’ pelo Coletivo Alvorada – felizmente – que se tornou o maior ponto de distribuição de material em BH, principalmente no 2º turno.

Porém, apesar de tudo, houve acertos, essencialmente da base. Há de se parabenizar intensamente a militância, identificada ou não com o partido, pela sustentação que foi dada a toda eleição. Ao não ficar inerte, indo contra a ‘orientação’ dada (ou falta dela), fez com que a campanha existisse nas ruas, principalmente na reta final do 2º turno, onde o vira-voto fez com que tivéssemos um resultado melhor do que se desenhava.

Reafirmamos que, como a derrota sofrida não foi somente eleitoral e os tempos que virão não serão normais, será necessário um balanço que não seja cego e reverbere na prática. Todos os motivos aqui colocados sinalizam a necessidade de se fazer uma análise das táticas e estratégias tomadas e que não podemos adentrar no próximo período sem isso.

Boa parte dos erros tidos até aqui – sem desconsiderar também todos os ataques falsos e manipuladores – marcaram o partido cada vez mais como um representante do sistema, ao contrário daquele antissistêmico e socialista criado em 1980 pela base popular. E eles dificultam cada vez mais da militância construir o PT, pois mesmo sem concordar com diversas atitudes, sofrem com os erros da direção – que muitas vezes nem vê isso, de tão distante que está da base.

Precisaremos retomar o equilíbrio entre a luta institucional (em governos e parlamento), a luta social (nas ruas) e a luta ideológica (disputa de consciência). Enquanto o lado de lá diz cotidianamente que quer nos destruir, nós não podemos continuar na ilusão da política de conciliação de classes adotada pelo PT nos anos de governo. O próximo período exige que seja combinada a defesa nas ruas e no parlamento e fazer uma aproximação junto ao povo.

Para isso, é necessário que o PT retome o trabalho de base, se empenhando para participar entidade de base da igreja, do movimento estudantil, dos bairros e dos mais diversos movimentos. É necessário que o PT faça seu Congresso⁵, realize balanço e renove nossas direções, que foram frágeis e incapazes de dar linha política no último período, preferencialmente com atores e atrizes que de fato queiram tocar o partido na base e não apenas se aproveitar das estruturas partidárias. É necessário que haja uma reinvenção dos nossos diretórios municipais, que em grande parte deixaram de existir após o deplorável PED de 2017, para que voltem a se reunir, realizem eventos públicos e façam campanha de filiação locais. É preciso que as sedes do partido se tornem centros vivos, com reuniões e atividades abertas, exposições culturais, formação, grafite, bar, enfim, que seja um centro pulsante nas cidades, com a participação da militância e das organizações sociais.

2019 será de muita luta e temos de preparar nossas organizações para que elas estejam a altura do desafio que se apresenta. Um ótimo ano para todos! Lula Livre!

*Roberto Nery é estudante da UFMG e da Direção Estadual da JPT e da UEE MG.

Foto: Coletivo Alvorada e o trompetista – MG, 9/9/18 – Mídia NINJA (flickr)

¹ http://www.diap.org.br/index.php/publicacoes/viewcategory/100-novo-congresso-nacional-em-numeros-2019-2023
² https://www.pagina13.org.br/plenaria-nacional-articulacao-de-esquerda-15-a-17-de-novembro-de-2018-texto-base/
³ https://www.otempo.com.br/hotsites/aparte/candidatos-distribuem-cartilha-defendendo-o-escola-sem-partido-e-causam-pol%C3%AAmica-1.2047511
https://www.pagina13.org.br/em-minas-gerais-o-pt-precisa-romper-com-os-golpistas/
https://www.pagina13.org.br/congresso-plebiscito-e-direcao/

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